“Ainda uma Igreja de clérigos e leigos?” | Artigo de João Rezende Costa

Primeira Parte

I. INTRODUÇAO

A intenção deste artigo é encaminhar uma reflexão que visa superar a distinção entre “clérigos e leigos” em eclesiologia. Nem no Direito Canônico, nem na prática clericalizada de Igreja, nem na linguagem corrente está superada essa distinção. Mas é possível superá-la teologicamente, buscando nova designação para o que havia de correto na distinção e superando os seus defeitos em nova síntese eclesiológica. E uma vez ganho terreno no campo da eclesiologia — a teoria sobre a Igreja —, o avanço haveria de se expressar também na prática, influenciando o Direito, sobretudo os planejamentos pastorais para realizar concretamente a Igreja, mas também mudando a linguagem corrente. As ideias, as práticas e a linguagem referente a elas se emaranham de tal forma, que umas dificilmente se descartam sem as outras. A própria linguagem retém seu vigor autônomo: constitui fator que porta e apoia a teoria e a prática passadas.

O tema pode ser considerado sob o prisma da teoria e da prática, acentuando-se ora um ora outro aspecto. Divido, pois, a abordagem em dois pontos de interesse. No presente número da Vida Pastoral, trato dos parâmetros doutrinais que fundam uma nova teoria para superar a designação de “clérigos e leigos” no seio da Igreja. Em um próximo número, pretendo falar de propostas concretas para a prática pastoral. Pois a nova teoria não pretende ser diletantismo, mas quer estimular e dirigir ações, planejamentos e propostas para mudar uma realidade, precisamente a da Igreja construída.

No quadro dos parâmetros doutrinais, divido a matéria da seguinte forma:

1.  Refere-se a uma imagem de Igreja rica de ministérios, onde se acentua: a) a igualdade e a dignidade básica de todos no seio do Povo de Deus; e b) os serviços, baseados nas distinções e diferenças no interior do Povo de Deus.

2.  A superação da distinção e linguagem relativas a “clérigos e leigos”.

II. PARÂMETROS TEOLÓGICO-DOUTRINAIS

1. Por uma Igreja sem rigidez, rica de ministérios

Da mais fundamental e histórica importância foi a decisão dos Padres do Vaticano II de fazer preceder na Lumen Gentium ao capítulo sobre “a constituição hierárquica da Igreja” (capítulo III), um capítulo sobre o Povo de Deus em geral (capítulo II). Esse fato ainda não produziu todas as suas consequências. De um só golpe, romperam com a estrutura piramidal da compreensão eclesiológica vigente — segundo a qual os ministros ordenados como que pairavam acima do povo cristão com status eclesial de privilégio e como se fosse necessária mediação entre os fiéis e Deus —, e, ao mesmo tempo, inseriram os “hierarcas” bem no chão e terra a terra de todo o Povo de Deus em sua aventura comum (ou melhor, em outra perspectiva, fizeram-nos descer às raízes e bases da seiva de sua verdadeira dignidade, como passaremos a expor).

Vários aspectos da Eclesiologia do Vaticano II foram levados avante pela reflexão teológica posterior e possibilitaram a visão de “uma Igreja toda ministerial” (cf. Giuseppe Colombo. “O ministério presbiteral numa igreja toda ministerial”, em: Atualização, nº 12, 1981, pp. 254-274). Sempre encaminhando o pensamento no sentido de fazer emergir a superação da distinção entre “clérigos” e “leigos” e tentando mostrar como a visão eclesiológica resulta daí mais plurifacética, menos rígida e mais rica de possibilidades concretas, discorremos sobre os seguintes temas.

a) A igualdade e a dignidade básica de todos no seio do Povo de Deus

Compreendendo a Igreja na chave de “o Povo de Deus”, o Vaticano II comandou uma virada de perspectiva sobre a Igreja e as formas de construir a Igreja. Já pelo fato de ser esse tema anteposto à tratação sobre a “hierarquia”, sublinha-se que também os cristãos ordenados não escapam à moldura do Povo de Deus e nele acham o sentido tanto de si enquanto fiéis como o do seu ministério. Essa reviravolta significou a boa intenção (quando vai passar plenamente à prática?) de eliminar a arraigada figura piramidal do conceito corrente da Igreja, representada como uma pirâmide, em cujo pico, como que constituindo realização mais plena de Igreja, estaria situada a “hierarquia”, tendo em sua base os cristãos comuns (ou os chamados “leigos”, o não “clero”), de tal forma que os cristãos ordenados vieram a apresentar a fachada e a presunção de ser uma casta especial de dignidade dentro da Igreja, bem como de falar “em nome da Igreja”, como se Igreja fossem só eles. Trata-se do que sói chamar-se de “clericalismo”.

Contudo, o Povo de Deus é constituído por chamamento e amor gratuitos (puro dom) do Pai, e baseia-se — em sua modalidade explícita de plena pertença (cf. LG 14) — na união íntima e exercida com Jesus Cristo pelos sacramentos do batismo, crisma e eucaristia, fruindo todos os fiéis de básica igualdade. No seio do Povo de Deus o único título de dignidade é a graça de Deus (que, resumindo, importa no amor eficaz para com Deus e para com o próximo): somente ela e o grau de sua intensidade de vivência determinam quem é e quem é mais na Igreja sob o aspecto que sobretudo importa. Portanto, distinções e diferenças entre os cristãos (por exemplo, ser papa ou bispo ou padre, ser religioso, ser casado etc.), não fazem com que alguém seja mais ou menos Igreja de Deus ou na Igreja de Deus; em outros termos, elas não se referem ao cerne essencial e sobretudo relevante do ser Igreja. Este nasce e cresce pelos sacramentos básicos vividos, e é a graça de Deus vivida e operosa em todas as dimensões do humano em que cada um está inserido. Igreja que cresce propriamente, cresce é a esse nível.

