“O Perdão sem limites como sinal do Amor Infinito” | Homilia do 24º Domingo do Tempo Comum – Ano A | Por Pe. Paulo Sérgio Silva

“É assim que meu Pai que está nos céus fará convosco,
se cada um não perdoar de coração ao seu irmão.”
(Mt.18,35)

Amados (as) irmãos e irmãs!

No domingo passado acompanhamos o Mestre Jesus falando aos discípulos sobre os passos da correção fraterna que é fruto da caridade. Continuando a sua formação catequética que visa preparar os discípulos para o Reino de Deus, a Liturgia da Palavra, nos indica um tema que está ligado essencialmente a caridade fraterna que é: o Perdão.  Enquanto nos apresenta um Deus que ama sem estipular cálculos ou medidas, a Palavra lembra a todos os cristãos que devemos assumir uma atitude semelhante para com todos caminham ao nosso lado.

No Antigo Testamento já existiam normas e leis que convidavam a viver o perdão para com os irmãos de comunidade. No entanto esta dinâmica de amor e de misericórdia excluía os inimigos e estrangeiros e explicitava que o perdão tem limites e que não se deve perdoar indefinidamente. Pedro, representando a comunidade ainda presa as atitudes legalistas, pergunta qual o número de vezes que se deve perdoar. Respondendo a ele, a parábola utilizada por Jesus, fala-nos de um Deus cheio de bondade e de misericórdia que derrama sobre os seus filhos a superabundância do seu perdão. Por meio desta parábola, somos convidados a descobrir a lógica do Reino de Deus e a deixar que a mesma lógica de perdão e de misericórdia sem limites seja o caminho que conduz nossa vida ao lado dos irmãos com os quais partilhamos a fé.

No primeiro momento da parábola (Mt. 18,21-35), um funcionário real ao prestar contas ao seu rei percebe-se incapaz de pagar a sua dívida gigantesca. O rei ordena então que o funcionário e a sua família sejam vendidos como escravos. O devedor, no entanto, suplica a sua compaixão, e o senhor deixa-se dominar por sentimentos de misericórdia e ao invés de adiar o pagamento, perdoa completamente a dívida. Este mesmo funcionário que experimentou a misericórdia do seu senhor, se recusou, logo em seguida, a perdoar um companheiro que lhe devia uma pequena quantia. A atitude dele, relatada pelos outros funcionários, escandaliza o rei, que decide o castigar severamente.

A atitude incoerente do funcionário é a mesma que é repreendida na primeira leitura (Eclo. 27,33-28,9) quando o autor do Livro do Eclesiástico pergunta ao pecador que alimenta o rancor e a ira: “Não tem compaixão do seu semelhante e pede perdão para os seus próprios pecados?” Esta pergunta praticamente faz eco a atitude indignada do patrão ao constatar a dureza de coração do empregado que instante antes havia sido perdoado de toda sua dívida. Todavia, a indagação não se dirige apenas ao personagem da parábola narrada, mas também a cada um de nós que muitas vezes corremos pressurosos aos pés do sacerdote para suplicar o perdão no sacramento da Penitência ou Reconciliação e no entanto, nos recusamos a perdoar a mínima ofensa que nos foi dirigida. Os ensinamentos contidos na parábola nos exortam a despertar para perceber que todos somos convidados em nossa fé a evitar caminhar pela lei de Talião, isto é, invertermos a lógica do “olho por olho, dente por dente”, fazendo com que as nossas relações com os irmãos sejam marcadas por sentimentos de perdão e de misericórdia. Somente assim o ser humano construirá a sua felicidade nesta terra, pois assumindo a lógica do Reino poderá pedir e esperar de Deus o perdão para as suas falhas. 

Mas como alcançar algo que parece ser humanamente impossível? Como perdoar sem limites? São Paulo, na segunda leitura (Rm. 14,7-9), nos apresenta nosso modelo a ser imitado: Jesus Cristo. O cristão deve moldar sua vida a luz da vida do próprio Mestre. Pois “se vivemos, vivemos para o Senhor, e se morremos, morremos para o Senhor. Portanto, quer vivamos quer morramos, pertencemos ao Senhor”. Cristo na sua atitude de perdão infinito, é o modelo que devemos imitar.

