Os bons padres são os que usam batina?

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Jesus não se vestiu de Messias. Foram suas palavras e ações que corroboraram sua messianidade. Não, Jesus não tinha uma veste que o identificasse como o Verbo Encarnado. Foi na convivência diária e no compromisso com sua missão que o anúncio da Boa Nova foi feito. Inaugurou-se o Projeto do Reino de Deus.

Houve um tempo em que, após o Concílio Vaticano II, muitos clérigos entenderam que seu comprometimento com o Evangelho seria o sinal incontestável de que o Reino está entre nós. Não se apegavam à aparência. O foco era compromisso. Para tanto, muito diálogo, presença fraterna e amor ao Povo de Deus. Sobretudo, os mais pobres. Afinal, a Opção Preferencial pelos Pobres é uma diretriz para a Ação Evangelizadora, em resposta à exortação evangélica de que somos, enquanto discípulos e discípulas de Jesus, enviados a evangelizar os pequeninos (cf. Lc 4,18).

Passaram-se os anos. Um novo rosto do clero se fez representar. Sacerdotes que resgataram vestes dos museus. Rendas, barretes, paramentos mais próximos das vestes de reis e não da pessoa do Cristo Jesus, o Nazareno, referencial de todo sacerdócio, conforme nos apresenta a Carta aos Hebreus. Em meio a tantos exageros estéticos, as batinas voltaram à baila. Há quem diga que padre verdadeiro usa batina. Então Jesus não era o Messias Verdadeiro? Ele não se vestia de forma distinta à maneira do Povo de seu tempo. Quem se vestia de forma diferente eram os Fariseus. Se achavam os puros e, por isso, vestiam-se de forma diversa. Ressaltando seu estado de separados da ralé pecadora. É. Os Fariseus gostavam de ser vistos como diferentes dos demais mortais. E não nos esqueçamos do que lhes acusou Jesus: hipócritas! Sepulcros caiados! Claro, devemos entender esta acusação de Jesus aos fariseus dentro de seu contexto.

Voltemos aos padres e às batinas. Uma constatação irrefutável é que, quanto maior o desejo de se distinguir por vestes, menor é o conteúdo apresentado na Ação Evangelizadora. Percebemos padres embatinados com sérias limitações intelectuais. Visão rasa de contexto histórico. Assim, sem compreensão de contexto, fracassa-se o texto. Homilias cheias de frases de efeito, sem levar à profundidade do texto bíblico. Devocionismo, dogmatismo, autoritarismo.

E mais: ainda temos os padres gurus. Padres símbolos da beleza masculina. Padres dos stories em redes sociais, que passam mais tempo diante de câmeras de smartphone do que em suas comunidades em atendimento pastoral. Estes, com suas batinas impecáveis e suas palavras vazias. Pregando um Evangelho sem compromisso com a vida, como se fossem coach da autoajuda. Com um discurso intimista da experiência de Jesus. Sem comprometimento com a comunidade eclesial. Sem compromisso, não há Reino. Estes não refletem o Messias Nazareno. Então? Estão a serviço de quem?

Aqui poderemos partir para uma linha final, à guisa de conclusão, de nossa reflexão. O problema não são os padres de batina. É a forma com que essas vestes geram tamanha fascinação que acabam se resumindo a si mesmas. Não ao seu sentido. Quando um ministro ordenado toma sobre si estas vestes e estas representam a essência de seu ministério, há que se aplaudir. Ao exemplo disso, temos a figura inesquecível de nosso saudoso Dom Helder Câmara. Quem pode lembrar de sua pessoa sem uma batina? Portanto, que queiram o uso da batina, mas que não se esqueçam do que de fato representa qualquer ministério, isto é, serviço. Ser pobre e livre, terno e fraterno. Colocando-se sempre ao lado dos fracos, marginalizados, excluídos. Com conduta humilde e despojada, tendo como única riqueza o Reino de Deus. A um ministro ordenado com estes predicados, até que a batina cai bem.


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