Catequese e Liturgia – Parte 24: “Ministérios no Altar e o Papel do Seminarista na Liturgia”

Por Hermes Fernandes

O presente texto não pretende ser normativo. Não se atribui à tal arrogância. Ao contrário, pretende ser propositivo e reflexivo. Em atenção às muitas conversas com estudantes de teologia, com leigos e leigas de nossas comunidades e com jovens que se colocam no projeto de formação sacerdotal.

Dentro do contexto de nossa Igreja, animada pelo pontificado do amado Papa Francisco, a preocupação com os ministérios se faz pungente. Não é incomum nos dirigirmos para uma celebração da Eucaristia e depararmo-nos com a presença de uma multidão de pessoas, circundando o Altar. Acólitos diversos, de todas as idades, Ministros da Palavra, Ministros Extraordinários da Eucaristia, Diácono(s), Seminaristas. Cada qual, com sua veste buscando a solenidade que se acha necessária ao momento. E o Ministro Ordenado, presidente da celebração, perdido na multidão de ministros não ordenados. Penso que é momento de se maturar o sentido ministerial de cada pessoa que circunda o Altar. A superlotação visual pode levar a uma perda de sentido. Ou afastar a Assembleia Celebrante de uma real interação.

Acólitos Mirins

À exceção dos acólitos revestidos das ordens menores, penso que se deve atentar para a idade daqueles que comumente conhecemos como coroinhas. Há que se considerar alguma especial atenção. Para que não haja um contingente de grande número, sem ter cada qual uma função específica na celebração. Já cheguei a contar 9 acólitos, de idades variando entre 7 e 21 anos. E que se registre o fato dos jovens (21 anos) não se tratar de seminaristas que já receberam as Ordens Menores. O que nos faz concluir que, às vezes, temos nossos coroinhas eternos.

Para estes acólitos, penso ser oportuna a adequação do momento cronológico ao da iniciação à vida cristã. Após a Primeira Comunhão até o Crisma. Acólitos que ainda não participem da comunhão eucarística não se justifica a presença como auxiliar no altar, uma vez que – ele ou ela – ainda não fizeram sua experiência com o Cristo Eucaristizado. Após o Crisma, penso que seja momento do jovem assumir outras dimensões pastorais e ministeriais. Sendo a Liturgia a ritualização da vida cristã, aquele que se prende ao altar ritual, esquece-se do altar existencial do Povo de Deus.

Após o Crisma, deve o Jovem dar um passo mais profundo no compromisso ministerial na Igreja. Na Pastoral da Juventude, na catequese, nas associações de fiéis, nos movimentos eclesiais. É preciso que deixe o acolitato infante (mirim) e ingresse na Vida Adulta, como seguidor e seguidora de Jesus. Não se prendendo a uma espécie de “complexo Peter Pan”, onde se entra na vida adulta, com compromissos eclesiais de criança. Em síntese, estes nossos acólitos (meninos e meninas), que não tenham recebido as ordens sacras menores (em caso de seminaristas e candidatos ao Diaconato Permanente), deixem esta função no Altar para os meninos e meninas que estão no período após a primeira comunhão e anterior ao Crisma.

Ministros Extraordinários da Eucaristia

Que em cada celebração se tenha o número restrito e necessário ao Rito de Comunhão. Trata-se de um serviço e não de um lugar de status. A posição onde tomam assento deve também estar sob critério. Trata-se de um ministério não ordenado, ao serviço da comunidade e bem fluir da Liturgia. Insisto: Não se trata de um status de “super católico”. É serviço! Deve ser exercido a partir da discrição e humildade.

Diáconos

A presença de Diáconos na Liturgia, Permanentes ou Transitórios, dispensa comentários litúrgicos. Ali estão como ministros ordenados. Com a função do anúncio do Evangelho e da partilha do Pão. Porém, não podemos deixar de sublinhar a necessidade de se resgatar o sentido bíblico da diaconia. Alguns de nossos Diáconos se sentem parte integrante do Altar, entendendo que este – o Altar – justifique seu ministério. Nem o presbítero pode se entender assim. O Diácono, antes de mais nada, é sinal do Abraço acolhedor e Misericordioso do Pai. A função do Diácono é, antes de mais nada, ser referência da solidariedade e partilha, conforme foram os primeiros a viver essa missão em Atos dos Apóstolos (cf. At 6,1-7). Acolher e amparar os órfãos e as viúvas hoje vem significar o amparo a todos os empobrecidos na Comunidade ou os que a ela recorram. O Diácono, antes de ir ao Altar de Deus, deve ir ao Altar dos Pobres e servir nele Jesus Crucificado. Quem não entendeu isso, não entendeu o diaconato.

