Por Pe. Hermes A. Fernandes
Estamos no 26º Domingo do Tempo Comum. A liturgia de hoje nos convida a olhar para os desígnios de Deus e confiar em sua vontade. No Evangelho (Mt 21,28-32), eixo central da Liturgia da Palavra, somos convidados a olhar para o filho da parábola que, mesmo dizendo “não” ao convite do pai, se arrepende e muda seu pensamento, aderindo de forma efetiva e afetiva ao projeto do Reino de Deus. Mesmo por claudicantes caminhos, sempre podemos rever nossas escolhas e aderir ao Projeto de Jesus e o Reino que ele anuncia.
A perícope do Evangelho de hoje situa-se logo após a narrativa da purificação do templo (Mt 21,12-16), em Jerusalém, e a da maldição da figueira, símbolo da religião estéril de Israel (Mt 21,18-22). Jesus volta ao templo (Mt 21,23) e lá começa a ensinar. É dentro deste contexto sinótico ao qual chamamos didaskalia, que se encontra a parábola-exortação apresentada neste domingo.
Vamos rememorar o texto: Jesus conta a parábola dos dois filhos. Um pai tinha dois filhos e se dirigiu ao primeiro, dizendo-lhe: “Filho, vai trabalhar na minha vinha!” Há, certamente, uma conexão estreita entre a vinha nessa parábola e a de Mt 20,2, dos trabalhadores contratados para o serviço na vinha. O Reino pode ser comparado a uma vinha, como era conhecido o povo de Israel, que deveria formar um reino, uma vinha, para produzir bons e saborosos frutos. A vinha, portanto, é uma clássica alegoria evangélica do sonho de Javé para seus filhos. Em um contexto de Segundo Testamento, a partir da Nova Aliança, esta vinha não mais simboliza o Povo de Israel, mas o Novo Povo de Deus, isto é, a comunidade dos seguidores e seguidoras de Jesus que desejam comprometer-se e trabalhar para a construção do Reino de Deus.
Ao desenrolar da narrativa, vimos que a resposta do primeiro filho foi: “Não quero”. No entanto, ele depois se arrependeu e, compreendendo sua importante participação no cultivo da vinha, atendeu o seu pai. Este continuou e se dirigiu ao segundo filho, dizendo-lhe a mesma coisa (v. 30). Esse filho respondeu: “Sim, senhor, eu vou”; mas não foi. Na parábola, o v. 31 faz então uma interrogação: “Qual dos dois fez a vontade do pai?” Os sumos sacerdotes e os anciãos responderam: “O primeiro”. Então Jesus lhes disse: “Em verdade vos digo que os publicanos e as prostitutas vão entrar antes de vós no Reino de Deus”. Qual o motivo de Jesus concluir seu diálogo com aquelas autoridades do Templo de forma tão invectiva? Com tanta iracúndia? Percebe-se uma clara aridez na forma de Jesus se dirigir a eles.
Ao estudarmos o Evangelho de Mateus, podemos verificar que o contexto de sua redação se localiza por volta da segunda metade do primeiro século. Neste tempo, podemos verificar que, por volta do ano 70 a 77 d.C, temos a guerra de Jerusalém, a destruição do Templo por ação do Império Romano, e a dispersão dos líderes do Judaísmo Formativo para o norte da Galileia e para a região da Síria. Este território geográfico era o mesmo, no qual, se localizava as comunidades mateanas. Os membros do judaísmo formativo, uma vez que também viviam uma espécie de exílio, fugindo do braço forte romano, passaram a perseguir de forma mais pontual as comunidades dos seguidores e seguidoras de Jesus. Tanto assim se fez, que no Sínodo Judaico-rabínico de Jamnia se decretou a excomunhão do judaísmo a todos os seguidores e seguidoras do Nazareno. Tal experiência de rejeição definitiva aos seguidores de Jesus foi eixo de uma descoberta de identidade. Aqueles e aquelas que se identificam com o Projeto do Cristo, passam a entender que este caminho conduz a uma confissão identitária. E aqui nasce o cristianismo. Onde judeus e prosélitos assumem sua fé no Messias, construindo comunidade confessional, e assumindo as consequências desta escolha. O que se pode concluir, ao ler o texto mateano, é que as autoridades judaicas, em embate com Jesus, refletem o contexto da redação do Evangelho. De fato, os Evangelhos dizem muito de Jesus e sua mensagem, mas – sobremaneira – também deixam pistas para se compreender as comunidades que fizeram experiência do Caminho de Jesus e deixaram sua identidade impressa no texto evangélico. Portanto, os fariseus e doutores da Lei significavam aqueles que, mesmo ouvindo o convite para a vinha, ou seja, para o Reino de Deus, recusam a este convite. Com efeito, seus interlocutores, os sumos sacerdotes e anciãos, podem se comparar ao filho que disse “sim” prontamente, mas não o pôs em prática. O dizer sim inicialmente pode ser verificado no fato de que o judaísmo formativo conhecia as profecias sobre o Messias que havia de vir (cf. Mq 5,3; Jr 23,5-6; Zc 11,13; Is 7,14; 8,14; 25,8; 28,16; 22,22; 53,5-6; 53,9; 53,12) e acreditava nelas; mas não reconheceu seu cumprimento em Jesus. Disseram “sim” ao Reino, mas não se comprometeram diante do convite a ele. Nem mesmo João Batista, o último dos profetas, conseguiu incutir no coração do judaísmo formativo a chama do sonho de Javé para um Novo Povo de Deus, uma nova realidade, o Reino Definitivo. João veio como figura digna, austera, sinal de santidade; e – mesmo assim – não acreditaram nele. Veio Jesus e os Mestres da Lei e os Fariseus não o reconheceram como o Messias das Escrituras. Porém, os publicanos e as prostitutas creram – eles que eram considerados os piores na sociedade. Jesus conclui enfática e decididamente: “Vós, no entanto, mesmo vendo isso, não vos arrependestes para crerdes nele” (Mt 21,32).
O que podemos inferir da narrativa evangélica na Liturgia de hoje? O Evangelho nos diz como se concretiza o compromisso do seguidor e da seguidora de Jesus com Deus. O “sim” que ele nos pede não é uma declaração teórica de boas intenções, sem implicações práticas. Ao contrário: é um compromisso firme, coerente, sério e exigente com o Reino, com os seus valores, com um verdadeiro discipulado de Jesus Cristo. O verdadeiro discípulo não é aquele que “passa uma boa imagem”, que se diz “cidadão de bem”, que finge respeitar as regras e que tem um comportamento irrepreensível do ponto de vista das convenções sociais. Em verdade, os verdadeiros seguidores e seguidoras de Jesus são aqueles que se comprometem com as causas do Reino, que se dispõem a construir uma nova realidade. Uma comunidade humana pautada pelos valores do Evangelho. Trabalhar na Vinha do Senhor corrobora uma mudança de caminho, de prioridades e compreensão da realidade. É sair-se de si, pelo outro, sobretudo, os mais vulneráveis. É construir um Novo Mundo, pois em Cristo, somos o Novo Povo de Deus. Mesmo que isso nos custe a própria vida.
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