A Igreja, que não é excelente e eminente a esse nível, não é excelente e eminente no que mais interessa. Seria montagem de meios e instrumentais inoperantes, depósito de ferramentas sem uso (e passíveis de abuso!), uma vez que, além deste aspecto, todo o restante se situa na ordem dos meios e não dos fins. A Igreja de Jesus, em sua gema e fina flor, não está, por força da própria instituição, em nenhuma instituição que se rotula de “cristã” ou de “Igreja”, mas se fez e se faz presente em certos atos exímios e determinadas personalidades que expressam os píncaros da graça de Deus no mundo. Aí emerge o aspecto essencial da Igreja com brilho, excelência e eminência. Aí se mostram de forma insigne o Evangelho de Jesus e a Igreja evangélica que vive o querer de Deus revelado em Jesus Cristo em plenitude. Que se pense em Maximiliano Kolbe, Francisco de Assis, Teresinha de Lisieux, Vicente de Paula etc. É o lugar da dignidade dos santos e ações santas na Igreja. É a esse nível que se mede o ser-Igreja de uma pessoa, de um grupo e de determinado exercício de um encargo na Igreja. O resto é o resto, apenas instrumental voltado para esse foco central, e só serve se de fato funciona para tanto, e, se não funciona, não passa de carcaça externa e de efeito.

A graça de Deus, eis o único título de dignidade genuína no seio do Povo de Deus, que merece elogio e veneração (com todas as ressalvas que recaem sobre a realidade da graça, que sempre leva em conta a gratuidade e transcendência de Deus: ao coroar o mérito dos seus santos, Deus coroa os seus dons!). Falhando a vida e luz deste foco central da Igreja, você poderá chamar qualquer outro elemento existente de “eclesial” — e pode ser de fato, mas todo o restante fica sendo cadáver sem alma, sem vida e sem norte, pois não estará acompanhado por, nem voltado para servir a esse foco central. Este tem que ver com o amor, que se acende na descoberta de Deus que é Amor (cf. 1Jo 4,16), a ser testemunhado por obras (e não só na proclamação!) perante os homens. Pelo fato de o movimento de Jesus apresentar-se essencialmente voltado para o homem — e tanto mais quanto mais necessitado ele for! —, também todas as vezes que a Igreja se conceitua e se constrói (em sua produção simbólico-ideológica e na realização de si nos indivíduos, grupos e instituições) no sentido de se salvaguardar do dom ou encastelar-se em glórias e morgados, já não é mais, nessa faceta, de Jesus mesmo, mas tornou-se Sinagoga que preserva a Lei ou Império que acaricia o poder. O ser Igreja, na face sua que mais importa, brilha esplendoroso em todos os cristãos, nos ministérios e nas instituições que foram e são pelos outros.

A história e a experiência nos instruem sobejamente sobre a terrível possibilidade de alguém ser papa, bispo, padre, religioso no seio do povo de Deus, sendo, contudo e apesar de tudo, pagão de quatro costados! Ter encargos na Igreja não salva o portador por tê-los! É preciso a seiva da vida e graça de Deus, o testemunho do amor evangélico, viver a ventura e aventura comum de todo o povo de Deus, onde se acha a única dignidade de todos (cf. Mt 7,22-23).

Conexo com o tema do Povo de Deus, o Vaticano II discorre sobre o sacerdócio geral de todos os fiéis, que afinal os ministros ordenados não depõem quando se ordenam e ao qual eles não passam de serviços, pois que se refere ao núcleo básico do exercício da fé e graça de Deus. Todos são sacerdotes. O primeiro sacerdote de cada um é ele próprio. Se não o for, ninguém o será por ele e no seu lugar — as consciências são, sob esse aspecto, incomunicáveis e donas de si mesmas. Na relação com Deus há imediatidade. Cada fiel que se converte oferece o sacrifício de si mesmo e do seu mundo na fé, esperança e caridade ao Pai por Jesus Cristo (em virtude de sua união com ele no Batismo, Crisma e Eucaristia) na força do Espírito. Todo o restante na Igreja — também o sacerdócio ministerial (e esse não é para ficar no meio, mas para agir na raiz e ajudar o acesso direto ao Ministério, ou seja, ajudar o exercício do sacerdócio geral dos fiéis) — serve ao caráter sacerdotal geral de todos os fiéis. Só assim ganha sentido. O sacerdócio chamado ministerial não emerge para fora, mas se constitui no seio e a serviço do sacerdócio geral dos fiéis. Visa servir não ao seu portador, mas aos outros. O sacerdócio ministerial não dispensa do exercício do sacerdócio geral, mas, pelo contrário, ganha força e seiva do exercício dele.

b) As distinções e diferenças no seio do Povo de Deus apenas fundam serviços mútuos

Há um imenso leque de diferenças entre os membros do povo de Deus. Diferenças de toda ordem. Todas as distinções entre os cristãos (ser papa, bispo, padre, religioso, casado ou solteiro, criança ou jovem ou adulto ou velho, ser diversamente qualificado nas várias profissões humanas, como médico, advogado, engenheiro etc.), todas essas distinções, repito, não são títulos de dignidade no sentido de se poderem aduzir como base para exigir dos outros veneração, rapapés e salamaleques, mas única e exclusivamente comissionamentos em que se insere o carisma de Deus para o serviço diverso exigido pelo bem dos outros no seio do Povo de Deus. São títulos de deveres e obrigações, de encargos e ministérios, e não títulos honoríficos ou de pedestal para o culto das personalidades. São participações nas dores do “Servo de Iahweh” em prol da multidão.

Com isso, fica superada a figura piramidal de representação da Igreja. Assumimos uma mais adequada, uma figura como que circular: todos na Igreja são chamados a se relacionarem diretamente com o Mistério do Pai, Filho e Espírito Santo pela vivência da graça e do sacerdócio geral de todos os fiéis. Todos se constituem como que em um grande círculo em redor deste foco central. As diferenças de toda ordem fundam serviços e ministérios de uns para com os outros. A Igreja constitui-se, dessa forma, como uma circulação vital de serviços fraternos que nascem e recebem vida do próprio cerne do ser-Igreja, ou seja, da graça vivida. Os ministérios são, assim, tanto expressões da graça como serviços, em última análise, à graça. A Igreja é rica de serviços, carismas e ministérios, pois cada diferença funda novo serviço. E não é possível, portanto, haver um cristão que esteja destituído de ministérios, ao chegar à idade da razão. A tarefa messiânica de Jesus expressa-se em cada um de uma maneira.

