Por Pe. Hermes A. Fernandes
O presente texto não pretende ser um estudo exegético aprofundado. Destina-se ao leitor e à leitora que se inicia no estudo bíblico. Faz uma introdução referencial na história e geografia das origens do Povo Hebreu. Nosso desejo é ajudar aos catequistas, agentes de pastoral e, também, aos que têm em mãos o texto sagrado, mas encontram alguma dificuldade em compreender relatos tão distantes de nossa realidade ocidental. Após a leitura deste croqui geográfico-histórico, caso o leitor e a leitora tenham interesse de ir mais a fundo, no rodapé desta publicação há uma bibliografia para aprofundamento do tema. Vamos partir nessa aventura bíblica? Boa leitura!
Os relatos históricos da Bíblia se iniciam com a saída de Abraão de Ur. Ele viveu por volta de 1800 a.C. Nasceu em Ur, uma cidade no sul da Mesopotâmia, do que se tornaria no futuro a Babilônia. Entretanto, durante a maior parte de sua vida, viajou como nômade na região que, nos dias atuais, é Israel. Deixar seu país natal foi uma ordem explícita de Deus a Abraão. Onde ficava Ur? Esta cidade, como dissemos antes, se localizava ao sul da Mesopotâmia, às margens do rio Eufrates, nas proximidades do Golfo Pérsico, atual Iraque.
O que podemos entender por Mesopotâmia? Mesopotâmia é uma palavra de origem grega que significa “terra entre rios”. Trata-se de uma região desértica localizada entre os rios Tigre e Eufrates. Nos dias atuais, é território pertencente ao Iraque. Por ter sido uma região de passagem, a Mesopotâmia foi ocupada por vários povos, de diferentes origens, tais como Sumérios, Acádios e Babilônicos. Esses eram povos guerreiros, que expandiam seus domínios por toda a região. Os persas derrotaram as últimas populações que ocuparam a Mesopotâmia em 539 a.C.
Abraão era um cuidador de rebanhos. Ocupava-se de animais que forneciam alimento, como carne e leite. Sobretudo, ovelhas e carneiros, pois além de alimento, forneciam matéria prima para a confecção de tecidos. A lã era usada para o vestuário e as tendas. Por isso, Abraão vivia em Ur. Região entre dois grandes rios (Tigre e Eufrates). Ali podia manter seu rebanho saudável, tendo pasto e água. Onde há água, há vegetação. Por isso Abraão vivia ali.
Antes, na região mesopotâmica, eram os povos sumerianos que viviam ali. Por volta de 1900 a.C., um novo processo de invasão territorial dizimou a dominação dos Sumérios e Acádios naquela região. Desta vez, os Amoritas, povo oriundo da região sul do deserto árabe, fundaram uma nova civilização, a qual, daria origem à futura Babilônia. É neste contexto de nascimento do primeiro império babilônico, que Abraão é convidado por Javé a deixar aquela terra e partir para a “terra que ele indicar”. Os amoritas, futuro império babilônico, se apropriaram da terra com violência e desrespeito total à vida humana. Eram de uma crueldade imensurável. Ao contrário do que somos levados a crer, quando Javé pede que Abraão deixe Ur, não o faz por ali se adorar outros deuses. Em verdade, um povo não militarizado como os nômades, seriam alvo fácil para os amoritas. Javé chama Abraão e o põe sob sua proteção. O Deus dos Hebreus não se revela a Abraão para exigir exclusividade de culto. Ele se revela para proteger Abraão da maldade dos amoritas. Já na primeira revelação, ao primeiro dos patriarcas, Javé se mostra como um Deus libertador. Protetor dos pequenos. E por que insistir aqui na palavra “pequenos”?
Os povos nômades não possuíam terras. Viviam uma eterna migração, em busca de alimento e água para seus rebanhos. Muitas vezes, acampavam em terras de posse de outras pessoas. Não para tomar posse delas. Aos nômades não interessava a posse da terra e sim a subsistência de seus rebanhos e suas famílias. Porém, os proprietários destas terras se sentiam ameaçados quando um acampamento de cuidadores de rebanhos se fixava em seu território. Acreditavam que estavam em risco. Por isso, os proprietários de terras viam esses nômades como perigo, como criminosos. A palavra Hebreu vem significar isso. Seu sentido mais apropriado é marginal. Hebreu é um marginal, um sem terra que ameaça a propriedade, segundo a ótica do latifúndio daquele tempo. Por isso, Deus chamou Abraão para deixar Ur. No novo sistema que os amoritas estavam impondo, a partir de 1900 a.C., esses clãs de criadores de rebanhos seriam dizimados. Javé é o salvador dos Hebreus, os marginais. Sem terra e sem dignidade.
Abraão vai para Canaã em 1850 a.C. Onde ficava essa terra? É a antiga região entre o mar Mediterrâneo e o mar Morto. Foi ocupada por volta de 1900 a.C. pelos Cananeus.
