Por Frei Jacir de Freitas Faria, OFM[1]
Escrita em hebraico, aramaico e grego, na Palestina, Babilônia, Egito, Síria, Grécia e Itália, a Bíblia é fruto de um grande mutirão de escritores, formado por lideranças e comunidades, tendo seu início lá pelo ano 1000 a.E.C., e término no ano 100 E.C. A pena desses escritores registrou doutrina, provérbios, cânticos, salmos, lamentações, cartas, sermões, profecias, meditações, oração, romance, cantos de amor, biografias, poesias, parábolas, comparações, tratados, contratos, leis para organizar o povo e o culto, etc. Para Carlos Mesters, a Bíblia é como um álbum de fotografias. Elas ficam misturadas. Para entendê-las, alguém tem que explicá-las. Conhecer a Bíblia, sem o risco de fazer leitura fundamentalista, não é nada fácil. Mas também não é coisa de outro mundo. Basta um pouco de esforço, estudo constante e deixar-se guiar pela fé e pela ação do Espírito Santo, que sempre nos guia e nos faz tirar coisas novas do antigo e precioso baú, chamado Bíblia. É como acontece com cada um de nós, quando chegamos a uma cidade grande para morar. No início, tudo parece difícil e complicado, mas aos poucos, com o conhecimento do local, tudo nos parece familiar.
Para compreender a Bíblia, entendamos como se deu o seu processo de inspiração. Muitas pessoas pensam que inspiração bíblica é um ato mágico. Deus ditou lá do alto as suas palavras para os seus escolhidos. Não é bem isso. Vejamos.
Critérios de inspiração
A seleção dos livros para compor o cânone, isto é, a lista dos livros inspirados da Bíblia, seguiu, fundamentalmente, critérios de fé. O povo, movido pela crença no Deus que o havia escolhido, dentre todos os povos, para ser Sua testemunha, recolheu o que havia de melhor na já escrita literatura sobre sua experiência de fé.
A seleção levou anos, séculos de muita observação e vivência da mensagem de Deus. Muitas discussões e batalhas ideológicas, tanto no seio da comunidade judaica, como na cristã, serviram para acrescentar ou excluir este ou aquele livro. Cento e quarenta livros ficaram fora da Bíblia, formando uma outra Bíblia, a Apócrifa[1]. Vários são os critérios utilizados para formar o cânone bíblico, a saber:
- O livro deveria conferir identidade religiosa ao povo judeu e cristão. Para os judeus, se um livro não tratasse de temas que não fossem sobre a identidade religiosa de Israel, ele não era inspirado. Para os cristãos, da mesma forma, o livro deveria transmitir a experiência de fé vivida com o Jesus histórico e o da fé. O povo judeu sempre primou pela consciência de povo eleito. O livro deveria manter vivo esse tipo de fé, como símbolo da identidade nacional. Já os livros do Segundo Testamento teriam de professar a fé em Jesus crucificado, morto e, sobretudo, ressuscitado.
- O livro não poderia ser escrito em grego, isto é, os do Primeiro Testamento – PT, pois os do Segundo Testamento – ST, foram escritos em grego, mas já no contexto cristão. A língua grega não era sagrada pelos judeus, pois essa era a língua dos seus opressores idólatras. Deus não poderia se revelar na língua do opressor, pensavam. Como vimos acima, nesse caso, estamos falando dos sete livros que não entraram na lista inspirada judaica, ou seja, Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Judite, Baruc, I e II Macabeus, bem como partes de Ester e Daniel. Os cristãos consideraram esses livros como uma segunda lista de livros inspirados do PT, ou seja, os deuterocanônicos.
- Ter sido escrito durante a época que vai de Moisés a Esdras (séc. V). Esdras foi um personagem muito importante para o judaísmo. Ele viveu em um período em que o povo judeu, no Exílio da Babilônia e no pós-exílio, escreveu muitos livros sobre sua história, com destaque para o Pentateuco. O livro apócrifo 4 Esdras 14,18 diz que Esdras ditava para os escribas o texto dos livros que foram perdidos na destruição de Jerusalém de 587 a.E.C.. Por outro lado, é consenso entre os estudiosos que Esdras não teria feito uma lista de livros inspirados, mas simplesmente influenciou na escolha.
- Ter sido catalogado na lista de Flávio Giuseppe. Flávio Giuseppe foi um importante judeu e historiador judaico. Aliado ao império romano, ele conservou muitos dados importantes da fé para judeus e cristãos. Na sua lista de livros inspirados, ele catalogou 22 livros.
- O livro não podia “manchar a mão”, isto é, deveria ser de Deus, um livro puro. O livro escolhido deveria ser diferente dos outros, os profanos. Quem fosse manusear ou ler um livro sagrado deveria passar por ritos de purificação. Se o livro “manchasse a sua mão”, ele não era sagrado. Sempre foi difícil entender esse detalhe de critério judaico de inspiração para a Bíblia Hebraica.