Por força destes dados teológicos, não pode haver distinções de classes, castas ou status (no sentido sociológico) no seio da Igreja com legítima fundamentação evangélica. Só pode haver distinções de ministérios (diakonias, serviços, encargos, cargos, obrigações) a serem cumpridos para o bem dos outros, da comunidade cristã e sua missão no mundo. Se houver e enquanto houver semelhantes distinções de classe, a Igreja estará reproduzindo no seu seio as estruturas das sociedades mundanas não evangelizadas de dominação, sendo contratestemunho do cerne mesmo do Evangelho. Por isso os teólogos se esforçam para acostumar o povo cristão a evitar vocábulos que cheiram a poder humano e a sacralização, como “hierarquia”, “poder sagrado” etc., assim como também comparações e analogias buscadas nas sociedades humanas para ilustrar estruturas da Igreja (na linha da Igreja como “sociedade perfeita”). Porque, se poder existe (poder como capacidade de influenciar a vida dos outros), ele deve ser entendido e vivido evangelicamente apenas como serviço aos outros e não como exigência de serviço dos outros ao poder.

2. Sobre a superação da distinção entre “clérigos” e “leigos”

Com as reflexões anteriores creio que criamos clima para de imediato conduzirmos a questão para o seu final, ou seja, para o problema da distinção entre “clérigos” e “leigos” no seio do Povo de Deus, bem como para uma proposta de nova conceituação, e terminologia.

Nos precisos termos, em que vínhamos discorrendo, o teólogo deverá propor que se evite também a designação e distinção de “clérigos e leigos”, ao se referir à Igreja como Povo de Deus. Ela não é adequada sob vários pontos de vista, que passo a elencar:

a) Primeiramente, a teologia hoje deve estar consciente de que se produz depois da moderna crítica às relações e sociedades dominadoras, estando vigilante e atenta a tudo (até à terminologia) que expressa ou expressou a dominação e expedientes para eliminar a participação de todos ou que possa ser mal entendido nesse rumo. A história nos fornece sobejos exemplos de como essas relações de dominação foram até mesmo sacralizadas, como se estivessem baseadas no fato de Deus ter criado as pessoas com dotes e capacidades diferentes, de tal sorte que na própria natureza estaria enraizada (lei natural, e, portanto, estabelecida por vontade divina) a exigência de uma hierarquização natural (e sobrenatural) entre os homens, de tal forma que uns houvessem de trabalhar para servir aos outros por determinação da reta ordem da natureza. Não se percebia a relação “senhor-escravo” como mero produto social e, em consequência, como mera construção humana, dos mais fortes e detentores do poder social sobre é contra os mais fracos, expediente pelo qual aqueles impõem a esses facticamente os seus desígnios e interesses e ideologicamente (na cultura difusa, no Direito, na filosofia, na religião, na teologia etc.) o justificam, inoculando-lhes nas mentes o infantilismo, a não participação e a sujeição desumana.

A Igreja não se imuniza automática e totalmente do antievangelho das sociedades e ideologias que a cercam, sobretudo quando secundam os seus interesses, ou melhor, o dos seus homens (como no caso da relação da Igreja com o capitalismo, que se constitui essencialmente pela relação “senhor-escravo” e contudo não foi condenado por si e em si, mas apenas em razão de seus abusos mais graves). A teoria, a que aludimos no parágrafo anterior, certamente agiu na concepção piramidal da Igreja, de longa vigência passada e avançando para o nosso presente (e que ainda tem futuro). Aí se chegou de fato a se conceber e viver a “classe” clerical como se fosse protótipo e modelo do ser-Igreja, como se fosse até mesmo mais Igreja do que os outros, criando condições e ideologias que impediram efetivamente a participação e a responsabilidade exercida de todos pela Igreja e sua missão. Constituiu sempre um ponto de resistência, para a teologia e sobretudo para a prática, assumir os chamados “leigos” para uma responsabilidade primigênia pela Igreja e ainda existem temas que parecem tão estranhos, como o de um possível direito primigênio cristão de participar do governo da Igreja, do direito de eleger os ministros aos quais está sujeito etc. A Igreja continua ainda muito “clerical”, e bem mais “clerical de cúpula” (papa, cardeais, conferências episcopais, bispos) do que “clerical de base” (presbíteros e outros ministros). Eliminaram-se a participação ativa e a responsabilidade dos outros cristãos no seio da Igreja (até na liturgia, lugar máximo de expressão de Igreja), cuidando-se da formação esmerada apenas da classe do poder, em instituições onde o arcabouço ideológico se reproduzia na geração seguinte com rigidez constante e vigiada. Essa não participação, não casual, mas social e clericalmente provocada, age ainda hoje em muitos aspectos, como na maneira em que se nomeiam os titulares dos cargos eclesiásticos. Chegamos a tal clericalização de Igreja que se fez mister clamar e protestar que “a Igreja somos nós e não só papa, bispos, padres e freiras” (a literatura eclesiológica e eclesial andou cheia de sentenças semelhantes, que são de causar pejo; e não parecem dispensáveis, quando no material referente às CEBs hoje elas surgem com insistência).

A expressão “clérigos e leigos”, concomitante a uma sociedade e a ideologias de dominação, adquiriu terminologicamente — e de forma que parece inadmissível, tal a sua persistência em produzir e condensar práticas — as conotações classistas que notamos no dia a dia, espelhando a gramática ideológica da Igreja piramidal. São termos irremediavelmente sujos. Somente o seu passado comprometido seria argumento bastante para buscar e tentar nova designação terminológica. Contudo, não só ele, mas o cerne mesmo do Evangelho de Jesus aplicado à eclesiologia o recomenda: Não existe ninguém mais importante do que ninguém! Importante para Jesus é aquele que é importante para ajudar os outros. O resto é resto, anterior à conversão evangélica e à moderna crítica das relações opressoras.

b) Em segundo lugar, porque, com a divisão “clérigos e leigos”, apropria-se a um grupo um título da graça comum, que é dom de todos no Povo de Deus. Originalmente — ao nível da teologia bíblica, antes da contaminação eclesiástica pelo gozo e gosto do poder da sociedade circundante, antes de a Igreja se expressar na cristandade — klêros laós (cujo adjetivo relativo é laikós) foram títulos da dignidade de todo o povo de Deus, anterior e na raiz de qualquer distinção.

