Os “irmãos de Jesus”

Por Luiz da Rosa

É uma velha questão, que muitas vezes é tema de nossas discussões, sobretudo por que convivemos com pessoas com diferentes opiniões sobre o assunto. Os textos do Novo Testamento mencionam literalmente os irmãos de Jesus, que são Tiago, José, Judas e Simão (Mc 6,3; Mt 13,55). Fala-se também de irmãs de Jesus, mas não têm um nome nos Evangelhos. Existe, porém, um grande debate sobre o que significa a palavra irmãos (adelfoi, em grego). A questão tem como pano de fundo o dogma da Igreja Católica, que desde o Concílio Lateranense, no VII século, afirma a virgindade de Maria, a mãe de Jesus. Se Maria continuou virgem também depois de ter dado à luz Jesus, não pode ter tido outros filhos. A controvérsia, portanto, é influenciada de modo decisivo pela posição dotrinal das várias igrejas. Em geral se pode dizer que para os protestantes Jesus teve irmãos, invés para os católicos ele teve primos.

Vejamos primeiro de tudo os dados objetivos, mencionando as passagens bíblicas onde aparece a expressão irmãos de Jesus.


1. Mc 3,20-21.31-35: a mãe de Jesus, os seus irmãos e irmãs vêm encontrar Jesus, pois creêm que tenha enlouquecido. Jesus invés redifine o conceito de família.


2. Mc 6,3-5: as pessoas se perguntam sobre a origem do comportamento de Jesus (de onde?), invés os seus conterrâneos sabem bem de onde ele vem: conhecem os seus irmãos e sua mãe por nome e as irmãs estão entre eles.


3. Jo 2,12, depois das bodas de Canã, diz que Jesus se encontra em Cafarnaum, com sua mãe, seus irmãos e seus discípulos. Em Jo 7,3.5.10 se sublinha a distância que existe entre Jesus e seus irmãos: não são do mesmo mundo.


4. Nos Atos e em Paulo os irmãos de Jesus aparecem como membros importantes da primeira comunidade cristã. Atos 1,14 conta que entre os membros da comunidade de Jerusalém estavam a mãe e os irmãos de Jesus. Em 1Cor 9,5 os irmãos do Senhor são colocados entre os apóstolos e Cefas, como líderes da comunidade cristã. Em Gálatas 1,19 é lembrada a visita de Paulo a Jerusalém, onde, além de Cefas, encontrou Tiago, o irmão do Senhor.

É importante sublinhar, repetindo, que o termo grego usado nessas passagens é adelfós, que literalmente significa irmão. Todavia esse dado não basta para abaixar a poeira. Existe, de fato, diversas explicações sobre a expressão. Elencamos algumas.

1. Primos por parte de pai
Essa tese se baseia no trabalho de Eusébio de Cesaréia. De acordo com esse padre da igreja, os irmãos de Jesus podem ser identificados com os filhos de Alfeu-Cleofas, tio paterno de Jesus, e sua esposa, Maria de Cleófas. Portanto, adelfós significaria primo de primeiro grau. Os defensores de tal tese dizem que não se trata de argumentos a posteriori, que tentam defender o dogma da igreja católica, mas conseqüência da aplicação do método histórico-crítico.


Quem sustenta atualmente essa tese são os católicos. Porém o defensor clássico é Jerônimo, autor da Vulgata, que, respondendo a Elvídio, que dizia que os irmãos eram irmãos carnais, afirma: “Tiago, chamado irmão do Senhor, chamado o Justo, alguns dizem que era filho de José com uma outra mulher, mas creio ser filho de Maria, irmã da mãe do Nosso Senhor, de quem João fala no seu Evangelho. Em linhas gerais se pode dizer que também Lutero defendia essa tese. Lemos, em Sermão sobre João: “Cristo foi o único filho de Maria, e a virgem Maria não teve outros filhos além dele. Irmãos significa na realidade primos, pois as Sagradas Escrituras e os judeus chamam sempre irmãos os primos… Cristo, o nosso salvador, foi o fruto real e natural do seio virgem de Maria… Isso aconteceu sem a cooperação do homem e Maria continuou virgem também depois. Também Calvino escreve: “Segundo o costume judeu, chamam-se irmãos todos os parentes. Contudo Elvídio foi ignorante quando disse que Maria teve diversos filhos por que em algum lugar se menciona irmãos de Cristo (Comentário a Mateus, 13.55).