Seminaristas

A presença do seminarista na comunidade paroquial é bem confusa em seu sentido. Há quem queira lhe dar um reconhecimento e incentivo, colocando-lhe junto aos ministros ordenados nas atribuições ordinárias e litúrgicas. Como se assim sinalizasse um apoio ao chamado à vida consagrada e sacerdotal. No que se refere à intenção, nada a questionar. É louvável que os padres e bispos queiram dar um afago à psique destes jovens que se iniciam no caminho formativo, muitas vezes difícil. Porém, em alguns casos, parece que esta etapa de passagem entre o laicato e a condição de clérigo perde algumas referências.

Uma das coisas que sempre me incomoda é, logo após o ingresso na vida formativa, muitos seminaristas – mesmo no propedêutico – já desfilam com suas batinas e camisas de colarinho clerical, o clergyman. O próprio apelido dado à camisa clerical já define seu sentido e a quem é destinada. Clergy – Man! Não fica claro que se refere ao clérigo? Portanto, não é uma forma de “passar o carro à frente dos bois” quando um seminarista, recém acolhido na Casa de Formação, já se coloque em uso cotidiano desta veste identificativa? Sendo esta uma roupa clerical, não é apropriada ao seminarista. Só com o diaconato se adentra no Ministério Ordenado. O seminarista é leigo. Parece uma tentativa de se negar sua condição laical, como se esta fosse indesejada. Dom Luciano Mendes de Almeida dizia que no Seminário se constrói o homem e se aprimora a vocação. Só quem entende profundamente a teologia do laicato é capaz de ser clérigo ao exemplo do Bom Pastor. O contrário disso, é se perder em vaidades e relações de poder. Vale pensar!

Na Liturgia, penso que a pessoa do seminarista também se faz deslocada. Alguns de nossos jovens, assim que aceitos em Casas de Formação, já providenciam suas Alvas, Túnicas, Batinas e sobrepelizes. Cada qual mais rica e bela! Não podem ouvir um badalar de sinos que já se metem dentro destas vestes, assumindo uma postura séria, angelical. Quase podemos ver semelhanças com as obras de Aleijadinho em Mariana e Ouro Preto, MG. Perdoem a anedota. Aqui a uso para que se entenda a superficialidade destas posturas. Estes seminaristas com “carinha de anjo barroco” estão a encenar um personagem. Não se trata da realidade.

Primeiramente, o mundo das batinas e rendas está revestido de certo anacronismo histórico. Nocivo, de certa forma! E o Barrete? O próprio Papa fala destes exageros de forma exortativa. Sobre este tema, queria indicar a leitura de outro texto nosso: “O Que o Papa realmente desejava exortar ao criticar “as rendas da vovó” na Liturgia?”

Em uma segunda reflexão, faz-se mister lembrar que estes seminaristas estão em estado de formação. Não podem e nem devem assumir posições pedagógicas na Caminhada Eclesial e na Liturgia. Devem viver seu momento formativo na condição de formandos, discípulos. Para tanto, deve evitar todo e qualquer sinal externo que remeta às relações de poder. E há seminaristas muito cheios de si, que chegam até a oprimir o povo.

Por fim, sobre a presença dos seminaristas na Liturgia, penso ser útil lembrar os critérios anteriores deste nosso texto. Não são clérigos, também não se trata de crianças antes de receber o Sacramento do Crisma. Assim, exceto em algumas celebrações de solenidade diocesana, como a Missa dos Santos Óleos, Ordenações; penso ser fora de lugar o seminarista no altar, com suas túnicas – às vezes mais solenes que as vestes do bispo e presbítero. A presença do seminarista no Altar se justifica após o recebimento das Ordens Menores, isto é, o Leitorato e Acolitato. Antes disso, é perder a oportunidade de se viver a etapa de discipulado. Cada coisa ao seu memento.

À guisa de Conclusão

Como dito anteriormente, nosso texto não deseja ser normativo. Não pretende ser a voz da razão. Ao contrário, propõe o debate maduro e consciente, à luz da partilha e sinodalidade. O bem viver dos ministérios nos possibilita o caminhar de uma Igreja onde todas e todos tenham seu lugar e, a partir dele, celebre a vida e a esperança, com alegria e amor fraterno; como bem nos inspira o Salmo 132: “Como é bom e agradável viverem juntos os irmãos”.


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