Em Cl 1,12 encontramos a palavra klêros no sentido de “herança”, implicando o conjunto dos bens de que gozam os cristãos: “… dando graças ao Pai que nos capacitou para participar do klêros dos santos na luz”. Em Ef 1,11 encontramos o verbo klerôo, “eleger ou destinar por sorte”. Diz-se aí: en hô kaì ekleróthemen, que se poderia traduzir literalmente: “no qual fomos feitos clero”, ou seja, herança, fomos eleitos para participar de Jesus (cf. Zorell. Lexicon Graecum Novi Testamenti. Paris: Lethielleux, 1931, col. 713-14).

laós na teologia bíblica, a que se refere o termo laikós (cf. Pierre Chantraine. Dictionnaire Étymologique de Ia Langue Grecque, Histoire des Mots. Paris: Klincksieck, tomo III, 1974, pp. 619-20) é o título por excelência da pertença a Deus na Aliança e da dignidade fundamental cristã. Não carrega o sentido pejorativo da nossa palavra moderna “leigo” em algum assunto; ou como na terminologia grega “popular” em contraposição à elite, que se distingue a si mesma dessa forma do resto do corpo social. Porta, pelo contrário, toda a riqueza de sentido que lhe advém da teologia bíblica sobre o “Povo de Deus”. Se o que se passou a chamar de “clérigo” não for “leigo”, não será simplesmente de Deus; como Povo de Deus é que também eles ganham o seu gabarito teológico, eclesial e espiritual (cf. Zorell, ibidem, col. 760). Vale a pena e condiz com o Vaticano II retornar à antiga terminologia, deixando-a valer para designar todo o Povo de Deus.

c) Em terceiro lugar, a superação dessa terminologia ajuda a eliminar o passivismo, abrindo espaços para uma realização mais rica da Igreja como Povo de Deus. Ajudaria a agregar em melhor síntese as aquisições da eclesiologia de figura circular e da Igreja toda ministerial, levando à valorização justa, sem distorção, também dos ministérios não ordenados. O ministério sacerdotal não receberia acentuação unilateral, devendo, em uma Igreja toda ministerial que se realiza na mais diversificada gama de ministérios, ser submetido a uma reconsideração e situar-se em maior equilíbrio. Ajuda a superar a ideia de que haja “funcionários” especializados em Igreja, perante os quais os “leigos” não passariam de leigos no assunto e cristãos de categoria segunda.

No entanto, em uma Igreja toda ministerial, é impossível ser cristão sem assumir serviços/ministérios no seio do Povo de Deus. Quem não achou o seu serviço/ministério ou não o exerce, ainda não resolveu o seu problema vocacional, porque cada membro da Igreja tem o dever de fazer circular fraternalmente o seu serviço ou serviços na comunidade dos irmãos, recebendo ao mesmo tempo o deles. Todo o batizado é batizado para exercer serviços/ministérios: é por meio deles que se dá o testemunho visível do Povo de Deus. A terminologia nova há de ressaltar o ser-Igreja e o caráter ministerial de todos, frisando o valor de outros ministérios e serviços, que não os ordenados, e que são importantíssimos para a construção da Igreja, como, por exemplo, o da família cristã, que passarão a merecer carinho e cultivo mais acentuados.

d) Em quarto lugar, pode-se superar essa terminologia e divisão de “clérigos e leigos” sem absolutamente nada perder do conteúdo de fé sobre os ministérios ordenados, evitando-se ao mesmo tempo os inconvenientes e percalços que se fizeram também históricos em seu uso ideológico e prático. A nova distinção deve acolher tudo o que havia de correto na antiga, abafando os seus pendores classistas.

Uma vez que toda diferença na Igreja funda serviços/ministérios, uma vez que toda a Igreja é ministerial, uma vez que todos os seus membros devem achar o seu serviço/ministério e exercê-lo ativamente sem ser impedido, mas estimulado, podemos intuir a adequação da divisão seguinte: existem na Igreja ministros ordenados e ministros não ordenados, ministérios ordenados e ministérios não ordenados, exercidos em mútua comunhão e ajuda. Uns não dispensam nem abolem os outros.

Entendo por “ministérios ordenados” aqui todos os serviços para os quais é preciso estar habilitado pelo sacramento da ordem, e em sentido estrito, ou seja, somente os serviços que necessitam da ordem para sua validez. Nem todos os ministérios que hoje estão de fato adscritos ao papado, episcopado, presbi-terado e diaconado, são incumbências que necessariamente decorrem de habilitação proveniente do sacramento da ordem. Espero no próximo artigo poder propor tanto uma divisão e dispersão em várias pessoas dos serviços que se fundam no sacramento da ordem e hoje são exercidos por uma só pessoa (bispo, pároco etc.), como também e sobretudo daqueles que são hoje de fato exercidos pelos ministros ordenados e para os quais não se requer o sacramento da ordem (por exemplo, celebrar o sacramento do Batismo, governar uma paróquia, dirigir uma pastoral etc.).

Os ministérios ordenados orientam-se de modo geral no sentido de ajudar o exercício dos não ordenados, reconhecendo-os, suscitando-os, coordenando-os (ou suscitando também a coordenação por outros), a fim de que rendam o máximo no sentido de construir a Igreja. E deles recebem, por sua vez, ajuda. Assim a tarefa de Igreja, diversificada a plurifacética apresenta-se claramente como sendo de todos.

A imagem tridentina da Igreja, com sua acentuação preponderante da função “sacerdotal” na missão eclesial (com a consequente expansão para o “sacerdote” católico post-tridentino e seu isolamento do Povo de Deus) é assim remanejada e aberta para o amplo leque dos outros ministérios, que também cumprem a missão da Igreja, missão que não consiste apenas emprestar culto sacerdotal a Deus, mas também em servir aos irmãos no seio do Povo de Deus e aos homens em geral na tarefa de sua promoção e libertação. Haverá de se criar espaço também para o surgimento de ministérios que atendam aos reclamos desse aspecto da missão da Igreja, ministérios como que voltados para o exterior, para o grande mundo. Entre os ministérios, a insistência deixará de recair sobre o aspecto estritamente sacerdotal do culto (é notável e significativo o próprio desvio da linguagem: pouco a pouco vamos deixando de falar de “sacerdócio ministerial” para dizer “ministério sacerdotal” e, melhorando ainda mais, “ministério presbiteral”, que não visa absolutamente apenas ao culto litúrgico em sentido estrito). Essa visão mais arredondada dos ministérios e estruturas de Igreja haverá, de incidir sobre o problema da identidade, lugar na Igreja e formação do presbítero, e sobre as novas formas e desdobramentos possíveis deste ministério, assunto a que voltaremos em um próximo número da revista.

