Por Pe. Hermes A. Fernandes
É inegável a constatação de que os Evangelhos apresentam o cumprimento das profecias do Primeiro Testamento. Em se tratando do primeiro Evangelho, no texto mateano, onze vezes ocorrem as chamadas “fórmulas de cumprimento”, caracterizadas com o verbo cumprir-se. O que se pode concluir: em Jesus, Mateus vê realizadas no Messias as antigas profecias. Nele se vê cumprida – em plenitude – a Torá (cf. Mt 5,17) e a Justiça (cf. Mt 3,15). A partir das narrativas da infância de Jesus, onde essas referências estão mais concentradas (cf. Mt 1,22; 2,15.17.23), o diálogo do Primeiro Testamento com o Segundo vai se desenvolvendo perpassando pelo ministério na Galileia (cf. Mt 4,14), pelas curas (cf. Mt 8,17; 12,17), pelos discursos (cf. Mt 13,35), pela entrada de Jesus em Jerusalém (cf. 21,4) e, até mesmo, na traição de Judas (cf. 26.56; 27,9). As muitas citações de perícopes do Primeiro Testamento mostram que Mateus não vê ruptura entre o Antigo e o Novo e, sim, uma história da salvação construída na continuidade: Jesus é o Messias de Israel. Portanto, podemos entender que a comunidade mateana compreende a novidade evangélica como clímax da Aliança. A Torá e os Profetas são como que prelúdio da grande sinfonia do Pai que deseja ressignificar a história humana em Jesus. Para tanto, Jesus tem em João Batista a ponte que liga estes dois tempos, duas realidades de uma só perspectiva: Javé, Deus dos pobres e marginalizados, se faz Deus conosco na Pessoa de Jesus e – nele – oferece uma libertação definitiva. Aqui nasce o Novo Povo de Deus.
“Assim como o Povo de Deus do Antigo Testamento nasce da Libertação, o Novo Povo de Deus, que nasce do compromisso com Jesus, tem a libertação como ponto de partida de seu nascimento. Só existe Povo quando há liberdade. Do contrário, o que se tem é massa anônima de escravos.” (STORNIOLO: 1991, p. 30)
O Novo Povo de Deus nasce da Semente do Reino. João Batista prepara este nascimento do Novo, como que o lavrador prepara o terreno para o plantio. Seu trabalho se faz pelo batismo de conversão (cf. Mt 3,1-12). Ele anuncia a chegado do Messias, Semeador do Reino, dizendo:
“…Aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu (…) Ele é quem batizará vocês com Espírito Santo e com o fogo” (Mt 3,11)
Os discípulos de Jesus discutiam com os discípulos do Batista sobre quem era maior. Ao ler o Evangelho de Mateus, percebemos que esta discussão tem seu fim. O próprio João Batista reconhece que Jesus estava acima dele, dizendo:
“‘Eu é quem preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?’ Contudo, Jesus lhe respondeu: ‘Deixe por enquanto, pois é assim que devemos cumprir toda a justiça’.” (Mt 3,14-15)
Neste sentido, João é o arauto-anunciador do que Jesus irá fazer. Ele coloca-se na condição de preparador. Para fixar esse sentido da missão de João, a comunidade mateana faz uma releitura do Profeta Isaías, citando-o:
“Voz que clama no deserto:
Preparai os caminhos do Senhor,
Endireitai as suas estradas.”
(Mt 3,3)
Na pessoa de João termina o Tempo dos Profetas. O Tempo da Promessa. Jesus é o cumprimento da profecia, a promessa realizada. Aqui se encerra o sentido das pessoas e da missão de João e Jesus.
João Batista somos todos nós que anunciamos Jesus. Certamente, todas as pessoas que anunciam o Evangelho para aqueles que ainda não o conhecem. E aqui vem uma questão complicada: é preciso levar as pessoas até Jesus, e não retê-las para si. Da mesma forma que João serviu aos projetos do Reino, também nós devemos fazer o mesmo: levar as pessoas até Jesus, e depois nos afastarmos para que o Reino de Deus aconteça, para que a pessoa e ação de Jesus estejam em perspectiva. “É preciso que Ele cresça e eu diminua” (Mt 3,30).
Vamos nos aprofundar um pouco mais sobre a pessoa de João Batista? Sua aparição acontece no deserto. Longe das cidades, sobretudo Jerusalém, sede do poder. Aqui podemos ver mais um diálogo entre o Primeiro Testamento e o Segundo. O deserto fora o lugar do encontro e da intimidade com Deus, onde Israel aprendeu a ser fiel ao seu Libertador, Javé. Foi, também no deserto, que se plantou o embrião da nova sociedade, baseada na justiça e na fraternidade. Na pessoa de João se restaura esta intimidade com Deus. Os detalhes na discrição deste personagem colaboram para compreender que ele resgata a pessoa de todos os profetas. O que se faz presente em seu anúncio e modo de ser.