Os críticos dessa teoria são sobretudo os protestantes que, diferente de Lutero e Calvino, entendem adelfós como irmão no sentido carnal e não primo.

2. Primos por parte de pai e de mãe
É uma tese do exegeta alemão Josef Blinzler. Ele diz que Tiago e José são filhos da irmã da mãe de Maria, que também se chama Maria; Invés Simão e Judas são filhos de Cleofas, irmão de José esposo de Maria, e de Maria de Cleofas. Ele baseia sua teoria no texto de João 19,25, que distingue a irmã de Maria de Maria de Cleofas. Outros difensores dessa tese são Rinaldo Fabris e Vittorio Messori. Mas a tese não é muito clara, visto que não é assim tão fácil distinguir duas Marias em João 19,25.

3. Irmãos carnais
É a tese que nasceu com o bispo ariano de Milão, Elvídio, no IV século. Ele defendeu a superioridade do casamento em relação ao voto de castidade. Para sustentar a sua teoria disse que também Maria tinha vivido com José e tinha tido outros filhos depois do nascimento de Jesus.


Essa posição é sustentada pelos protestantes. Essa visão é contestada pelos católicos, cristãos ortodoxos e também pelos muçulmanos, que seguem o que é escrito no Corão.

4. Irmãos adquiridos
É a teoria do evangelho apócrito de Tiago, segundo o qual José, quando se casou com Maria, tinha outros filhos, de um casamento anterior. Outros escritores clássicos defentem essa tese: Clemente de Alexandria, Orígenes, Eusébio, Hilário de Poitiers, Ambrosiaster, Gregório de Nisa, Epifânio, Ambrósio, Cirilo de Alexandria. Hoje sobretudo os ortodoxos concordam com essa visão, mas também o adventista Angel Manuel Rodríguez.

5. Colaboladores
A escola exegética de Madri defende que os atuais textos gregos do Novo Testamento se baseiam em textos em aramaico e analisando os textos em questão dizem que irmãos de Jesus indica na verdade aquele que colaboravam, ou seja, os apóstolos e outros discípulos que o seguiam. Do mesmo modo que a irmã da mãe de Jesus seria também ela uma mulher que acompanhava Maria.

Para organizar a nossa apresentação, digamos que existem duas teorias: uma que diz que adelfós significa irmão carnal e outra que retém que seja primo.

Argumentos favoráveis a irmãos
Etimologicamente adelfós (plural = adelfoi) significa co-uterino, ou seja, filho da mesma mãe.


Mt 1,24;24 diz: “José (…) recebeu em casa sua mulher. Mas não a conheceu até o dia em que ela deu à luz um filho. Conhecer, na Bíblia, significa ter relações sexuais. O texto bíblico em si não exclui que depois do nascimento de Jesus Maria tenha tido outros filhos.


Lucas 2,7 diz que Maria deu à luz o seu filho primogênito. Se Maria não tivesse tido outros filhos Lucas poderia ter usado unigênito.


Se os irmãos fossem primos a Bíblia teria usada a palavra grega anepsios e não adelfos.


Mc 3,21 e Jo 7,5 afirmam que os irmãos não tinham fé em Jesus. Desse modo não podem serem identificados com os apóstolos ou colaboradores do Senhor.