Como podemos ver, temos assim certa relativização dos ministérios ordenados. Estão orientados para os outros ministérios, deles não prescindem, mas os ajudam, não os assambarcam nem os substituem. Hão de se exercer em “koinonia” com eles. E pode ser que haja em determinada comunidade em determinado tempo (ou talvez na Igreja como um todo e na Igreja de todos os tempos?) ministérios não ordenados que sejam mais básicos e importantes do que os ordenados. Somente uma mentalidade “clericalizada” está impedida de enxergar essa possibilidade. Não é de se pensar no papel ou ministério da família cristã nestes termos? Se assim pensássemos, cuidaríamos talvez das “vocações matrimoniais” cristãs com o mesmo esmero com que cultivamos as “vocações sacerdotais”!

“Ainda uma Igreja de clérigos e leigos?”, era o nosso título. Respondemos que a nova eclesiologia faculta uma divisão nova sem os percalços da primeira e muito mais equilibrada. Propomos uma Igreja toda ministerial, onde as diferenças não se situam ao nível do ser-Igreja, aberto igualmente a todos, mas unicamente ao nível dos serviços. Teologicamente é mais adequado substituir a antiga divisão “clérigos e leigos” por “ministros ordenados e ministros não ordenados”, devendo todos procurar o seu lugar de serviço na Igreja. Suprimindo a velha terminologia, vamos suprimindo as velhas práticas com ela conexas. Sobre as propostas para uma nova prática, retornaremos em um próximo número.

Link do Primeiro Artigo: www.vidapastoral.com.br

Segunda Parte

I. INTRODUÇÃO

Em contribuição anterior na Vida Pastoral (ano 24, nº 110, 1983, pp. 7-15), em idêntico título, tratei dos parâmetros teológico-doutrinais para se superar a divisão de clérigos e leigos no seio da Igreja, ao mesmo tempo que anunciava a intenção de abordar o tema sob o ponto de vista de propostas viáveis na prática pastoral.

Ocupo agora o espaço para cumprir com este propósito. É artigo inteiramente ligado ao anterior, pressupondo-o e tencionando tirar conclusões a partir dele.

Lá dividimos a tratação em: I. Introdução; II. Parâmetros teológico-doutrinais; aqui continuamos com um terceiro ponto: Sugestões viáveis para se superar a divisão de clérigos e leigos na Igreja.

Note-se que falo de sugestões “viáveis” no âmbito da disciplina a que me dedico, ou seja, da Teologia Sistemática ou Dogmática, na medida em que essas sugestões, enquanto o vejo, não ferem nenhum dogma ou doutrina estabelecida. Considero-as “viáveis” também quanto à prática pastoral, contanto que haja, entre outras coisas, maleabilidade mental suficiente para se assimilar uma nova eclesiologia como abordamos no artigo anterior e também não se tenha medo de tentar formas e organicidade de ministérios ainda não institucionalizadas no Direito Canônico. Pois, se a este nos ativermos às suas fórmulas, só haveremos de repetir a ênfase nos processos acabados e fixados, com pouquíssima área para se superar a clericalização e o marasmo imperantes.

As minhas propostas poderão parecer ineficazes, pois não contam com o apoio do Direito e Poder estabelecidos, e vão contra hábitos inveterados de pensar e agir. Contudo, uma vez que falo em termos de achar vias de maior plasticidade e maleabilidade para os instrumentos que devem portar o evangelho e a missão da Igreja, capazes de rejuvenescer a obra evangelizadora (cf. Evangelii Nuntiandi 73) — emperrada por velhas e morosas instituições, por Compromissos e mentalidades estarrecidas —, lanço as minhas sugestões na esperança de fazer pensar e no desejo de contribuir para que o presente seja encaminhado para um futuro melhor de Igreja e (por que não dizer?) acreditando que o futuro poderá me dar alguma razão. Contando que para ele não acordemos tarde! Por isso o quanto aqui escrevo pretende ser sugestões que ajudem a pensar.

No quadro dos princípios que estabeleci — sobre uma Igreja de iguais na dignidade básica cristã a animar uma grande circulação de serviços fraternos alicerçados nas diferenças entre os membros, cada qual e todos dando a sua contribuição pessoal e original e recebendo a dos outros —, restrinjo bastante o âmbito da presente contribuição por motivos de estreiteza de espaço gráfico: trato no momento apenas de uma reconsideração do papel do presbítero na nova visão.

Divido o tema do seguinte modo: 1º) a proposta; 2º) uma nova feição para o seminário; 3º) uma nova feição do problema vocacional; 4º) vantagens dessa proposta.

Oportunamente espero tratar de outros ministérios, do episcopado e papado, sob o prisma da koinonia e sinodalidade, que devem sempre se expressar em qualquer exercício de ministério.

II. REDISTRIBUIÇÃO DOS SERVIÇOS,

HOJE CONCENTRADOS NO PRESBÍTERO PELA COMUNIDADE

1. A proposta

Falou-se e fala-se muito de crise da identidade sacerdotal. De repente o padre de corte tradicional sentiu-se sem feição e rosto próprios, como que figura esdrúxula a assambarcar serviços que lhe advêm da sucção em duas direções:

a) Assume serviços do bispo, o qual, pela grande extensão geográfica e demográfica da diocese, torna-se como que um burocrata ausente da sua Igreja, com frequência não conseguindo manter contato assíduo sequer com os seus padres (e há os que nem sequer podem conhecer pessoalmente os padres que trabalham e moram em sua diocese!); assim os párocos acumulam e exercem de fato muito serviço cessante do bispo, sendo — para usar expressão jocosa — bispos de trompas da fecundidade amarradas quanto à ordem e à jurisdição, exercendo contudo o único pastoreio real que existe na diocese, pois o bispo raramente mal chega a se anunciar. São eles de fato que reúnem o povo de Deus em torno da palavra, da eucaristia e do serviço fraterno. A função do bispo tornou-se mera denominação jurídica extrínseca. E pode haver pastoreio por mera denominação extrínseca e jurídica, sem achego às bases?

b) E, no outro polo, o padre atual suga, como atribuições próprias e específicas, serviços que seriam atribuições e responsabilidades de toda a comunidade do povo de Deus, despossuindo-o e apassivando-o.