O que podemos perceber no modo de ser de João Batista? O que ele anuncia? Suas palavras podem ser interpretadas como um convite? Sim! Ele exorta à conversão: “Convertam-se, porque o Reino do Céus está próximo!” (Mt 3,2). O texto mateano fala de “Céus” para não mencionar Deus. Porém, fica clara na teologia mateana a afirmação de que é Deus que está se aproximando na pessoa de Jesus. Javé vai estabelecer seu reinado de justiça, realizando de forma integral o seu projeto de liberdade e vida para todos. Para que isso de fato aconteça, é preciso estar preparados, deixando tudo aquilo que é incompatível com o projeto de Deus e realizando em nossas vidas a escolha por aquilo que Javé sonhou para seus filhos e filhas. O converter-se aqui não pode ser interpretado por uma visão “pietista”. Não se trata de uma teologia da condenação. Esse erro, já os fariseus e sacerdotes estavam cometendo. O Novo Povo de Deus precisa transcender essa religião do legalismo, o judaísmo formativo, para uma verdadeira aliança com Deus. Não se trata de uma conversão fundada em moralismo excludente. Se trata de estar limpo, inteiro diante do projeto do Reino. Em outro momento, Mateus vai comparar o Reino de Deus com um banquete (Mt 22,1-14). Todos são convidados. Preferencialmente, aqueles que estão mais dispostos ao convite, como os que se encontram nas periferias existenciais. Porém, o final da Parábola do Banquete nos surpreende dizendo que um dos convidados para a festa não trajava as vestes recomendadas. Aqui se justifica o batismo de João. Chamado de batismo de conversão, não tem como pano de fundo legalismo ou moralismo. Não destrói a pessoa do pecador, mas – certamente – confronta o pecado. O Reino de Deus será um grande banquete. Não se vai a uma festa trajando roupas de trabalho. Não se participa do projeto do Reino de Deus, que é justiça, paz, alegria e liberdade; sendo impulsionado – agindo – a partir de pedagogias de injustiça, disseminando impulsos e discursos de ódio, gerando tristeza aos pequeninos com toda forma de exclusão e marginalização, cerceando a liberdade; enfim: anunciando um anti-evangelho, vivendo a partir de projetos contrários ao Reino de Deus. É isso que anunciava João. Para que o Reino de Deus se instaure entre nós, é preciso que estejamos plenamente dentro deste projeto. Limpos de toda forma de injustiça, adentrar no Banquete da Justiça. Como nos ensina o Salmo 51/50,2: “Lava-me completamente de minha falta, e purifica-me do meu pecado!”.
João é a fronteira entre o Primeiro e o Segundo Testamentos. Entre a Antiga e a Nova Aliança. Entre o Antigo Povo de Deus e o Novo Povo de Deus. Entre o tempo da carestia e o Tempo do Banquete. Para transpor uma fronteira, devemos passar pela alfândega. O batismo de João exercia esse papel. Sinalizava os requisitos necessários para se adentrar em um Novo Tempo. Onde toda dor e toda lágrima terá fim (cf. Ap 21,4). Para isso, precisamos estar dispostos, em vestes de festa. Do Banquete do Cordeiro.
Em João reconhecemos todos nós que devemos anunciar o Reino. Os quatro Evangelhos fazem do Batista a figura preparatória da atividade de Jesus. Hoje, a Igreja prepara a instauração do Reino Definitivo. Assim como João Batista dizia que haveria alguém maior que ele, a Igreja não é maior que o Reino. Importa que o Projeto de Deus para toda humanidade se faça uma realidade. Carne em nossa própria carne. Um Novo Tempo. A Festa da Libertação!
Bibliografia
BASLEZ, Marie-Françoise. Jesus: Dicionário histórico dos evangelhos. Petrópolis: Vozes, 2019.
FARIA, Jacir de Freitas. Profetas e Profetisas na Bíblia: história e teologia profética na denúncia, solução, esperança, perdão e nova aliança. São Paulo: Paulinas, 2006.
MESTERS. Carlos. A Missão do Povo que sofre: Tu és meu Servo! Petrópolis: Vozes [coedição com o CEBi], 1981.
SHIEGEYUKI, Nakanose; PEDRO, Enilda de Paula; TOSELI, Cecília. Como ler o Terceiro Isaías: Novoo Céu e Nova Terra. São Paulo: Paulus, 2004.
STORNIOLO, Ivo. Como ler o Evangelho de Mateus: O Caminho da Justiça. 1ª Ed. São Paulo: Paulus, 1991.
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