Festa de Santo André, Apóstolo

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Para celebrar neste 30 de novembro a Festa de Santo André, a liturgia nos oferece o texto mateado de Mt 4,18-22. Diz assim:

Naquele tempo, 18quando Jesus andava à beira do mar da Galileia, viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André. Estavam lançando a rede ao mar, pois eram pescadores. 19Jesus disse a eles: “Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens”. 20Eles imediatamente deixaram as redes e o seguiram. 21Caminhando um pouco mais, Jesus viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João. Estavam na barca com seu pai Zebedeu, consertando as redes. Jesus os chamou. 22Eles imediatamente deixaram a barca e o pai, e o seguiram.

Jesus começou a constituir sua comunidade na região da Galileia (cf. Mt 4,18-22). Este era um problema para o judaísmo formativo. Quem poderia imaginar que o Messias esperado iniciaria sua atividade na Galileia? Os judeus da Galileia eram desprezados porque nessa região era constante o contato com os estrangeiros. E como a distância de lá até Jerusalém era maior, tornavam-se difíceis os rituais de purificação. Parte da população mais pobre vivia da pesca do Mar da Galileia. Trabalho considerado de segunda ou terceira categoria. Foi do meio desta gente desclassificada que Jesus chamou seus primeiros discípulos a segui-lo. Ele convidou duas duplas de irmãos, Simão e André, Tiago e João. Todos pescadores. Estes deixaram suas redes e se colocaram ao caminho. Aqui vale registrar que a imagem da pesca estava intimamente ligada ao juízo final. Por isso, mais que um chamado ao discipulado, a vocação destes primeiros discípulos significava um convite à conversão.

A Literatura Joanina apresenta o chamado destes discípulos de forma mais elaborada (cf. Jo 1,41-42). “Encontramos o Messias!”. Eis a expressão de alegria sem conta e da gratificante certeza daqueles que se descobrem atingindo a meta tão desejada! Com estas palavras, narradas no Evangelho de João, André vai depressa ao encontro do seu irmão Pedro, para lhe transmitir a emoção de ter sido chamado por Jesus.

Discípulo de João Batista, André reconheceu no filho de José, o carpinteiro, o “Cordeiro de Deus”. O Evangelista recorda até a hora daquele encontro nas margens do Rio Jordão, que marcou para sempre a sua existência: “Eram cerca de quatro horas da tarde” (Jo 1,39b).

Mestre, onde moras?” (Jo 1,38). A resposta de Jesus à pergunta de André e de um seu companheiro, não tardou a chegar: “Vinde ver” (Jo 1,39a). Era um convite que não podiam rejeitar; era a prólogo de um outro chamamento, mais explícito, que Jesus faria também a Simão, seu irmão, nas margens do mar da Galileia:  “Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens” (cf. Mt 4,19). Os dois ficaram admirados, mas não hesitaram, como narra o evangelista Mateus: “Deixando logo as redes, o seguiram” (Mt 4,22).

Em uma de suas catequeses sobre os Apóstolos, o Papa Bento XVI faz um completo retrato de Santo André, através de relatos do Evangelho:

«A primeira característica que em André chama a atenção é o nome: não é hebraico, como teríamos pensado, mas grego. Sinal de que não deve ser minimizada uma certa abertura cultural de sua família. Estamos na Galileia, onde a língua e a cultura gregas estão presentes de forma significante. Nas listas dos Doze, André ocupa o segundo lugar em Mateus (10, 1-4) e em Lucas (6, 13-16), ou o quarto lugar em Marcos (3, 13-18) e nos Atos (1, 13-14). Contudo, ele gozava certamente de grande prestígio nas primeiras comunidades cristãs.

O laço de sangue entre Pedro e André, assim como o comum chamado que Jesus lhes faz, sobressaem explicitamente nos Evangelhos. Neles lê-se: “Caminhando ao longo do mar da Galileia, Jesus viu os dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André, que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores. Disse-lhes: ‘Vinde comigo e Eu farei de vós pescadores de homens'” (Mt 4, 18-19; Mc 1, 16-17). Do quarto Evangelho tiramos outro pormenor: num primeiro momento, André era discípulo de João Batista; e isto mostra-nos que era um homem que procurava, que partilhava a esperança de Israel, que queria conhecer mais de perto a Palavra do Senhor, a realidade do Senhor presente. Era verdadeiramente um homem de fé e de esperança; e certa vez, ouviu João Batista proclamar Jesus como “o Cordeiro de Deus” (Jo 1, 36). Então ele voltou-se e, juntamente com outro discípulo que não é nomeado, seguiu Jesus, aquele que era chamado por João o “Cordeiro de Deus”. O evangelista narra: “viram onde morava e ficaram com Ele nesse dia” (Jo 1, 37-39). Portanto, André viveu momentos preciosos de familiaridade com Jesus.

