Meu local de fala
No dia 10.06.2023, aconteceu o Sarau Vozes Femininas, que em sua última edição participei como co-autora. Combinado que cada autora presente falasse um pouco de si e de suas experiências de vida e como autora.
Ouvi de uma das autoras, trabalhando na área da saúde e relatando ter visto crianças morrendo com desidratação, morrendo de fome e não era força de expressão, viu crianças morrendo por falta do que é básico, inerente, essencial na vida de qualquer ser vivo: alimentação.
Doeu em mim. Nunca vi pessoas morrendo de fome, mas presencio diariamente a luta de tantas mães, mulheres sem vozes, que batem em minha porta em busca de algo para comer, uma indicação de trabalho, uma palavra de conforto, uma luz no final do túnel. Isso é normal e corriqueiro onde cresci e moro.
Você que me lê agora, sabe o que é receber uma mensagem de áudio de uma mãe desesperada, pedindo ajuda porque vê aproximar-se a hora do almoço e seus filhos, sequer tinham comido algo no café-da-manhã? E choravam com fome!!!
Falar de insegurança alimentar é falar de algo muito próximo, que mexe, maltrata e machuca. Estar na linha de frente, cara a cara com pobreza, a fome, a exclusão e o racismo ambiental. Ouvir diariamente na fila da merenda da escola em que trabalho: — Tia, minha mãe falou pra eu comer muito, porque não tem comida em casa. OU — Tia, posso repetir? Não tem comida em casa. É partindo deste contexto social que escrevo.
Definições e dados
O tema segurança alimentar é bem complexo e envolve questões sociais, políticas, econômicas, culturais e ecológicas.
O combate à fome é um dos objetivos determinados pela Organização das Nações Unidas (ONU), que em seu ODS 2 defende o fim de todas as formas de fome e desnutrição até 2030. Surge como alerta da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), destacando a importância de uma agricultura sustentável.
Na Conferência Mundial da Alimentação (CMA) de 1996 em Roma, ficou definido que a Segurança Alimentar ocorre quando todas as pessoas têm acesso físico, social e econômico permanente a alimentos seguros, nutritivos e em quantidades suficientes para satisfazer suas necessidades nutricionais e preferências alimentares, podendo assim ter uma vida ativa e saudável. Assim, sendo não é qualquer alimento que serve, ele precisa ser nutritivo e seguro (livre de agrotóxicos, transgênicos), atender as preferências alimentares (respeitando suas particularidades, localidades e cultura).
Segurança e insegurança alimentar podem ser definidos como:

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mede, por meio da Escala Brasileira de Insegurança Alimentar, três níveis de insegurança alimentar. Imagem: Reprodução/Grupo de Pesquisa Alimento para Justiça
Segundo a ONU, uma em cada 9 pessoas no mundo está subalimentada, em um total de 815 milhões de pessoas. Medidas são necessárias, porque se nada for realizado as previsões apontam que este número poderá chegar a dois bilhões de pessoas em 2050. Alguns fatores nos levaram à situação que estamos vivendo, dentre elas:
* As mudanças climáticas,
* Escassez dos recursos hídricos;
* Empobrecimento dos solos;
* Poluição atmosférica;
* Explosão demográfica;
* Desperdício de alimentos,
* Crises econômicas e problemas de governança.
Como vimos acima, a questão da insegurança alimentar da população, é gerada por vários fatores, que se entrelaçam e interferem diretamente um no outro.
Haverá soluções para tão grave, urgente e complexo problema? Podemos lançar pistas, luzes sobre o problema.
Uma melhor distribuição de renda para a população, assim a questão de emprego e renda é central neste quesito, polícias públicas de promoção da equidade social garantindo direitos já existentes, de modo que todos tenham acesso a esse bem comum imprescindível à vida. Uma mudança nos modos de produção agrícolas, o planeta ainda possui condições de produzir alimentos para toda a população, mas os modos de produção visando somente o lucro do agronegócio com sua produção em monocultura que empobrece o solo, afeta florestas e contribui para mudanças climáticas, causando secas em alguns locais, desertificação, cheias e alagamentos, alterando o ciclo formador de chuvas e tratando alimentos como commodities.
Precisamos tocar em um ponto importante, quem está vivendo a fome, tem pressa, como já nos dizia Herbert Vianna ( O Betinho). São necessárias ações pontuais para sanar a fome imediata. Lutar para a solução de suas consequências com acesso à alimentação adequada, saúde pública de qualidade, bem como um programa que garanta a superação de tal situação.
Como instrumentos de superação da insegurança alimentar, podemos citar a criação de hortas comunitárias, banco de alimentos, criação de mecanismos que evitem o desperdício de alimentos, embora muitos passem fome, há enorme desperdício de alimentos, em todos os níveis do processo de produção alimentar, desde a colheita até o consumo.
