Mulheres, Evangelho e a crise do cristianismo | Limites e perspectivas com Anne-Marie Pelletier

Em artigo publicado em L’Osservatore Romano, 01-10-2018, Anne-Marie Pelletier comenta que “em geral, as mulheres estão mais interessadas nas surpresas da vida, nos seus apelos e nos seus imprevistos do que nos projetos de carreira. E, sem se colocarem à mostra, desde o início do Evangelho, seguem a Cristo gratuitamente, com afeto incondicional. Tudo isso lhes confere um papel insubstituível na conjuntura atual, em que, para a Igreja, trata-se de reencontrar uma inteligência realmente evangélica do poder como serviço”.

Ao falar da crise enfrentada pelo cristianismo nas primeiras décadas do século XXI, Anne-Marie aponta que “a credibilidade da Igreja corre o risco de entrar em colapso, tornando invisível, ao mesmo tempo, o sinal do Evangelho portado por inúmeros cristãos comprometidos em todo o mundo em obras fundamentais de compaixão, de mediação, de humanização. Mas o que está sendo posto em discussão aqui não é apenas uma questão de sexualidade desviada no clero católico. É a própria instituição que se revela nas suas falhas e nos seus desvios”.

Para Anne-Marie, “esse diagnóstico, que aponta para a fonte dos dramas atuais, para a responsabilidade de uma autoridade desviada em uma instituição eclesiástica prioritariamente masculina, leva a ver nas mulheres, no seio do ‘povo de Deus’, as primeiras interessadas no apelo do papa a reagir. São elas, de fato, as primeiras a saber o que são os abusos de poder eclesial. Religiosas ou não, elas conhecem muito bem o olhar arrogante, condescendente, depreciativo dirigido a elas, a obediência imposta por homens que reservam ciosamente para si o prestígio do saber e a autoridade da decisão”.

“Na maioria dos casos, as mulheres têm uma relação diferente com o poder. Um certo senso feminino da liberdade as livra daquela obsessão pelo poder que atormenta tantos homens. Elas têm uma boa capacidade de considerar com divertido distanciamento o jogo masculino dos títulos, das honras, das cores dos chapéus na instituição eclesial”, reflete.



Colaborou: IHU-Online


Deixe um comentário

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