Às vezes, na vivência diária de nossa fé, esquecemos o essencial e perdemos tempo e força em discussões fúteis e desnecessárias. Discutimos se devemos receber a comunhão na mão ou na boca, se determinado cântico é litúrgico ou não, se os padres devem se casar, se a procissão do padroeiro da paróquia deve passar somente por tal rua. E facilmente, esquecemos o amor, o respeito pelo outro, a fraternidade, e que todos vivemos e pertencemos ao mesmo Mestre e Senhor.  A pedagogia da parábola que é o centro do evangelho de hoje sempre me faz lembrar a letra de um cântico que meditamos em nossas celebrações que afirma: “Se eu não perdoar o meu irmão. O Senhor não me dá o seu perdão. Eu não jugo para não ser jugado. Perdoando é que serei perdoado”. (Cântico de Comunhão Quaresmal). Pois o centro de nossa fé é o perdão encarnado. O que é a Cruz senão a manifestação concreta do perdão incondicional, infinito e superabundante deste Deus benevolente?

Na história narrada, Jesus Cristo, nos lembra do essencial da missão do discípulo. A parábola revela que existe uma relação entre o perdão de Deus e o perdão humano. Mas então o perdão de Deus tem condições? Ele não é infinito? O Evangelho não está negando a infinita misericórdia de Deus. Todavia, para que o perdão de Deus alcance o coração humano, este mesmo coração deve permanecer aberto tanto para pedir misericórdia para com também para ser fonte de misericórdia. Se um coração se fecha e endurece-se pela mágoa e rancor, a graça de Deus não encontrará espaço para entrar e fazer nele a sua morada. Afinal, com a mesma medida com que medimos os outros seremos também medidos por Deus (Mc. 4,24 / Mt. 7,2). O Papa Francisco inclusive ressaltou estes dias que a atitude de pedir e oferecer perdão é essencial para todos os relacionamentos, sobretudo para a família é a base de toda sociedade. Nas palavras do Papa Francisco: “Sem perdão a família se torna uma arena de conflitos e um reduto de mágoas.”

Quem fez a experiência suprema do perdão deve ser transformado por este perdão e vivê-lo também. Perdoar o próximo significa atualizar o mesmo perdão que recebi de Deus. Quem se reconhece perdoado, sabe que o perdão é sempre um dom, que recebo de Deus por pura benevolência.

Mas atenção! O perdão não pode ser confundido com a omissão ou silêncio diante do que é errado. O cristão não silencia a injustiça e a maldade; não aceita o pecado e não se cala diante do erro. Todavia, também não alimenta rancores e mágoas através dos erros dos outros e jamais deve permitir que os conflitos o impeçam de ir ao encontro para partilhar o perdão recíproco. Perdoar não significa ficar em silêncio ou fugir do dever da construção de um mundo fraterno. Significa estar sempre disposto a ir ao encontro, a estender a mão para levantar quem caiu, a dar outra oportunidade para recomeço, assim como Deus, em sua infinita misericórdia, faz conosco no dia do nosso Batismo e faz a cada vez que o buscamos no sacramento da Reconciliação.

Em suma, perdoar é experimentar o amor de Deus e deixar-se transformar por Ele. Não poderemos pedir o máximo do perdão para nossos pecados, enquanto não somos capazes de perdoar o mínimo da ofensa que nos fizeram. O próprio Jesus já havia dito que somente quem muito ama será capaz de muito perdoar (Lc. 7,36-50). Ser discípulo de Jesus Cristo significa assumir na vida uma atitude de bondade e compreensão e assim ter a vida marcada pela Misericórdia, pelo Acolhimento e pelo Amor que é a origem de todo perdão. Pois como nos lembra São João da Cruz: “No entardecer da vida, seremos julgados pelo Amor”.

Oremos: Ó Deus da paciência e do perdão, vós que perdoastes a nossa imensa dívida. Nós Te pedimos que o teu Reino se realize em nossos corações e que todas as nossas comunidades sejam sinal deste Reino de Paz e de Perdão.
Amém.

Pe. Paulo Sérgio Silva
Paróquia Nossa Senhora da Conceição – Farias Brito.
Diocese de Crato, CE


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