“O Céu é fazer os outros Felizes!” | Reflexão de Padre Saverio Paolillo (PE. Xavier)

Não sei quais foram os motivos que levaram uma criança de 10 anos, de São Caetano do Sul, a atirar na professora e depois atentar contra a própria vida. Nem tampouco quero fazer avaliações específicas porque não tenho acesso a informações mais concretas sobre a dinâmica dos fatos e o contexto, mas é claro que este triste acontecimento deve provocar uma reflexão mais profunda que nos leve à conversão se quisermos, pelo menos, sobreviver.

Vivemos num mundo onde a violência não é mais um acidente de percurso, um surto, uma onda passageira, mas é um paradigma, um jeito de ser e de viver, algo metódico que está impregnado em todas as dimensões da vida. Infelizmente, a nossa civilização é intrínseca e estruturalmente violenta.

É violenta a economia que prioriza o lucro a qualquer custa. É violento o mundo do trabalho quando incentiva a exploração e a competitividade exacerbada.  São violentas as relações sociais quando são dominadas pela lei do mais forte, a negação do direito, o preconceito, a discriminação e a concorrência que elimina o pequeno, o frágil e o pobre. É violenta a política que prioriza o interesse pessoal ou de grupos de poder que usam a máquina pública para impor e realizar seus interesses em detrimento do bem comum. São violentas as expressões culturais que promovem um processo contínuo de devastação, imposição, padronização e homogeneização cultural que não garante direito de cidadania às diferenças. São violentas as religiões quando afundam na lama do fanatismo e, no lugar de “ligar” as pessoas entre elas com vínculos de amorosidade, semeiam divisões e rivalidades. Enfim são violentos os meios de comunicação social quando banalizam a violência e a transformam num espetáculo de mau gosto.

Urge uma verdadeira revolução estrutural que, como vem insistindo o teólogo Leonardo Boff, deponha do trono a sede de poder que se traduz por vontade de dominação da natureza, do outro, dos povos e dos mercados e a substitua com a ética do cuidado.

O ser humano não pode viver se não for cuidado e se não cuidar. É o cuidado a  oportunidade de seu existir e a razão de seu viver. É isso que, com outras palavras, afirmava o saudoso Papa João Paulo II na Énciclica “Jesus Redentor do Homem”: “O ser humano permanece para si próprio um ser incompreensível e a sua vida é destituída de sentido, se não lhe for revelado o amor, se ele não se encontra com o amor, se não o experimenta e se não o torna algo próprio, se nele não participa vivamente” (RH). É o amor de Deus que nós precisamos redescobrir e vivenciar para conseguir implantar a cultura do cuidado com a vida. Não se trata de um amor platônico, mas de amor concreto, feito de proximidade, disposição a escutar, cuidado com a vida do outro e senso de responsabilidade por ele, capacidade de perceber as angústias do outro e assumi-las para aliviá-las. É o amor desinteressado, que sabe “perder tempo” pelo outro e que até sacrifica a si mesmo pela felicidade do outro.

É o amor que, como dizia Dom Luciano Mendes, fundador da Pastoral do Menor, faz descobrir que “o Céu é ver os outros felizes”.

Padre Saverio Paolillo (PE. Xavier)
Pastoral do Menor e Pastoral Carcerária da Arquidiocese de Vitória do Espírito Santo

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