“A Sacralidade das Pequenas Coisas”

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Certo monge trapista, de quem não me recordo o nome, afirmou sabiamente que as pessoas de nosso tempo estão em constante busca por milagres. E entendem como milagre algo fantástico, à guisa de película cinematográfica de Steven Spielberg. Esquecemos que a maior sacralidade da Igreja se concerne nas pequenas coisas. Ou, pelos menos, naquilo que acreditamos estar dentro do ordinário e, não, do fantástico. Um exemplo claro é a Eucaristia. Temo-la sempre à mão. Basta ir onde se celebra este mistério. Por ser de acesso de quase todos, não se compreende a magnitude de sua essência.

Buscamos milagres. Coisas fantásticas que sustentem uma geração inquieta. Querem viver impressionados. Esquecemos que a raiz desta palavra, impressionar, pode remeter-se à pressão. Estar sob pressão. Por isso, quanto mais esdrúxulo, fora do comum, melhor.

Há quem viaje umas centenas de quilômetros para participar de alguma celebração, onde um pregador famoso está cercado de célebre fama de taumaturgo. “Fui à uma missa de cura e libertação de padre fulano e recebi uma grande graça”. Estranho. Primeiro, porque a missa não é do padre fulano, e sim memorial da Ceia do Senhor, portanto, a missa é de Jesus. Segundo, se algo de extraordinário de fato aconteceu, não se pode atribuir ao presidente da celebração. O padre preside, mas – com ele – soma-se uma série de ministérios, nos quais, muitos são os celebrantes. Leitores, acólitos, assembleia. A missa não é do padre fulano, e sim, o encontro do Povo de Deus com Jesus Eucaristizado. E o padre se insere neste Povo de Deus celebrante.

Destarte, não devemos ir ao encontro de missas longe, em busca de um sinal de Deus para nossas vidas. Devemos nós mesmos, viajando ao nosso interior, dentro da sinceridade de nosso coração, encontrar o sinal deste Cristo que transforma nossa história. De uma forma ordinária, porém, definitiva.

Sem desmerecer os muitos relatos de graças alcançadas, aquele que é curado de um câncer, por exemplo, teve um sinal seguro do amor de Deus. Porém, transitório. A Páscoa Definitiva chegará. Todos nós morreremos, seguramente. Mais importante é como se morre e não como a morte se nos chega. O maior sinal de esperança cristã é morrer bem, louvando à irmã morte, como nos inspirou São Francisco de Assis. E com isso podemos concluir que a busca de milagres nem sempre significa uma busca por Deus. Sinaliza mais uma geração inquieta, inconformada com sua própria história.

Outro sinal de que nosso tempo não consegue reconhecer a presença de Deus no ordinário de nossa história, é nossa dificuldade com o silêncio. Nossas reuniões para oração, ou liturgias, parecem temer o silêncio. Quanto mais barulhentas, melhor. Façamos uma viagem à sabedoria da Palavra de Deus e pensemos um pouco sobre nossas almas inquietas. No capítulo 19 do Primeiro Livro dos Reis, temos a experiência de Elias com Javé no deserto. Diz o texto:

“E continuou a caminhar mais um dia pelo deserto. Por fim, sentou-se debaixo de uma árvore e desejou a morte, dizendo: ‘Chega, Javé! Tira a minha vida, porque eu não sou melhor que meus pais'”.  (1Rs 19,4)

Podemos nos introduzir no relato da experiência de Elias com Javé pela perícope acima. Fica claro que se trata de uma situação de grande provação. Elias pede a morte, dada a dimensão de seu sofrimento. E a misericórdia de Deus se manifesta em forma de pão e água (cf. 1Rs 19,5-8).

Elias estava sob perseguição de Acab e Jezabel. Ameaçado de morte, fugiu para o deserto. Foi ali, no deserto, lugar do encontro com Deus, que sentiu o amor daquele que não abandona seu povo. Em forma de violência sobre seus opressores? Com a espada da vingança? Não! Sendo alimento e bebida. Pão e água.

A narrativa nos mostra que depois que comeu e bebeu, caminhou por quarenta dias e quarenta noites pelo deserto. Até o Horeb, a Montanha de Deus (cf. 1Rs 19,8). Dentro de uma caverna neste monte, aguardava que se cumprisse a promessa de que Javé iria se revelar (1Rs 19,11).

“Então aconteceu um furacão que de tão violento rachava as montanhas e quebrava as rochas diante de Javé. No entanto, Javé não estava no furacão. Depois do furacão, houve um terremoto. Javé porém não estava no terremoto. Depois do terremoto, apareceu fogo, e Javé não estava no fogo. Depois do fogo, ouviu-se uma brisa suave. Ouvindo-a, Elias cobriu o rosto com o manto, saiu e ficou na entrada da gruta.” (1Rs 19,11-13)

É aqui que gostaria de pedir a atenção do leitor. Foram várias as manifestações estrondosas na natureza. Furacão, terremoto, fogo. Nenhum destes continha a manifestação de Deus. Foi na brisa leve que Javé se fez revelar. E com a revelação de Javé, vem a confissão de fé de Elias: “O zelo de Javé dos exércitos me consome” (1Rs 19,14). Daquele momento em diante, o medo não mais se abateu sobre o profeta. Sentiu a força que impulsiona a missão. Há que se lembrar, a força de Javé não se fez representar no terremoto, no furacão ou no fogo. Foi na brisa leve que ele se deu a conhecer. No silêncio do deserto e na brisa que brinda de frescor nosso rosto. Por que procuramos Deus no fantástico? No extraordinário? Por que tememos o silêncio? O deserto?

Vivendo este tempo de espera, peçamos ao nosso Deus que possa se nos revelar. Não como o Deus do fantástico, do extraordinário. Assim como Elias, temos a fragilidade humana à flor da pele. Por isso nosso amado Deus se fez revelar nas pequenas coisas, para que – bebendo da pequenez – se agigantasse a condição humana. Não se trata disso um milagre? Um Deus que, de tão magnânimo, se fez Trindade e, pela encarnação, quis ser Homem. O pão, a água, a brisa leve, a manjedoura, a Cruz. Nosso Deus gosta de se fazer pequeno, para que nossa fraqueza não se acanhe diante de sua Majestade. Só um povo amado, como o somos todos nós, poderia ter um Deus tão corajoso. Que renuncia sua grandeza, para sentar-se à mesa e partilhar o Pão na pessoa de Jesus.

Na feliz espera de Deus que se nos revela, tenhamos a ousadia de imitá-lo. Ele que teve a disposição de um amor que liberta das pedagogias do poder, do prestígio, da abundância e da riqueza; liberte-nos destas armadilhas que só nos afastam do que realmente importa: Amar e Servir. Jesus é o Rei que serve. Que a humanidade possa vivenciar o maior dos milagres: a partilha que destrói a pobreza; a solidariedade que constrói a fraternidade, o amor que faz do homem e da mulher partícipes da deidade.

A Santidade de Deus está nas pequenas coisas.


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