Por Pe. Hermes A. Fernandes
Não é incomum ouvir alguns pregadores, católicos ou não, insistindo em condenar as Religiões de Matriz Africana. Tudo o que se refere à africanidade, sendo religião ou costumes culturais não religiosos, são vistos como algo nocivo aos que professam a fé cristã. Seria isso uma forma de se identificar com as raízes genuinamente cristãs, ou trata-se de preconceito margeando ao racismo? Para corroborar nossa ideia de que o segundo postulado corresponde mais com a verdade, vale lembrar que certo clérigo, no interior de São Paulo, afirmou que pessoas que frequentam Religiões de Matriz Africana, tais como o Candomblé e a Umbanda, estão mais suscetíveis à ação de demônios. Ora, os demônios fazem parte da referencialidade religiosa judaico-cristãs. Não da religiosidade manifesta entre os Yorubás e Bantu, raízes étnicas dos africanos escravizados no Brasil colônia, e hoje, ancestrais que formam nosso povo na Terra Brasilis. Se os povos Yorubás e Bantu não conheciam os demônios, como poderiam cultuá-los e, assim, deixar que estes se manifestem em suas vidas? Não parece absurdo defender esta tese? É o mesmo que plantar em nosso pomar um pé de manga e depois colher dele jabuticabas. Demônios são personagens da cultura e religiosidade judaico-cristã. Não dos povos africanos originários. Neste sentido, não podemos satanizar seus objetos de culto. Esta atitude, além de antropologicamente insólita, trata-se de intolerância religiosa e racismo estrutural.
Se olharmos com espírito dócil e fraterno, perceberemos que grande parte das manifestações culturais e religiosas dos povos africanos originários trazem convergências com o judaísmo antigo. Por isso, vale lembrar que a religiosidade africana preservou características das religiões primitivas. De uma forma de ver o homem e o mundo semelhante às demais religiões nascidas neste mesmo tempo. O culto Lesse Orixá (Lesy Òrisá), ou o culto Ifá – correntes mais comuns das Religiões de Matriz Africana – trazem os mesmos princípios que as religiões de seu tempo, isto é, o judaísmo nascente, o culto às divindades egípcias, às divindades caldeias, cananéias etc. Para se compreender a possibilidade de uma leitura sincrônica destas religiões e suas convergências, basta nos localizar no ano 1500 a.E.C. O Gênesis era o mito judaico sobre a origem do mundo e da humanidade. Entretanto, este mito da criação, convergia com grande parte de outros mitos, sobretudo, das manifestações religiosas da mesopotâmia e região Cananéia. Assim sendo, há que se reconhecer que os mitos das religiões antigas se construíam a partir da maneira de ser e viver de um povo. Na mesma proporção que as culturas acima citadas, também os povos africanos tinham seus mitos das origens. Os Itãns africanos relatam como o mundo e a humanidade vieram do nada à existência. De uma forma bela, quase emocionante, faz-nos perceber que a criação é expressão do amor do Criador. Não seria esta a ideia que as Escrituras Sagradas (Judaicas e Cristãs) nos levam a perceber? Os Orixás, Inkises ou Voduns são manifestações de um Deus supremo e maravilhoso, que a tudo criou e a tudo mantém em pretensa harmonia. Por isso, aos Yorubás e aos Bantu, toda forma de agressão à natureza se faz grave contrariedade ao Sagrado. Para estes povos, o culto se dá com os olhos fixos na vida. Toda vida importa e nada pode ser morto a não ser para se gerar ou proteger outra vida. E cada colheita, cada morte de um animal que é convertido em alimento, torna-se motivo de festa e oração. Ao se alimentar ritualmente – estes povos que deram origem à realidade histórica brasileira – rezam, cantam, dançam. Uma festa diante de Olorun, nome do Deus-Amor Yorubá, que vem festejar com seus filhos personificado nos Orixás.
Vale ainda lembrar que nossos ancestrais Yorubás e Bantu traziam uma consciência ética muito superior a do pensamento e religiosidade ocidentais. Mesmo sem ter conhecido Jesus de Nazaré, o Cristo de nossa fé, ousamos dizer que eles viviam na África e aqui mesmo em nossa terra, uma ética mais próxima do Evangelho do que muitos de nós que nos dizemos estar anunciando a mensagem de Jesus. O respeito à Criação, aos ancestrais, às crianças, à solidariedade entre os humanos; valores a ser cultivados nas comunidades cristãs, mas há muito, já faziam parte do cotidiano dos povos originários africanos. Até mesmo o conceito de Justiça para os Yotubás e Bantu é muito superior ao nosso. Mesmo se compreendermos que, conforme nos ensina a teologia mateana, o Reino de Deus é Justiça. O orixá Xangô ou o inkise Zazi, são personificações da justiça, vontade suprema de Olorum ou Zambi. A Justiça de Deus se faz Pessoa e habita entre nós. Em verdade, ao contrário do que fazem muitos cristãos, deveríamos aprender com as Religiões de Matriz Africana e não satanizá-las, ridicularizá-las, reprimi-las.
Por fim, entre tantos outros postulados em defesa de nossos irmãos e irmãs que vivem a religiosidade de Matriz africana, vale ainda acrescentar ao que já foi dito acima, algo sobre a comunicação entre o Sagrado e o Humano. O jogo de búzios, a consulta a Ifá, não difere muito do Urin e Tumim do Primeiro Testamento, ou mesmo dos oráculos dos profetas. Neste sentido, o cristão e a cristã que ataca as Religiões de Matriz Africana, sequer conhece suas próprias origens. Se olharmos bem, há muito de africano em nosso ser e viver cristão. Basta ter olhar dócil e humilde para perceber que o Espírito vai onde quer (cf. Jo 3,8).
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