Argumentos favoráveis a primos
A palavra adelfós tem um campo semântico que não se limita à ligação com a mãe, mas pode normalmente significar também irmão só por parte de pai. Além disso o grego do novo testamento é uma língua influenciada pelo pensamento semítico dos seus autores. Quando o escritor escreve em grego está, na verdade, pensando em hebraico-aramaico. Portanto quando ele usa adelfós está efetivamente usando o vocábulo hebraico-aramaico “ah”. Esse termo, na sua língua, não significa só irmão, mas todo grau de afetividade ou parentesco (Conferir Gn 13,8; 29,15; Lv 10,4).


No grego existe a palavra anepsioi para primos, mas no grego bíblico, que é diferente daquele clássico, esse vocábulo indica um parentesco não próximo, no sentido existencial. Portanto os primos de Jesus, visto que eram em contato com ele, não podiam ser chamados anepsioi.


Os irmãos de Jesus não são nunca colocados em relação com Maria e José; só Jesus é filho de Maria e filho de José.


O fato que Jesus é chamado primogênito e não unigênito não é importante. De fato na sociedade hebraica o primeiro filho tem um valor em si e é sempre o primogênito, mesmo sendo filho único. Ilustra essa tese a descoberta de uma inscrição em um túmulo em Tell el-Jehudi que diz: “nas dores do parto do meu primogênito a sorte me conduziu ao fim da vida claro que nesse caso o primogênito é também unigênito”.

Considerações finais

O problema dos irmãos de Jesus é sobretudo uma questão dogmática. É muito mais simples acreditar que Jesus tenha tido irmãos. Porém, há outros indícios que precisam ser considerados. A palavra “primo” (anèpsios) aparece uma única vez no Novo Testamento (Colossenses 4,10). A tradução de Almeida nesse caso usa, de modo errado, traduz como (sobrinho). Porém em outro livro em grego, Tobias (que não aparece na Bíblia Hebraica e, por isso, nas protestantes, mas cujo texto hebraico foi encontrado também em Qumran), os termos anèpsios e adelfós são usados sem distinção para significar primo ou parente em geral (cf. Tobias 7,1-4 e confrontar com Tobias 6,1). De fato alguns manuscritos em 7,4 usam anèpsios, enquanto outros usam adelfós. Além do mais, o contexto bíblico nos obriga a recordar que o conceito de família naquele tempo era muito mais largo do que o atual: fazia parte da família, como irmãos (ah em hebraico), todos os que habitava a casa (bet em hebraico), o clã familiar. Outro aspecto é a tradição. Não é decisivo, mas acreditamos seja importante. Já no segundo século não havia dúvidas sobre a relação dos irmãos com Jesus: não eram filhos de Maria. Esse conceito continuou vigente inclusive no tempo da Reforma, com Lutero e Calvino. Somente nos últimos tempos ele voltou a ser questionado.

Concluímos dizendo que a tradição cristã afirma que aqueles que a bíblia chama irmãos de Jesus são na verdade seus parentes. E, do nosso ponto de vista, a Bíblia não oferece argumentos para combater essa tese, mas nos dá alguns que podem sustentá-la.

Sobre o Autor

Natural de Santa Catarina, casado, vive atualmente em Roma, na Itália, onde trabalha como diretor de comunicações do Instituto dos Irmãos Maristas.

Possui o Bacharelado em Filosofia (1988-1990 – Instituto Filosófico Franciscano de Curitiba). Cursou 4 anos de teologia em Jerusalém (1991-1994 – Istituto teologico Ierosolumitano). Conseguiu o Mestrado em Ciências Bíblicas no Pontífico Instituto Bíblico de Roma (1996-2000) e dois anos mais tarde superou a Lectio Coram que lhe dava o direito de seguir com o doutorado pelo mesmo instituto. Fez os cursos para o doutorado, mas não terminou a Tese.

Em 2015 concluiu um mestrado de Comunicação Intitucional Religiosa na Faculdade Blanquerna de Barcelona, na Espanha.

Foi Professor de Sacrada Escritura no Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (1995 e 2001) e também professor de Tecnologias da Comunicação em Âmbito Religioso, de 2009 a 2011, na Pontifícia Universidade Antonianum, em Roma.

Colaborou: abiblia.org


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