Por Solange Maria do Carmo
Vai e volta, a gente conhece alguma comunidade eclesial que tem o hábito de separar as crianças na hora da missa e levá-las para um lugar à parte, onde são cuidadas por voluntários que cantam, rezam, brincam, evangelizando-as. Enquanto isso, “seus pais participam sossegados da missa”, dizem os adeptos desta prática. Não temos a menor dúvida de que a intenção dos voluntários é boa e de que a paróquia que tem este hábito se preocupa com o bem-estar dos seus membros. Mas o que preocupa mesmo é outra coisa: a consciência de que missa não é coisa para criança e o fato de pensar que elas atrapalham. Certamente a missa é para todos, inclusive para crianças. Exatamente porque ela trabalha com o símbolo, o rito, a música, consegue atingir todas as idades. Fosse ela uma aula, certamente teríamos que separar os participantes rigorosamente por idades, pois cada idade tem um processo cognitivo próprio. Mas a liturgia tem a linguagem do coração, não do intelecto – ou, pelo menos, deveria ter! É mistério de Cristo que é celebrado e o mistério a gente não decifra, nem explica; a gente acolhe. E as crianças também, a seu modo é claro, estão aptas ao mistério de Cristo. O amor de Deus celebrado na Eucaristia toca-lhes também o coração, fala também à sua consciência infantil. Privar as crianças da celebração é privá-las da oportunidade de serem alfabetizadas no mundo litúrgico, impedindo-as de pouco a pouco experimentarem o delicioso sabor da presença de Deus na comunidade eclesial. Além do mais, o conceito que sustenta esta prática é que as crianças atrapalham. Meu Deus! Criança não atrapalha; criança alegra e enfeita o ambiente. A espontaneidade e o vigor delas dão colorido à liturgia. Eliminá-las da celebração é matar a vitalidade da comunidade eclesial; é arrancar da celebração sua expressão da vida. Uma missa sem crianças é um ambiente artificial, como uma missa sem jovens, sem velhos ou doentes. Enquanto a Igreja na Europa lamenta o envelhecimento de suas celebrações pois lhe sobrou somente adultos e velhos nos templos, nós – que deveríamos nos alegrar com a presença das crianças em nossos meios – articificializamos o clima celebrativo separando as crianças de nós. Vai entender! Confesso: a intenção é boa, mas a prática não é salutar. Melhor repensar este hábito eclesial que vem se firmando em nossas paróquias.
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Solange Maria do Carmo é teóloga-leiga. Sua trajetória pastoral tem início nos anos 80, quando engajou-se em movimentos de juventude e, logo em seguida, descobriu a força da Palavra de Deus com grupos de reflexão bíblica na Universidade Federal de Viçosa, onde cursou engenharia agrícola. Durante dezesseis anos, ela serviu a Igreja como missionária leiga, engajada numa comunidade de vida que prestava serviços de evangelização e catequese nas dioceses onde morou (Mariana – 10 anos – e Paracatu – 6 anos). Sua trajetória catequética remonta o ano de 1991, quando juntamente com o Pe. Orione (diocese de Mariana), empreendeu um projeto de evangelização na cidade de Viçosa, na Paróquia Santa Rita de Cássia, onde residiam. Nasceu desta parceria um sonho de evangelizar crianças e adultos, proporcionando a todos a experiência cristã de Deus, por meio de encontros catequéticos semanais dos mais diversos tipos.
Colaborou: www.fiquefirme.com.br
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