Por Pe. Hermes A. Fernandes
Com a celebração da Solenidade da Epifania do Senhor, encerramos o Ciclo do Natal na Liturgia. A perícope evangélica que esta celebração nos oferece é Mt 2,1-12. Entre as narrativas mateanas sobre a infância de Jesus, o presente texto nos oferece o episódio do encontro de Herodes com os magos do oriente e, em seguida, o encontro e homenagem destes ao Menino Jesus, nascido em Belém. O Emanuel, Deus conosco.
As narrativas acerca da infância de Jesus não podem ser entendidas como biográficas ou jornalísticas. São resultado da reflexão das primeiras comunidades cristãs, que procuravam compreender o significado da vida e ministério de Jesus. Podemos entender por esse olhar o episódio mateano que nos apresenta a Liturgia de hoje. Não se trata de relato literal. Aproxima-se mais da midraxe, da catequese. O Evangelista Mateus se serviu das experiências mistagógicas das primeira comunidades para mostrar que Jesus é o verdadeiro Rei do Povo de Deus. Sendo ele o Rei legítimo, advindo do Pai, sua vida é ameaça para uns e salvação para muitos. As autoridades poderosas de seu tempo, como o rei Herodes, se sentem ameaçadas com a notícia de que o Rei profetizado outrora, se fazia realidade. Todavia, o povo mais simples, os excluídos e marginalizados da Palestina e arredores – isto é, os países estrangeiros considerados terra dos gentios – se alegravam com Jesus, vendo-o como o Rei Justo e o Salvador das profecias do Primeiro Testamento.
Podemos, em um primeiro olhar, nos perguntar: a quem o nascimento de Jesus ameaçava? No Primeiro Testamento encontramos a profecia que o Emanuel nasceria em Belém. Os magos do oriente, com base no conhecimento próprio de sua cultura, viram na Estrela que este tempo havia chegado. Por isso, foram até a capital do poder político e religioso, Jerusalém. Uma vez diante de Herodes, perguntam: “onde está o recém-nascido rei dos judeus?” Informando-se com os sábios de seu reino, foi verificado que ele – o Rei dos Judeus – deveria nascer em Belém. Cidade onde havia nascido Davi, o rei justo. E o povo, sobremaneira os mais pobres, esperava que um descendente de Davi, igualmente justo, viesse para libertá-lo da opressão romana e levá-lo a viver segundo a Justiça e o Direito. Conforme a tradição dos povos do oriente, uma estrela seria o sinal do nascimento de algum personagem importante. Daí a presença da estrela no relato mateano. Também na tradição de Israel, a estrela simbolizava o sinal da ação divina no chamado e envio de alguém que agiria em nome de Javé no meio de seu Povo. “Um astro nascido de Jacó se torna chefe; um cetro se levanta, saindo de Israel” (Nm 24,17).
O encontro dos magos do oriente com Herodes nos é bem significativo. Ele não é um rei legítimo para o Povo Judeu, pois era estrangeiro, colocado no trono pelo interesse do Império Romano. Tratava-se de um usurpador, uma espécie de testa de ferro a serviço de interesses próprios e do Império, que desde Roma, espalhando-se por toda a oikumene; reduzia o povo palestino à miséria e escravidão. Sendo eles todos – Império Romano e Herodes (usurpador cooptado) – inimigos do bem comum do povo, opressores e espertalhões; não foram capazes de compreender os sinais da Ação de Javé. A estrela que os magos do oriente viam, não lhes era perceptível aos olhos. Os que estão a serviço dos projetos de morte, são incapazes de ver os sinais de vida que resiste.
Ao saber que um Rei havia nascido, Herodes fica com medo. O texto mateano nos apresenta por sua sutileza que toda Jerusalém se sente ameaçada. Esta referência à cidade não se trata do povo. Não os humildes e perseguidos. Ao referir-se a “toda cidade de Jerusalém” (Mt 2,3b), Mateus fala dos poderosos, aliados de Herodes e vassalos do Império Romano. Os opressores e seus comparsas. Por isso, Jesus – o Rei esperado – era uma ameaça para seus privilégios e mordomias. Assim, sentiram medo. Municiado pela artimanha dos hipócritas, Herodes pede aos magos que vão até o recém-nascido, dando-lhe, em seguida, sua localização exata para que ele também pudesse ir prestar-lhe homenagem. Ele, que vivia cercado de seus cooptados, seus comparsas, deseja corromper os magos do oriente, mesmo que por falsidade, e – com a informação necessária do paradeiro de Jesus – pudesse ir ao seu encalço e matá-lo. Os poderosos sempre acham que podem usar a tudo e todos. Acham que podem tudo.
Se para Herodes e seu séquito Jesus é uma ameaça, para o povo sofrido ele vem como salvador. Os pobres e marginalizados se alegram com sua vinda porque veem nele o ressurgir da esperança por liberdade e vida. Tal esperança ressurge sempre que a justiça de Deus se faz possível face às situações de opressão. Jesus significa vida e liberdade, face à escravidão e a morte. Esta esperança é luz. Uma centelha que ilumina a noite inteira. Aqui se explica, mais uma vez, a imagem da estrela que guia os magos do oriente.
A vinda dos sábios (magos) do oriente, representa todos os povos que esperam ardentemente pelo Rei Justo, que libertará a todos e todas dos inimigos e os ensinará a viver na justiça e no direito. A presença de magos do oriente no relato de Mateus nos aponta a universalidade da mensagem e ação de Jesus. Embora distantes da religião do Povo de Deus, os Judeus, eles – os magos do oriente – sabem distinguir os sinais que apontam para a chegado do Messias, o Rei Justo – como definiam as profecias. O sinal da estrela nos indica que precisamos estar atentos para os sinais que aparecem na história e na sociedade, nos apontando possíveis dias melhores, onde a liberdade e a justiça florirão (cf. Is 11,1).
Que o Evangelho que nos é anunciado na Liturgia de hoje possa resgatar em nós a esperança que deve florir em nossa história. Assim como o Povo de Deus esperava por libertação nos tempos de Jesus, também nós vivemos sob similar expectativa. Igualmente estivemos sob o punho cerrado dos violentos e cooptadores, que desejam seduzir a todos e todas para a manutenção de poderes injustos e totalitários. Vimos se levantar os opressores em nosso tempo. Que ao celebrar o nascimento da Nova Justiça, isto é: Jesus; possamos renovar nosso compromisso com o Reino de Deus. Afinal, ele está no meio de nós!
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