Por Hermes Fernandes
Anteriormente, apresentamos aqui um estudo sobre a origem e o Movimento Deuteronomista. Hoje desejamos apresentar um estudo sobre a estrutura e mensagem do livro Deuteronômio. O texto anterior, assim como outros estudos sobre o Primeiro Testamento, terão seus links elencados ao final do presente estudo. Vamos embarcar nessa aventura bíblica?
Como tudo começou
Josias, como dissemos em artigo anterior, subiu ao trono ainda menino. Tinha cerca de oito anos quando seu pai, Amon, foi assassinado. Durante os dez anos de sua menoridade, o grupo de regentes que assumiu o governo retomou a reforma iniciada pelo rei Ezequias. Depois, aos 18 anos de idade, o próprio rei Josias deu continuidade à reforma, sobretudo a partir de 622 a.E.C, o ano em que foi encontrado no Templo de Jerusalém o que eles chamavam “O Livro da Lei” (cf. 2Rs 22,8-10). Durante os trabalhos de reconstrução do Templo, os operários encontraram o que chamavam “Livro da Lei”, provavelmente, um rascunho do Livro do Deuteronômio. Estes operários levaram o livro à presença do rei Josias e o leram diante dele. a Bíblia nos conta este acontecimento em detalhes. Vamos ao texto: “Ao tomar conhecimento sobre o conteúdo do Livro da Lei, o rei rasgou suas vestes. O rei ordenou então ao sacerdote Helcias, a Aicam, filho de Safã, a Acabor, filho de Miqueias, ao secretário Safã e a Asaías, ministro do rei: ‘Ide logo consultar o Senhor sobre mim, pelo povo e por toda a Judá, a respeito das palavras do livro que foi encontrado. Com efeito, grande deve ser a ira do Senhor inflamada contra nós, porque nossos pais não obedeceram às palavras deste livro, nem puseram em prática tudo o que nos foi prescrito'” (2Rs 22,11-13). Eles foram então consultar à profetisa Hulda, que confirmou a veracidade do Livro (cf. 2Rs 22,14-20).
O conteúdo do livro encontrado durante a reforma do Templo era uma leitura atualizada da Lei de Deus feita pelos levitas, em vista da situação difícil em que viviam. Vimos em nosso artigo anterior que o Reino do Norte (Israel) fora destruído por Sargon, rei da Assíria, no ano de 721 a.E.C. (cf. 2Rs 17,3-6; 18,9-12). Neste contexto, o Reino do Sul, Judá, tomou-se de medo e decidiu restaurar a fidelidade a YHWH. Assim, na origem do Livro do Deuteronômio, não existe uma determinada pessoa que possa ser identificada como autor. O que temos é um Movimento de Reforma, iniciado pelos profetas, aprovado pelo rei Ezequias e levado adiante pelos levitas. É aos levitas que alguns estudiosos atribuem a autoria do “Livro da Lei”, o qual, foi encontrado no Templo por ocasião da supracitada restauração do prédio (cf. 2Rs 22, 8-10).
A Estrutura do Livro do Deuteronômio
Podemos dizer que o Deuteronômio se apresente como o Testamento de Moisés. No fim dos quarenta anos de peregrinação pelo deserto, pouco antes de morrer, Moisés fez três discursos dando ao povo instruções finais, alertando sobre os perigos, indicando os caminhos a seguir e pedindo fidelidade a YHWH, que os tinha acompanhado ao longo da travessia. Por isso, o Livro do Deuteronômio se divide em três partes, conforme os três discursos de Moisés:
- Primeiro Discurso: Dt 1,1 até 4,43 – Discurso de Introdução ao Livro da Lei
- Segundo Discurso: Dt 4,44 até 28,68 – A Lei propriamente dita
- Terceiro Discurso: Dt 28,69 até 30,20 – O objetivo da Lei: escolher a Vida (cf. Dt 30,20)
- Apêndice: Dt 31,1 até 34,12 – O final da vida de Moisés e alguns cânticos
A Mensagem de um Deus ao seu Povo
O Movimento Deuteronomista recolhe todo este espírito de renovação iniciada pela pregação dos profetas do Reino do Norte (Israel), sobretudo, dos profetas Elias, Eliseu, Amós e Oséias. Ele é o ponto de partida de toda uma releitura da história do Povo de Deus que agora está relatada nos livros de Jusué, Juízes, Primeiro e Segundo Livros de Samuel e Primeiro e Segundo Livros dos Reis. Este conjunto de livros é chamado História Deuteronomista. É no espírito do Deuteronômio que foi feita a redação final da história do Povo de Deus, registrada no Primeiro Testamento.
O Deuteronômio é o livro do Primeiro Testamento mais citado nos escritos do Segundo Testamento. Portanto, podemos concluir que o Livro de Deuteronômio é – também – importante como referencialidade da Nova Aliança.
Ficamos por aqui. Até a próxima!
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