Quanto a essa última observação, bastaria listar os vários serviços dos atuais presbíteros para se ver que quase todos podem na verdade ser exercidos por ministros não ordenados. Assim, para a competência baseada no sacramento da ordem propriamente só restam, de fato, a confecção da eucaristia, penitência sacramental e unção dos doentes (havendo dúvidas sobre a necessidade do sacramento da ordem para capacitar a este último ministério). Tudo o mais que hoje se adscreve aos presbíteros, congestionando a sua agenda, pode-se exercer sem a base do sacramento da ordem, como, por exemplo, batizar, assistir aos matrimônios, coordenar pastorais dos diversos tipos, suscitar e coordenar serviços da caridade e assistência social, e até mesmo pregar e ser pároco. (E pensar que ainda encontramos párocos que continuam a acumular o papel de administrador e contador!)

Com base em listagem semelhante (que não pretende ser completa, é claro, mas que pode servir de ponto de partida para se verem possibilidades novas, ficando o campo aberto para considerar ainda outros ministérios não ordenados), eu proporia o seguinte:

1.1. Repassar de imediato para vários membros na comunidade — quanto maior o seu número, tanto melhor — todos os serviços que se acumulam hoje no atual presbítero e que não precisam do pressuposto do sacramento da ordem para se exercerem, descongestionando a agenda hoje carregada dos padres e libertando-os para tarefas mais importantes na comunidade e para as quais estejam mais capacitados, como, por exemplo, a pregação, o atendimento e aconselhamento espiritual etc. Agindo nessa linha, haveríamos de:

1.1.1. Encarregar grupos de cristãos na comunidade que cuidem do ministério da Oração pelos falecidos (velórios e encomendações) e do concomitante conforto e visitas a suas famílias, representando o interesse e atenção da comunidade para com elas.

1.1.2. Constituir ministros não ordenados ordinários para batizar, que poderiam ser eventualmente os próprios pais ou padrinhos, seguindo um ritual de liturgia doméstica.

1.1.3. Delegar a ministros não ordenados a assistência canônica aos matrimônios, eventualmente a celebrar-se em liturgia doméstica presidida pelos próprios pais ou padrinhos dos noivos, após processo normal no escritório paroquial.

1.1.4. Suscitar e capacitar o maior número possível de pregadores da Palavra de Deus no culto litúrgico e paralitúrgico da Igreja na comunidade; assumir os catequistas como pregadores qualificados no seio da comunidade.

1.1.5. Assumir corajosa e juridicamente não ordenados para dirigir uma paróquia, os diversos tipos da pastoral, em koinonia íntima e colaboração com todos os outros ministérios, inclusive os ministérios ordenados.

1.2. Desdobrar, para serem exercidos por pessoas diversas, também os ministérios do próprio sacramento da ordem, que hoje se acham acumulados nos atuais padres, ordenando:

1.2.1. Ministros só da celebração da eucaristia, sem que simultaneamente recebam a ordem para a penitência sacramental e unção dos doentes.

1.2.2. Ordenar, respectivamente, ministros só da penitência sacramental, escolhendo pessoas com o carisma de suscitar o progresso espiritual da comunidade.

1.2.3. Ordenar ministros só para a unção sacramental dos doentes, escolhendo pessoas que tenham demonstrado o carisma do consolo e assistência aos doentes.

Assim como a Igreja desmembrou os ministérios concentrados em plenitude no apostolado, dividindo-o em episcopado, presbiterato, diaconato e outros ministérios, com certeza assiste hoje à Igreja a mesma capacitação para operar novos desdobramentos e parcelamentos.

Atente-se para a conveniência de esses ministros ordenados, com parcelamento dos serviços do padre atual, não se chamarem de “padres” (e de fato não são!).

Isso é importante por duas razões: em primeiro lugar, para que não se recaia na clericalização, transmitindo aos novos ministros toda a imagem e expectativa sociológica ligada aos atuais “padres”; em segundo lugar, para não incidir na lei do celibato, que ficaria restrita apenas aos presbíteros do antigo feitio.

Considero essa posição tão segura, que julgo que os bispos poderiam passar de imediato a ordenar nessa forma parcelada do sacramento da ordem, sem incidir em qualquer transgressão jurídica quer no que concerne à ordem quer no que concerne ao celibato. As ordenações seriam atos meramente “praeter legem”, simplesmente não considerados no Direito vigente.

2. Uma nova feição para o seminário

Com essa distribuição dos ministérios hoje concentrados apenas no presbítero, modificar-se-ia sensivelmente o conceito do seminário como sistema de formação para os ministérios, incluindo os ministérios ordenados de acordo com a proposta que apresentei acima. O seminário não seria mais um seminário “presbiteral” onde se entrasse somente para ficar padre (e celibatário!), mas instituição aberta para preparar todo o amplo leque de ministérios de que necessitam as comunidades, podendo abarcar pessoas que optam pelo celibato como carisma de serviço à comunidade, pessoas que não optam pelo celibato, inclusive pessoas casadas, casais e mulheres. O ambiente deste novo instituto de formação reproduziria a convivência na koinonia e colaboração dos vários ministérios em uma situação realista que refletiria a realidade comunitária. E dessa forma o perigo de clericalizar e exagerar o valor de determinado ministério ficaria eliminado, resultando maior equilíbrio.

Além dessa reformulação do conceito de seminário como instituição de formação especializada para os diversos ministérios (e não para “padres”), seria de se imaginar criativamente uma segunda modalidade, em que a formação se daria no seio da própria comunidade em que se exercem os vários ministérios e no próprio exercício dos ministérios. Pensaria na possibilidade de se assumir imediatamente para os diversos ministérios aqueles cristãos que já deram provas de bom senso, fé viva, espiritualidade, prudência e disponibilidade para servir, ordenando-os de imediato (na forma parcelada defendida acima) para os serviços que requerem a ordem, é cooptando-se, também de imediato, para os ministérios não ordenados.

