“De fato, eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores.”
(Mt. 9,13)
Encerrados os ritos pascais, retomamos nossa caminhada guiados pela espiritualidade do evangelho segundo são Mateus e do tempo comum. Tempo este que é propício para aprofundar a intimidade com Jesus Cristo enquanto conhecemos a essência de sua vida e missão. É tempo de responder o chamado que Ele nos faz; tempo de constituir-se parte dos seus discípulos. Depois seremos nós que – de modo semelhante a Filipe (Jo. 1,45) – iremos convidar outros discípulos para ter a mesma experiência acolhedora e misericordiosa que Mateus e nós também tivemos com Jesus. As palavras “misericórdia e sacrifício” centrais para se entender o tema desta semana, são dois lados de uma mesma ponte que liga o Antigo Testamento ao Novo Testamento. Elas nos ajudam a compreender que para Deus de nada vale ações externas se elas não forem acompanhadas de uma adesão coerente, livre e verdadeira ao chamado que Ele faz no seu plano de salvação.
Na primeira leitura (Os. 6,3-6), nos apresenta alguns dos questionamentos do profeta Oseias ao povo de Israel. Oseias exerceu sua missão em uma época de insegurança e desordem. O povo, sob influência política, religiosa e cultural das nações vizinhas, acabou por incluir seus deuses nos ritos e levantou altares a eles. As alianças políticas realizadas colocaram Israel em dependência dos pagãos. O sincretismo religioso e a política demonstram igualmente uma situação alarmante: Israel perdeu a confiança em Deus e prefere depositar sua esperança na guerra e nos deuses estrangeiros.
Embora seja testemunha dos ritos religiosos onde o povo engrandece a Deus, o profeta manifesta dúvida em relação a sua fé e conversão. Mesmo esteja tecendo orações e salmos permeados de poesia e emoção, Israel parece estar mais disposto a manipular e controlar Deus, do que se deixar transformar em verdade e vida pela sua graça. O profeta conclui que o povo precisa acordar desta “fé de sonolência” e desligada da vida real. De nada adiantará os ritos magníficos, ornados de ouro e prata e espalhafatosos, se não houver uma coerência e respeito a Aliança que demonstre verdadeiro desejo de conversão e de comunhão com Deus. Este desejo deve ser manifestado através de ações concretas de misericórdia, amor e solidariedades para com os irmãos.
Na segunda leitura (Rm. 4,18-25), o Apóstolo Paulo escreve para a comunidade cristã da cidade de Roma, considerada o centro do mundo na época. O coração pastoral de Paulo percebe algo que rodeia a Igreja. Diante de uma comunidade que cresce ao acolher tantos os judeus quantos pagãos, corre-se o perigo de uma fragmentação eclesial ou cisma já que judeus pagãos possuíam visões diferentes a respeito da salvação. O Apóstolos recorda aos seus leitores que se universal é a situação do pecado, isto é, se o pecado atingiu toda a humanidade, universal também é o remédio para sanar tal desgraça, ou seja, Deus ofereceu a todos, sem exceções, a mesma salvação e isto tornou a todos igualmente seus filhos. Paulo lhes informa que Jesus Cristo é a salvação oferecida de modo gratuito, concreto e palpável. Embora o cumprimento da Lei seja algo relevante, não é ela que salva. Seu cumprimento não é um tipo de pagamento realizado como uma espécie de boleto ou crediário ao longo da vida. Por isto, cita o exemplo arrebatador de Abraão, cuja fé sempre foi creditada antes de suas obras. Abrão acolheu o dom que Deus lhe ofereceu e continuou “esperando contra toda esperança” (Rm 4,18). E esta fé foi sempre manifesta através de uma entrega incondicional com a obediência ilimitada aos planos de Deus mesmo quando não entendia estes mesmos planos.
O Evangelho (Mt. 9,9-13) nos apresenta a vocação do publicano e futuro evangelista Mateus e a controvérsia sobre a pureza que nasce entre Jesus e os fariseus, no jantar promovido por Mateus e que é expressão de sua alegria ao perceber que a salvação havia chegado a sua casa e em sua vida.
O ato de cobrador imposto, trabalho exercido por Mateus, era vista pelos judeus como um pecado público relacionado a impureza, por isto, todos os cobradores eram considerados amaldiçoados por Deus e excluídos da salvação.
Na verdade, a grande maioria dos que foram chamados e acolhidos por Jesus não eram exemplos de perfeitos, puros e santos. Judas, a Samaritana, Zaqueu e o próprio Apóstolo Paulo são exemplos disto. Mateus ao responder de modo decisivo e positivamente ao chamado se apresenta como um desconcertante paradoxo: ele como tantos outros vistos como desgraçados e excluídos da salvação se tornaram exemplo de alegre acolhida da misericórdia. Usando a mesma analogia usados por Jesus, Mateus se manifesta como um obediente e atento paciente que acolhe o que foi indicado pelo médico e se dispõe a seguir tudo que o que foi prescrito para sua cura. Cabe-nos perguntar se em nossa vida estamos tento esta mesma atitude de acolhida e sincera obediência que Mateus demonstrou e que o profeta Oseias exortou a Israel na primeira leitura.
No que diz respeito a polêmica dos fariseus causada pela aproximação com os pecadores… Um ponto logo de início chama a atenção. Os fariseus reclamam da aproximação de Jesus para com os considerados impuros e pecadores, mas eles mesmos não se preocupam com a própria conivência e serventia para com o império romano, um império pagão. Esquecendo-se do seu próprio telhado de vidro, os fariseus enxergam a atitude de Jesus como um atentado aos ritos e normas de pureza. Tal atitude era vista como uma ferida na moral e nos bons costumes. Muito preocupados com a manutenção de uma ilusória pureza externa, os fariseus cegam o próprio coração e não percebem que a atitude de Jesus Cristo, ao sentar-se a mesa e partilhar o alimento com os pecadores publicamente, manifesta um plano de salvação que não é comprado por observação de ritos e portanto, não é privilégio de quem pode pagar seu preço normativo, mas um convite aberto e proposto para todos sem exceção.
O Reino não um lugar. É uma pessoa. É Jesus Cristo. Logo sua missão é o Reino de Deus sendo plantado. É a graça de Deus surgindo e fluindo de modo arrebatador para todos que dela necessitam e que tem consciência desta necessidade. A única condição imposta para dele fazer parte é se deixar transformar por sua graça a medida vamos acolhendo e aceitando o olhar misericordioso deste Deus que vem ao nosso encontro. Por isto, mais a frente Jesus irá apresentar este Reino como uma festa de casamento onde todos são convidados e devem responder ao convite, mas onde a condição para permanecer depois de entrar na festa é estar com a roupa adequada, neste caso, a santidade que é fruto da acolhida graça que produz conversão e redenção (Mt. 22,1-14).
Nós nos sentimos convidados a participar deste banquete festivo aberto a todos os filhos e filhas de Deus? Ou devido ao nosso rigorismo, nos enxergamos mais como porteiros incumbidos de fechar a porta e carimbar a mão daqueles que julgamos ter “pago” o valor necessário para o ingresso?
Pe. Paulo Sérgio Silva.
Paróquia Nossa Senhora da Conceição.
Diocese de Crato, CE
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