Segunda a lenda, a palavra Cananeu provém do nome do filho de Can, isto é, neto de Noé. Claro que se trata aqui de uma lenda, ligada ao mito dos primórdios da humanidade, presente em Gn de 1 a 12. Mas a referência – mesmo que mítica – ficou, tornando-se o nome da terra ocupada pelos seus descendentes. O território limitava-se, numa fase inicial, a uma área provável da costa baixa mediterrânica da Palestina.
Como localizar Canaã hoje? Canaã é a antiga denominação da região correspondente à área do atual Estado de Israel (inclusive as Colinas de Golã), da Faixa de Gaza, da Cisjordânia, de parte da Jordânia (uma faixa na margem oriental do Rio Jordão), do Líbano e de parte da Síria (uma faixa junto ao Mar Mediterrâneo, na parte sul do litoral da Síria). Portanto, grande parte do Oriente Médio. Podemos dizer que Canaã é praticamente todo o Israel.
Após a história de Abraão, temos a de seus descendentes. Isaac e Jacó. Jacó será chamado também de Israel. Uma referência à sua íntima relação com Javé. Ele teve 12 filhos. Estes formarão as 12 tribos, isto é, a referência genética e antropológica do Povo de Israel. Daí a Bíblia vai passar a chamar a este povo, por vezes de Povo Hebreu e, por outras, de Povo de Israel. Mas voltemos a Jacó e seus filhos. Não como um futuro reino, mas como um clã.
No finalzinho do livro do Gênesis, temos a história de José, filho de Jacó (Israel). Esse relato está mais para uma novela bíblica do que historiografia propriamente dita. Nesse tempo, fugindo da fome e convidado por José (primeiro ministro do faraó), o povo hebreu, futuro Povo de Israel, migra para o Egito.
A partir de Gênesis 37 é contada a história de José, filho de Jacó, que é vendido pelos irmãos ciumentos a comerciantes ismaelitas que íam para o Egito. José foi comprado como escravo por Putifar, eunuco do Faraó. Então José ganha fama, interpretando sonhos dos oficiais do Faraó e do próprio faraó. Enquanto isso, Israel estava vivendo um período de carestia, o que levou os filhos de Jacó a irem até ao Egito atrás de comida. Então acontece a saga que conhecemos, contada em Gênesis 42 – 45. Quando José reconhece e perdoa os irmãos. Finalmente toda a família de Jacó vai para o Egito. Enquanto vai para o Egito, Deus diz a Jacó: “Não tenhas medo de descer ao Egito, porque lá eu farei de ti uma grande nação” (Gênesis 46,3). A Bíblia conta que a família de Jacó foi completa para o Egito, sublinhando que o número total era de 70 pessoas (Gênesis 46,27) A data dessa migração é de aproximadamente 1700 a.C.
Em seguida, depois da morte de Jacó e de seus filhos, os israelitas cresceram como povo, tal qual está descrito em Êxodo 1,7:
Os israelitas foram fecundos e se multiplicaram; tornaram-se cada vez mais numerosos e poderosos, a tal ponto que o país ficou repleto deles.
A história da vida dos hebreus no Egito tem uma única fonte, a Bíblia. No texto sagrado encontramos alguns números, porém é preciso prestar atenção porque na Bíblia, muitas vezes, o uso dos números segue uma lógica diferente da realidade e, frequentemente, é marcado pelo simbolismo.

Podemos constatar que na Bíblia há uma lacuna na narrativa. Aproximadamente, 400 anos. Tempo em que o Povo Hebreu se estabeleceu às margens do rio Nilo, Egito oriental. Portanto, até a saída do Egito, isto é, o Êxodo em aproximadamente 1250 a. C., temos uns 400 anos. Aqui se responde à pergunta de quão africana é a História da Salvação. Onde fica o Egito? No continente Africano. Passados 400 anos na terra do Egito, o povo nômade, que saiu de Ur e se dirigiu para Canaã com Abraão, era mais africano do que propriamente um povo meso-oriental.
Após 400 anos no Egito, eles voltam para o Oriente Médio. É a História de Moisés. Chamado por Javé para libertar o povo da escravidão egípcia e guiá-lo de volta à Canaã, a Terra Prometida. Aqui vale lembrar que Canaã é a mesma terra indicada por Javé como destinada a Abraão, em aproximadamente 1850 a.C. Por isso, o Êxodo é – em verdade – uma volta para casa.
Em nosso próximo estudo sobre geografia e cronologia bíblicas, vamos visitar o tempo da caminhada do Povo Hebreu no deserto e a entrada na Terra Prometida, chegando à ocupação das cidades que ali se constituíam. Faremos uma jornada pelo Livro do Êxodo e de Josué. Vamos embarcar nesta aventura bíblica? Até a próxima jornada!
Bibliografia para Aprofundamento do Tema
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