“Livrai-nos do mal”

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Toda comunidade cristã faz uso do modelo que nos é apresentado por Jesus de oração. O Pai Nosso nos acompanha em nosso diálogo com Deus. Chamamo-no de Pai. Pedimos que seja feita sua vontade, que seu Reino venha até nós. Pedimos que nos dê o pão de cada dia, que nos fortaleça face às tentações e, por fim, pedimos que nos livre de todo mal.

Há tanto mal em nossa terra! Somos tentados a acreditar que o inferno é aqui. Ou, como nos disse algum filósofo, o inferno é o outro. Vivi para ver a caridade vilanizada e o compromisso com os pobres subjugado à alcunha de comunismo. Ainda vivo para ver, quase sempre, pessoas sendo agredidas por suas diferenças. Pobres tendo sua vulnerabilidade social diagnosticada como tibieza, preguiça. Como se o fato de desejar o trabalho já lhe seria um sonho realizado. E, somente por se ter um trabalho, já se sucumbisse toda e qualquer forma de pobreza. Não! Não é assim. Há muitas questões atenuantes e agravantes ao que se refere à pobreza. Não basta ter ou não emprego. O Brasil precisa mudar sua mentalidade ao que se refere ao trabalho. As reformas trabalhista e previdencial nos são provas de que os governos que as aprovaram não queriam o bem da humanidade. Com a desculpa de que os cofres públicos estavam na carestia, reduziu-se direitos previdenciais e trabalhistas. O orçamento da saúde e da moradia popular foi sucateado. Também em nome da macroeconomia. Como se os pobres, muitas vezes miseráveis, tivessem que pagar o preço do luxo dos poderosos. Enquanto isso, os profissionais da política engordam seus privilégios. Ao povo, retrocesso de direitos. Aos poderosos, galopam as mamatas. E ainda chamam este jeito de governar de honesto. Quem rouba o Direito não é honesto! É alvo das mais lancinantes exortações de Amós, Isaías, Jeremias. Profetas que conheciam a dor do povo pobre de seu tempo. Profetas que nos exortam a uma conversão ao Direito e à Justiça. E há quem pense que esta é uma forma cristã de governar. Há quem até destrua o patrimônio público  em nome dos ideais de exclusão e marginalização. Protestam criminosamente pelo direito a fazer maldade.

A raiz de todo mal humano está na sua incapacidade de reconhecer sua humanidade. Desdenha-se sentimentos positivos. Amor, solidariedade, compromisso com a fragilidade do próximo; entre outras virtudes, andam meio que esquecidas por alguns. Por outros, são declaradamente marginalizadas. Direito à dignidade humana foi chamado por certo político de ideologia marxista. Cita-se a Bíblia em campanha eleitoral, todavia, desconhece-se o elementar da Palavra de Deus. Ignora-se que é ordem de Deus acolher o pobre, ir ao socorro do que sofre, amar sem medida, perdoar infinitamente. Aqueles que nos governavam, desconhecem o essencial do Evangelho! E o conceito de justiça? Há algum tempo, esta também foi usada como artificio de negócios eleitoreiros. A prisão de um, pela pasta ministerial de outro.

E as mortes?

Morremos um pouco mais a cada dia. O Covid-19 matou mais de 600 mil, a violência mata diariamente nas grandes cidades. A fome e o frio ferem os indesejáveis, os miseráveis, gerados pela atual economia. Economia? Antes que esqueçamos, o capitalismo, o livre comércio que tanto se defende e vive em nossos tempos, não vem de Deus. Estes que negociam nossa dignidade e consciência são mercadores da morte. Penso que nosso Pai do Céu olha a tudo isso e vomita. Um sistema que faz pouquíssimos ricos se tornar cada vez mais ricos, às custas de se condenar os pobres a ficar cada vez mais pobres. E quando chamamos esta problemática à reflexão, ao debate; vem-nos sempre aquele piedoso irmão e afirma – ao bem da fé e da tradicional família brasileira – que nosso discurso é comunismo, heresia, subversão. Olha que essas acusações, este jeito perverso de preterir a busca pela Justiça, parecia ter ficado no passado! Entretanto, cada dia mais, vemos pessoas ressuscitar vilões mortos em nosso cotidiano. Vilões repressivos, autoritários, ultraconservadores. Levantam-se de seus sepulcros e escancaram suas bocarras a nos devorar como zumbis de película trash. Sim, nossa sociedade, nosso povo, parece ter sido transportado para um filme de terror. Daqueles bem ruins.

Diante destas mazelas, sofrimentos muitos, somos chamados a entender e inferir para nossos dias os ensinamentos de Jesus. Ele nos orientou a pedir incessantemente ao Pai por nossas necessidades. Pedimos que possa nos iluminar com seu Santo Espírito. Para que possamos entender que devemos viver segundo a proposta do Evangelho, não de outros governos que negam os valores de sua vontade. Sim, que seja feita a vontade de Deus. Deus não se preocupa obcessivamente com a moral e os bons costumes. Este é o discurso de uma Direita perversa. Esta que usa do nome de Deus para legitimar toda forma de desrespeito à Dignidade Humana. O Sonho de Deus é que haja panela cheia em todos os lares, que cada homem e cada mulher tenha um teto sobre suas cabeças, saúde para seus corpos, alento para seu pranto. Que venha até nós o Reino de Deus. Justiça, Paz e Alegria. Acalentados por muito amor fraterno. Carecemos de amor, assim como de alimento. Carecemos de dignidade, assim como de água para nossa sede cotidiana. Sobretudo, carecemos de sermos – de fato – vistos e tratados como filhos de Deus e não como engrenagem da fábrica de produção do lucro de poucos privilegiados. Por fim, peçamos que nos livre da tentação de corrompermo-nos aos poderes contrários ao Reino de Deus. Que tenhamos entre nós a fé cristã como razão de nossa existência, rompendo com todas estas políticas de morte. Basta de um mundo sem Deus e, consequentemente, sem dignidade e alegria.

Por fim, digamos com Jesus: “livrai-nos do mal”!


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