O seminário começaria com o ato da ordenação ou cooptação para o ministério, e se faria na prática pastoral acompanhada de reuniões semanais de espiritualidade, estudos e revisão, bem como de cursos intensivos de férias e discussões dos problemas encontrados na própria prática ministerial. Manter-se-ia a maior maleabilidade possível no exercício desses ministérios, de tal forma que alguém poderia assumir temporariamente, depois retornar a exercer o ministério, afastar-se de novo etc., inclusive quanto aos ministérios ordenados na forma proposta acima.

O padre atual, de ministério e tempo integrais, passaria a exercer outro tipo de ministério: de forma ordinária, não trabalharia mais diretamente com o povo, mas dedicar-se-ia à animação e formação deste novo sistema de ministérios, que, por sua vez, multiplicariam os serviços para as comunidades cristãs de porte menor.

Com um novo sistema desse tipo, bem mais aberto e maleável, não perderíamos para o serviço eclesial personalidades ricas e preciosas, pois, se não conseguimos formá-las para as atribuições do presbiterato na plenitude atual e com o rigor do celibato, que diminui enormemente a perseverança, não precisamos desistir de formá-las para outros importantes ministérios, como, por exemplo, o ministério da pregação. Uma vez diversificada a formação dos seminários, aberta para o amplo leque dos ministérios diversos, estaríamos fazendo mais produtivo o nosso processo de formação e nossos dispêndios onerosos com ele.

3. Uma nova feição do problema vocacional

É evidente que Deus não suscita vocações para aquilo que ele não quer, para um sistema enrijecido por arte humana. Com certeza, para o clericalismo, as vocações não podem vir de Deus; serão vocações do sistema e dos interessados no sistema e a recusa pode significar recusa do sistema montado e seus interesses. Julgo que a chamada crise numérica de vocações para “padre” provém da montagem com rigidez do sistema eclesial e clerical e não do fato de faltarem de fato vocações e carismas ministeriais por dom de Deus. Então, o grito de que faltam vocações (lugar-comum inócuo de sermões e propagandas vocacionais) é um grito “clericalizado”, porque se suga do povo de Deus a possibilidade de encontrar e exercer o seu carisma e ministério.

Conexa com isso, está também a chamada crise da identidade do “padre”: com certeza, com tudo o que ele surripia da comunidade do Povo de Deus só pode dar-se uma cara falsa ou uma máscara. Essas chamadas crises podem muito bem ser sinal dos tempos e indicar que a vontade do Senhor da Igreja está (e já há muito tempo esteve) pedindo criatividade na direção de novos rumos. O que importa não seria desmontar as falsas identidades do “padre”, fazendo-o não monopolizar responsabilidades que pertencem aos cristãos em geral e pelo fato de se ser cristão? Não seria desmontar sua apropriação indébita, diversificando os ministérios e redistribuindo-os por mais membros da comunidade? Vale a pena sonhar com uma Igreja não clerical e, com isso mesmo, mais fiel ao Senhor e mais rica dos seus dons, dos dons do serviço do “Servo de Iahweh” para a Igreja e o mundo!

Ademais, a crise vocacional e da identidade do padre nasceria também do fato de se privilegiarem e supervalorizarem os “ministérios ordenados” (e, em maior estreiteza ainda, o “sacerdócio ministerial” em seu velho feitio), descuidando-se da vitalidade básica da Igreja, que constitui propriamente o canteiro de onde brotam todos os ministérios. É preciso trabalhar mais para formar os batizados em vez de se limitar a cultivar os padres. Imaginem se cuidássemos, com o mesmo empenho e dispêndio econômico, com que nos dedicamos às chamadas “vocações sacerdotais”, de todas as “vocações ministeriais”, ou que fosse apenas das “vocações matrimoniais”!

A importância que se atribui aos ministérios determinam as energias que se dispendem na formação para eles. E ninguém ignora quão cara é a montagem para a atual formação de seminaristas para serem “padres” e com resultados pífios para a comunidade mesma, que em nada participa na responsabilidade da formação, a não ser contribuindo economicamente, muitas vezes sem nem saber disso, e ouvindo convites patéticos para se “rezar” para as vocações, porque (eis o lugar-comum!) há tão poucos padres no Brasil; e nunca se acorda para a responsabilidade de assumir-se a si própria, sempre a esperar e a pedir às cúpulas clericalizadas que lhes deem “padres”, quando esses faltam para a realização de seus ritos.

E o problema vocacional não se põe de fato nessas dimensões diminutas. Ele consiste em que cada membro e todos os membros dos grupos cristãos encontrem o seu serviço ou ministério especial, na medida de suas diferenças de estado, talentos e habilitações, para a vida e missão do grupo. Refere-se, pois, a todos os ministérios, inclusive o “ministério do matrimônio”, tão desvalorizado por uma direção clericalizada celibatária e pela ideologia dos “estados de perfeição” (explico-me: todas as diferenças se situam do lado da “instituição” ou do instrumental — também o voto de castidade — que por isso devem servir à essência do ser-Igreja; a graça ou a koinonia; se a tanto não servir, de nada servem; “estado de perfeição” é expressão inadequada para dizer a “vida religiosa”, pois é um dos termos que surripiam o que é e deve ser comum a todos os cristãos, despossuindo-os em favor de um só grupo; cf. o meu artigo, citado acima).

De mais a mais, cada comunidade há de fazer com que emerjam do seu próprio seio as vocações para os serviços e ministérios de que necessita. Os ministros não devem provir de agências encarregadas de arrancar do seio do povo os candidatos, formá-los longe das comunidades e depois de certa sorte “emprestá-los”, por intermédio da agência central, a comunidades fracas de vitalidade, incapazes de prover-se a si mesmas. Confesso que isso não seria bela expressão e bom serviço à catolicidade e universalidade da Igreja, uma vez que leva as comunidades ao esvaziamento do seu ser-Igreja. Os grupos cristãos são induzidos a acomodar-se na inconsciência e na irresponsabilidade até por si próprios, uma vez que há funcionários, e agências encarregados para tanto e sempre recebem de fora os seus ministros, como ocorre hoje em dia.

