A Gratuidade de Deus e de seu Reino – 25º Domingo do Tempo Comum

Por Pe. Hermes A. Fernandes

O chamado de seguimento de Jesus nos impele ao cuidado e comprometimento. Não somos seguidores de uma ideia, mas de um Messias que propõe uma nova realidade: o Reino de Deus. Para ilustrar esta proposta, há muitas alegorias, em forma de parábolas. Entre elas, a Vinha do Senhor. O Evangelho deste domingo nos apresenta uma parábola em que Deus se faz representar pela figura do patrão, o senhor da vinha. Na pessoa dos trabalhadores da vinha, ele convida a cada um de nós, seus servidores: “Ide também vós para a minha vinha” (Mt 20,4; 20,7 ). O convite para trabalhar na vinha do Senhor não se trata de um privilégio, e – sim – uma responsabilidade, a qual, nos cabe assumir com humildade e sabedoria. O serviço ao Projeto do Reino não deve ser entendido como posição de privilégio, com afã de vaidade, mas – seguramente – deve nos impelir à responsabilidade. É sobre estas exortações que a Liturgia deste domingo nos propõe a refletir. As perícopes bíblicas de hoje nos impulsionam a um itinerário formativo, no qual, compreendemos – por fim – o convite final de Jesus: amar e servir, na gratuidade do Reino de Deus.

O profeta Isaías, na segunda parte de seu livro, o Dêutero-Isaías, desafia os exilados – estes que em breve retornarão à terrar natal – a permanecerem firmes na fé e na esperança. Com esta luz de consolação, propõe ao povo de Deus, em situação de diáspora, a não fazer mau juízo da ação divina. Javé não permitiu que seu povo sofresse o exílio. Ele é bondoso e compassivo, não um impiedoso castigador. Portanto, a tendência fatalista de se dizer que foi vontade de Javé o sofrimento humano, é uma compreensão equivocada do ser e agir de Deus. É para uma compreensão mais assertiva sobre a Pessoa de Javé que o segundo Isaías admoesta o povo.

Na Carta aos Filipenses, a Segunda Leitura da Liturgia de hoje, Paulo convida a comunidade de Filipos a guardar com fidelidade o Evangelho a eles anunciado. Trata-se da despedida de Paulo à comunidade mais amada pelo apóstolo. A obra lucana, no Livro de Atos dos Apóstolos, nos ajuda a compreender o quanto Filipos teve importância no ministério paulino. Este último testamento espiritual de Paulo, em meio às fadigas da prisão, pode ser localizado cronologicamente no ano 55 d.C. É tempo de sofrimento e de alegria para o servo de Deus. Dele será pedido o mais radical testemunho de amor a Cristo e comprometimento com o Reino de Deus: a própria vida. O testemunho de Paulo ecoa, ainda hoje, em nossas comunidades.

O eixo de toda Liturgia da Palavra é sempre o Evangelho. Neste 25º Domingo do Tempo Comum, temos a perícope de Mt 20,1-16a. A parábola que nos é apresentada, foi contada em Jerusalém (cf. Mt 19,1). O relato em questão começa com uma introdução reveladora: “De fato, o Reino dos Céus é como…”. Trata-se de uma parábola do Reino, que Mateus entende por “Reino dos céus”. Em grego, Βασίλειο των ουρανών. Portanto, uma Parábola do Reino – na perspectiva mateana – é uma alegoria, uma metáfora, contada a partir da lógica de Deus, pois os céus são a morada dele (cf. Is 66,1). A “parábola dos trabalhadores da vinha”, como é conhecida, ou “dos trabalhadores da undécima hora” – como foi intitulada pela Bíblia Sagrada das Edições CNBB –, conta-nos a história do proprietário da vinha que foi, em vários momentos do dia, contratando trabalhadores. Ele combinou com cada um dos trabalhadores um denário, moeda que correspondia ao salário de um dia de serviço. Segundo estudos exegéticos, o cenário descrito aqui se encaixa facilmente na experiência de camponeses mediterrâneos. Estes deviam lutar amargamente para ganhar o salário de um dia, face à necessidade de sobrevivência. Nessa parábola, Jesus compara o Reino dos Céus a um dia de trabalho, no qual, um patrão sai a chamar pessoas bem cedo, à primeira hora, às nove da manhã, ao meio-dia, à tarde e na última hora. Temos um dono de casa como um típico patrono mediterrâneo. Os estudiosos da antropologia bíblica afirmam que se trata de uma espécie de sistema de patronagem na Palestina romana. Informação importante, pois é sempre bom ler a Bíblia a partir do olhar de seu tempo, das pessoas e do lugar.

Vale observar que ninguém está à procura de trabalho, mas é o patrão que sai de madrugada para convocar trabalhadores. Reiteradas vezes, esse patrão volta à sua função de empregar profissionais para a vinha. Essa imagem retrata um Deus ativo, que sai à procura dos seus, levando-os a se ocuparem de sua vinha, ou seja, seu Reino. Como retribuição, ele paga a todos, aos primeiros e aos últimos empregados, o mesmo salário, isto é, um denário. Cumpre o acordo preestabelecido e mostra sua patronagem ao dar ao último o mesmo que ao primeiro contratado (v. 14). Sob essa perspectiva, não há pretexto para reclamar de sua justa medida. Os insatisfeitos lançam um olhar de desgosto ao patrão, fazendo-se queixosos. De sua feita, o patrão diz: “Por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou me olhas mal porque estou sendo bom?” (v. 15). A antítese aqui presente pode nos iluminar a compreensão temática desta parábola de Jesus.

À guisa de conclusão de nossa reflexão sobre a parábola apresentada por Jesus, vemos que a mesma nos ensina que o Reino dos Céus é para todos que – indistintamente – são convidados a participar da vinha, da peleja na lavoura de Deus (1Cor 3,9). Hermeneuticamente, tomar lugar em seu Reinado. Ele mesmo paga a cada um por seu trabalho, não segundo nossas conveniências capitalistas e pessoais, nem segundo nossa forma de quantificar ou retribuir. O Reino é de Deus, a dinâmica salvífica, soteriológica, é também dele, e seu critério é a gratuidade.

Um último olhar, tal qual uma síntese das leituras que nos são apresentadas na Liturgia da Palavra de hoje, pode evidenciar que os três textos estão intrinsecamente articulados. Desde a primeira leitura até o Evangelho, percebe-se o amor de Deus agindo. Sua ação é desmesuradamente diferente da nossa. Seu agir é compassivo, clemente e misericordioso. Deus não age segundo preferências, favoritismos e conveniências humanas, tais como as “panelinhas” e conchavos que cultivamos em nossas relações, as quais, corroboram em fracasso no bem viver em comunidade. A dinâmica da meritocracia não faz parte da pedagogia de Javé. Pelo contrário, ele tem seu modo de pensar e agir e conclama a todos para sua lavoura – nossa missão enquanto cristãos e cristãs, a partir da realidade de seu Reino. Para participar desta dinâmica, basta que estejamos abertos à compreensão da generosidade, e não nos fechemos em olhar o mundo de forma mesquinha, reclamando de tudo. Até do direito divino de salvar aqueles que chegaram na última hora, ou mesmo seu direito de amar a aqueles que pensamos não merecer. Na dinâmica de Javé, a Misericórdia é a Lei. Ele não nos acolhe como um contador, a computar nossos erros e acertos. Ele abraça a todos e todas pelo critério da gratuidade e do amor sem limites.


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