- Não ter origem em grupos de oposição ao pensamento dominante. Este é o caso dos dois livros dos Macabeus. Os Macabeus, grupo que lutava contra os romanos e pelo restabelecimento do judaísmo, eram considerados inimigos dos fariseus, grupo religioso judaico que tinha a condução da religião judaica e que definiu o cânone judaico em Jammia. Assim, não fica fácil entender o porquê de os livros que narram as lutas macabaicas não terem sido considerados inspirados. No ST, esse mesmo critério também foi utilizado. Por motivos diversos, que veremos mais adiante, os livros do ST produzidos pelos gnósticos, grupo de cristãos que mais se opôs ao cristianismo que se tornou hegemônico, também não foram considerados inspirados. Exemplo disso é o Evangelho de Maria Madalena, que também poderia estar ligado à tradição feminina. Atos dos Apóstolos são mais atos de Pedro e de Paulo que dos outros apóstolos. Bispos e outras lideranças do cristianismo emergente tiveram contato com os livros apócrifos usados pelas comunidades cristãs. Ora eles os aprovavam, ora os reprovavam. Serapião, por exemplo, aconselhou o uso do Evangelho de Pedro nas comunidades, mas depois proibiu, por acreditar que nele haveria indícios de pensamento gnóstico doceta.
- Ser usado por muitas comunidades. Um livro, para ser inspirado, deveria ser usado por um grande número de comunidades ao mesmo tempo, o que assegura a presença de revelação divina nos mesmos para as comunidades. Nesse sentido, para o ST, é de muito valor a tradição apostólica de um livro. A escolha dos evangelhos de Marcos, Mateus, Lucas e João, verdadeiros best sellers da época, foram reconhecidos como inspirados, pois eles recolheram o que havia de melhor sobre a experiência das comunidades primitivas com o Jesus histórico, morto e ressuscitado.
- Ser inspirado pelo Espírito Santo. As comunidades do ST tiveram como critério fundamental de inspiração a presença do Espírito Santo na composição de um livro. Muitas pinturas antigas tentaram demonstrar isso, apresentando Deus soprando as palavras para o evangelista. Hoje, sabemos que não é bem assim. Perceber a presença do Espírito Santo revelando a vontade de Deus não é um ato mágico, mas experiência de fé e união com Deus.
Processo de seleção dos livros
A seleção dos livros inspirados da Bíblia passou por vários momentos. Os judeus, isto é, os fariseus, que sobreviveram ao massacre judaico romano do ano 70, reunidos no Sínodo de Jammia, definiram que a Bíblia Hebraica teria 39 livros.
Entre os cristãos, o processo de seleção foi mais longo. No ano 150, Marcião, um influente cristão convertido e contrário ao judaísmo, propôs uma lista de livros inspirados contendo somente o Evangelho de Lucas e as cartas paulinas. Esse foi o Cânone de Marcião. O seu mentor foi considerado herético pelo cristianismo que se tornou hegemônico, e que o expulsou da igreja.
No ano 200, foi proposto um novo cânone de livros inspirados, que foi cunhado de Cânone Muratoriano, nome do estudioso que o descobriu no século XVIII, em Milão, na Itália. Na lista desse cânone figuram os atuais 4 evangelhos, o Apocalipse de João, o Apocalipse de Pedro, a Sabedoria de Salomão, as Cartas paulinas e pastorais, exceto Hebreus, Tiago, I e 2 Pedro e uma joanina. Nesse cânone estão listados 22 dos 27 dos atuais livros inspirados do Segundo Testamento.
Assim, os critérios usados para a seleção do cânone do ST foram: proximidade do livro com a época de Jesus; ser escrito por um apóstolo ou seu companheiro; ser usado na maioria das igrejas; refletir o pensamento do cristianismo que se tornou hegemônico. Um detalhe importante, nesse processo de definição do cânone, é a aceitação, entre os cristãos da época, de também como livros inspirados a I Carta de Clemente, o Evangelho de Pedro, o Apocalipse de Pedro, a III Coríntios e a Epístola de Barnabé.
Em 367, após ordenar a queima dos livros apócrifos, o bispo de Alexandria, Atanásio, propôs uma lista de livros inspirados contendo os atuais livros da Bíblia Católica. Agostino de Hipona defendeu, no Concílio de Hipona, em 398, a proposta de Atanásio, que acabou sendo aprovada pelos bispos.
Em 1546, no Concílio de Trento, na Itália, em resposta à Reforma de Lutero, que havia retornado para a lista inspirada hebraica, sem os sete deuterocanônicos, os bispos selaram definitivamente a lista de livros inspirados da Bíblia.[2]
Notas
[1] Para um estudo da Bíblia Apócrifa do Segundo Testamento, bem como dos critérios que exporemos a seguir, veja o nosso livro: Apócrifos aberrantes, complementares e cristianismos alternativos – Poder e heresias!, Petrópolis: Vozes, 2009.
[2] Um resumo em data-show do contéudo deste artigo e do pubicado no número anterior do Mensageiro de Santo Antônio se encontra disponível na nossa página: www.bibliaepocrifos.com.br
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