Dicotomia entre o Social e o Espiritual
A Doutrina Social da Igreja (DSI) é um conjunto de princípios e ensinamentos da Igreja Católica que aborda questões sociais, econômicas e políticas com base na justiça e solidariedade. Ela enfatiza a importância do cuidado com os pobres e o compromisso com o bem comum. A DSI é a preocupação da Igreja sobre as questões sociais de seu tempo sem, contudo, perder atenção da sua ação evangelizadora. Somos convocados à ação sócio transformadora da fé.
A fé nasce do encontro pessoal com Cristo é um dom e uma vez assumido tem consequências em nossa vida pessoal e em todas as nossas relações humanas. Somos seres criados para nos relacionar em sociedade, assim a fé e sua dimensão social, afeta e interfere na sociedade e não está dissociada dela, mas é sim, parte integrante sem a qual a missão evangelizadora e pastoral da igreja não existe.
A DSI não é um desvio da missão da Igreja, como querem dizer alguns, mas é a concretização social da sua ação evangelizadora em seu tempo e espaço.
Nenhuma encíclica pode ser compreendida fora do contexto social e eclesial em que foi gerada, nem ignorando seu autor. Cada encíclica é filha de seu tempo e de seu autor e dentro dele que deve ser compreendida.
O Papa Bento XVI em seu discurso inaugural na V Conferência Geral do Episcopado Latino Americano nos recorda que “a evangelização vai unida sempre à promoção humana e à autêntica libertação cristã.”
Medellín e Puebla são duas conferências episcopais realizadas em 1968 e 1979, respectivamente, que trataram de questões sociais e teológicas dentro da Igreja Católica na América Latina. Quanto à questão da fome, a Doutrina Social da Igreja considera a erradicação da fome como um imperativo moral. Ela defende a distribuição justa dos recursos e a promoção de políticas que visem a segurança alimentar e o desenvolvimento sustentável, buscando garantir que todas as pessoas tenham acesso a alimentos adequados para uma vida digna. As conferências de Medellín e Puebla trouxeram à tona as preocupações sociais da Igreja na América Latina, enfatizando a importância de combater a fome e a pobreza, além de buscar soluções para as desigualdades presentes na região. Essas discussões contribuíram para a definição de ações pastorais e sociais da Igreja em relação a essas questões cruciais.
A “opção preferencial pelos pobres” é um princípio central da Doutrina Social da Igreja Católica. Enfatiza o compromisso cristãos em dedicar especial atenção e cuidado aos mais necessitados e marginalizados na sociedade, colocando-os no centro das preocupações e ações da Igreja.
Essa opção implica reconhecer a dignidade intrínseca de todas as pessoas e buscar promover a justiça social e a solidariedade, especialmente em relação aos pobres e oprimidos. Isso significa trabalhar para eliminar as causas estruturais da pobreza e das desigualdades, buscando criar condições mais justas e igualitárias para todos.
A opção preferencial pelos pobres é uma orientação ética que encoraja os cristãos a agirem em prol da promoção do bem-estar dos mais vulneráveis, levando em conta suas necessidades materiais, espirituais e sociais. Essa perspectiva tem sido um pilar importante nas ações da Igreja Católica em relação à justiça social e ao serviço aos menos favorecidos ao longo dos anos.
Campanha da Fraternidade 2023
A Campanha da Fraternidade é uma iniciativa realizada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) que inicia-se anualmente durante o período da Quaresma.
Segundo a Rede Brasileira de Pesquisa de Soberania Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN) mais de 33 milhões de pessoas estão em situação de fome no país, sensibilizados com a questão, este ano de 2023 a CNBB propôs o tema: Fraternidade e Fome com o lema “Dai-lhe vós mesmos de comer.” (MT 14,16). É a terceira vez que o tema da fome é apresentado à comunidade católica como tema de reflexão em Campanhas da Fraternidade.

É importante lembrar que a Campanha da Fraternidade tem seu início durante o período da Quaresma, mas seus ensinamentos e objetivos deveriam ser disseminados ao longo do ano nas diversas atividades pastorais e ações sociais desenvolvidas em nossas comunidades, porém costumam ser esquecidas logo após a quaresma ou completamente ignorado em determinadas paróquias.
Termino deixando para nossa reflexão e ação, as palavras de orientação nosso querido Papa Francisco:
“É meu grande desejo que a reflexão sobre o tema da fome, proposta aos católicos brasileiros durante o tempo quaresmal que se aproxima, leve não somente a ações concretas – sem dúvida, necessárias – que venham de modo emergencial em auxílio dos irmãos mais necessitados, mas também gere em todos a consciência de que a partilha dos dons que o Senhor nos concede em sua bondade não pode restringir-se a um momento, a uma campanha, a algumas ações pontuais, mas deve ser uma atitude constante de todos nós, que nos compromete com Cristo presente em todo aquele que passa fome”, disse Francisco.
Para saber mais sobre o assunto e referências:
Compêndio da Doutrina Social da Igreja (vatican.va)
Sobre a Autora
Seny Felix: licenciada em sociologia, pós-graduando em Dimensão Social da Fé, membro da articulação das Pastorais da Ecologia Integral do Brasil, atuando na Pastoral da Criança e Pastoral da Ecologia Integral no Vicariato Jacarepaguá/RJ
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