A narração continua com uma anotação significativa: “André, o irmão de Simão Pedro, era um dos dois que ouviram João e seguiram Jesus. Encontrou primeiro o seu irmão Simão, e disse-lhe: ‘Encontrámos o Messias’ que quer dizer Cristo. E levou-o até Jesus” (Jo 1, 40-43), demonstrando imediatamente um espírito apostólico não comum. Portanto, André foi o primeiro dos Apóstolos a ser chamado para seguir Jesus. Precisamente sobre esta base, a liturgia da Igreja Bizantina o honra com o vocativo de Protóklitos, que significa exatamente “primeiro chamado”. E não há dúvida de que devido ao relacionamento fraterno entre Pedro e André, a Igreja de Roma e a Igreja de Constantinopla se sentem irmãs entre si de modo especial.

As tradições evangélicas recordam particularmente o nome de André noutras três ocasiões, que nos fazem conhecer um pouco mais este homem. A primeira é a da multiplicação dos pães na Galileia.

A segunda ocasião foi em Jerusalém. Saindo da cidade, um discípulo fez notar a Jesus o espetáculo dos muros sólidos sobre os quais o Templo se apoiava. A resposta do Mestre foi surpreendente: disse que não ficaria em pé nem sequer uma pedra daqueles muros. Então André, juntamente com Pedro, Tiago e João, interrogou-o: “Diz-nos quando tudo isto irá acontecer e qual o sinal de que tudo está para acabar” (Mc 13, 1-4). Para responder a esta pergunta Jesus pronunciou um importante discurso sobre a destruição de Jerusalém e sobre o fim do mundo, convidando seus discípulos a ler com atenção os sinais do tempo e a permanecer sempre vigilantes.

Por fim, nos Evangelhos está registada uma terceira iniciativa de André. O cenário ainda é Jerusalém, pouco antes da Paixão. Para a festa da Páscoa, narra João que tinham vindo à cidade santa alguns Gregos, provavelmente prosélitos ou tementes a Deus, que vinham para adorar o Deus de Israel na festa da Páscoa. André e Filipe, os dois apóstolos com nomes gregos, servem como intérpretes e mediadores deste pequeno grupo de Gregos junto de Jesus.

Tradições muito antigas veem em André não só o intérprete de alguns Gregos no encontro com Jesus agora recordado, mas consideram-no como apóstolo dos Gregos nos anos que sucederam ao Pentecostes» [1].

A tradição refere a morte de André por volta do ano 60, em Patras. No momento da crucifixão, pediu para que a cruz fosse transversalmente inclinada, a chamada “cruz de Santo André”. Uma antiga narração atribui-lhe palavras que mostram a Cruz não tanto como um instrumento de tortura, mas de Redenção: «Ó Cruz bem-aventurada, que recebestes a majestade e a beleza dos membros do Senhor!… Toma-me e leva-me para longe dos homens e entrega-me ao meu Mestre, para que por teu intermédio me receba quem por ti me redimiu».

Escritos dos primeiros séculos do cristianismo, apontam o apóstolo como evangelizador da Ásia Menor e das regiões ao longo do Mar Negro.

Santo André é venerado como Padroeiro da Roménia, Ucrânia e Rússia.

Para nossas comunidades de hoje, o testemunho de Santo André se faz efetivo quando nos imaginamos em momentos, nos quais, a coragem e o desprendimento nos são pedidos. Assim como Jesus anunciou que não ficaria “pedra sobre pedra” da grandeza de Jerusalém, devemos estar cientes que os poderes opressores de nosso tempo tendem a ruir. Cabe-nos escolher de que lado estaremos neste momento. Dos poderes opressores ou o lado do Evangelho, que nos aproxima da realidade do Reino de Deus. Onde os pobres e pequenos terão precedência diante do Rei, Jesus. De que lado estamos? Do lado dos poderosos e seus planos de morte, ou do lado de Jesus que ressignifica a vida dos pobres, desde seu nascimento? Vale pensar! O Apóstolo André escolheu o Reino de Deus.

Nota

[1] Bento XVI, Audiência, 14/06/2006.

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