Por Pe. Hermes A. Fernandes
Ao longo dos meus 48 anos de vida, não foram raras as situações em que vi pessoas na berlinda. Eu mesmo já estive nesse lugar. Onde minhas palavras e ações estiveram sob o crivo do julgamento do outro. Pessoas propensas a condenar. Baseando seu critério e juízo a partir do que ouviu dizer ou do “eu acho”.
A situação de berlinda é cruel. Acontece quando pessoas escolhem um indivíduo e desferem nele toda crueldade possível no íntimo de um humano. O outro, aquele que está sob o olhar inquisidor, sequer tem direito à justa defesa. Sem contar que muitos julgamentos são fundamentados por verdades construídas. Sendo construídas, seriam – de fato – verdades? E os personagens da inquisição comunitária e social não titubeiam em dizer: “culpado”!
A alcunha de culpado, por vezes, se constrói pelo falo de uma pessoa, ou outra, não se inserir em um grupo. Não se encontrar nele. Não raramente, a ausência de um lugar no grupo se dá porque este é fechado. Alicerçado em afinidades e empatias, restringindo a quem deseja se aproximar. Acontece nas comunidades paroquiais, nos seminários, na sociedade toda. E, não vítima somente de solidão, ainda é culpado e expurgado por não se sentir bem-vindo. Acolhido. Aí me pergunto: não é o grupo o agente da ação de acolher? Se alguém não se insere, não seria fracasso coletivo?
Acontece que em meio à grandiosidade dos ideais cristãos, nos perdemos no belo deste chamado. Ficamos aprisionados nas legendas da vida cristã. Como se vivêssemos por imagens, e o prosaico da vida, o qual se constrói pelo discurso encarnado, torna-se opróbrio. Idealizamos nossos grupos eclesiais. Mitificamos à guisa de legenda. Esquecemos que a vida é projeto. Está sempre em construção. E que um tijolo não transmite a complexidade de uma obra. Todavia, é parte essencial dela. Grupos são compostos de pessoas. Com suas particularidades. Não somos plasmados em formas. Não dispomos de uma uniformidade de produção em série. Somos resultado da infinita criatividade de Deus. Por isso, multiformes.
Rejeição. Sentir-se alvo desta má inclinação humana é uma das maiores dores que um ser humano pode experimentar. Há quem se perca no caminho vocacional porque não conseguiu experimentar a graça e a beleza de se viver em comunidade. E, nem sempre, a pessoa é totalmente culpada desta inadequação. Testemunhei grupos eclesiais extremamente cruéis em suas relações fraternas. Em que se conspirava contra desafetos. Se construía narrativas de excomunhão. Cheguei a assistir em uma reunião alguém dizer ao outro: “eu não gosto de você! Não lhe suporto!” Como assim? Gostar não está no bojo do conceito de amor? A vida eclesial não se constrói pelo ideal evangélico? Jesus não amou e ensinou a amar? Onde este discurso de ódio se encaixa?
Neste mês das vocações, pensemos no que antecede aos ministérios. Pensemos que somos chamados, antes de tudo, ao amor. Se não nos dispomos a amar, não há vocação cristã. Tudo que resulta de relações eclesiais sem amor é escândalo para o Evangelho. Quem não se dispõe ao amor, sequer se compreende como filho e filha de Deus.
Esqueçamos nossa inclinação para julgar o outro. Amor não é um privilégio que damos por empatia. É dever de todo e qualquer batizado. Amar é a vocação primeira.
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