No Brasil, esse tipo de busca de ministros de fora dos grupos cristãos levou a uma espécie de “colonização missionária” da Igreja e de tal natureza que há muito tempo, segundo a reta missiologia, já não se aplica sequer a lugares de primeira implantação do cristianismo na Ásia e África. Significa na realidade (sem deixar de reconhecer o heroísmo pessoal dos “missionários”) a exacerbação desse modelo de Igreja com grupos reduzidos à imaturidade e não participação eclesial. Chegamos — pasme-se perante a exacerbação! — a ter mais bispos estrangeiros no Brasil do que a maioria dos países da Europa têm bispos em números globais. Acredito que o fator básico desse encaminhamento esdrúxulo e anômalo têm sido a rigidez da institucionalização do “sacerdócio ministerial” e do consequente sistema atual de formação “para ser padre”.

Se rodar nos trâmites atuais por mais tempo, com o sistema enrijecido, complicado, exigente e demorado de produzir e “emprestar” padres às comunidades, perpetuar-se-á sem fim a rede das comunidades passivas e inconscientes de suas próprias energias, dons e responsabilidades.

4. Vantagens dessa proposta

A primeira é sem dúvida o fato da distribuição da responsabilidade pela Igreja e sua missão por todo o corpo dos fiéis e não somente reservada a determinado grupo, que passa a ser considerado pelos outros quase que como funcionários especializados em Igreja. E, com isso, a desclericalização caminhará a passos largos. Nenhum grupo mais de Igreja haverá de assambarcar o que quer que seja que foi entregue por Jesus a todos os cristãos e pelo fato de ser cristão.

Abre espaços imensos à participação ativa e eficaz de sempre maior número de cristãos. Imagine o “padre” de hoje numa paróquia onde ele tenha a colaboração de algumas dezenas de ministros ordenados da celebração eucarística, outras dezenas de pregadores qualificados da Palavra etc. Seitas caminham à nossa frente na maleabilidade das estruturas comunitárias e consequente facilitação do preparo e acesso aos ministérios. Toda capacidade de liderança é logo assumida e se passa a exercer. E nós, com imensas comunidades (ou rebanhos disperses, é mais exato), com tanta gente preparada em todos os campos da competência humana, agimos de tal sorte que os cristãos de nossas paróquias se habituaram a achar normal não exercerem ministérios em sua Igreja, tudo deixando aos funcionários especializados.

Há vinte anos encontrei-me em uma cidade do interior com um senhor, homem de fé e de bom senso, exercendo liderança admirável no seu meio, querido e ouvido, que me falou, com uma ponta de orgulho e satisfação, que ele era “puxador de terço” na Igreja. Foi a primeira vez que o clericalismo me fez doer o coração! Só restou ao bom do homem esse papel em sua Igreja!

Descongestiona a agenda do “padre” atual, liberando para novas formas de ministérios, de que o novo modelo mais vai necessitar (cf. At 6,1-6; 1Cor 1,7). Dedicar-se-ia mais ao serviço pastoral de orientação e formação dos novos ministros, multiplicando, através deles, a eficácia da sua ação.

A unidade básica de organização comunitária poderia ser de menores proporções, encarnando-se a Igreja em pequenos grupos ministerialmente autossuficientes na medida do possível, de estruturas mais simples e consequente facilitação de acesso e exercício dos ministérios. Envolveria o aproveitamento de todos os seminaristas, de celibatários e não celibatários, como também mulheres para os ministérios, com a introdução do novo tipo de seminário. O culto poderia realizar-se em comunidades menores (missa, batismo, matrimônio).

Os ministros ordenados seriam induzidos a inserirem o exercício do seu ministério na organicidade de todos os outros ministros, dos quais também eles necessitam. Fariam a experiência do limite do próprio ministério e carisma, abrindo e criando espaço para os dos outros. Assim expressar-se-ia, no exercício dos ministérios, a koinonia como essência do ser-Igreja, bem como a sinodalidade ou coatuação de todos os ministérios conjuntamente, que faz parte da essência mesma dos ministérios na koinonia eclesial.

Em uma assembleia litúrgica, à guisa de exemplo, podem ser exercidos por pessoas distintas vários dos ministérios que hoje se ligam ao “padre” conjuntamente com ministérios que hoje se exercem por outros: assim se o pároco for um cristão não ordenado, ele poderá estar no meio dos fiéis não ordenados, recebendo o serviço dos outros; pode haver um presidente da liturgia da palavra, distinto do ministro da pregação, e, por sua vez, um outro que espiritualiza ou encaminha a oração comum despertando à prece; haverá os cantores, e, depois, o ministro ordenado da eucaristia confeccionará o sacramento para os outros; virão os ministros da distribuição da comunhão; eventualmente intervirá o ministro encarregado dos irmãos pobres e das oferendas por eles, o ministro dos doentes com suas preocupações etc. Como se pode ver, o ministro ordenado seria apenas um dos membros da assembleia litúrgica, que inseriria o seu serviço entre os outros, recebendo ao mesmo tempo o serviço dos outros.

O novo modelo, com a soma dos esforços de muitos em prol da construção da Igreja e do serviço de sua missão, haveria de posteriormente indicar a conveniência futura de que nenhum ministro mais ganhasse o seu sustento da Igreja, todo o trabalho da Igreja fosse voluntário e não remunerado, o que ajudaria a eliminar o conceito de “funcionários” da Igreja, inserindo todos os ministros também nas estruturas seculares do mundo, superando a diferença, de valor meramente histórico-sociológico, de cristãos que se dedicam à edificação da Igreja mesma (os clérigos) e os que imediatamente estão a serviço no mundo (os leigos). E com a vantagem a mais de que todos os membros da Igreja, ministros ordenados e não ordenados, haveriam de participar da aventura humana comum, que sempre ocorre no tecido das estruturas seculares do mundo, tornando-se mais abertos ainda para o imenso leque dos ministérios que a Igreja deve assumir na vertente de sua diakonia ao mundo no testemunho de Cristo, ministérios de que nem sequer tratamos, no presente e que mal se vislumbram por uma Igreja muito ensimesmada e ruidosa de si.

Link do Segundo Artigo: www.vidapastoral.com.br


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