Por Pe. Hermes A. Fernandes
Durante todo este mês de Outubro, estamos a acompanhar – esperançosos – o Sínodo da Sinodalidade que está acontecendo em Roma. Reúnem-se pessoas de todos os continentes para avaliar, refletir e celebrar o futuro da Igreja. Quatrocentos e sessenta e quatro participantes, 365 membros eleitores, incluindo 54 mulheres com direito ao voto. Esses são os números do presente Sínodo sobre a Sinodalidade, que acontece desde o dia 4 de outubro, no Vaticano, até o dia 29. Quatro semanas, pontuadas por vários compromissos, onde cardeais, bispos, religiosos e leigos de todo o mundo reunidos na Sala Paulo VI, em diálogo, oração e munidos da esperança cristã; respondem ao desafio de se pautar uma Igreja concomitante com os desafios de nosso tempo.
Sobre a identidade do Sínodo é preciso
“entender que o Sínodo é oração, um momento de discernimento comunitário diferente da soma das intervenções individuais” [1].
Ao contrário do que muito se tem apregoado pela mídia irresponsável, youtubers que nenhum compromisso têm com a verdade e com o bem da evangelização; este Sínodo não trata de rever a posição da Igreja em relação às questões morais. Nem mesmo de mudar a posição dela enquanto a estrutura dos sacramentos ou ministérios. Um Sínodo tem como identidade primária o diálogo. Há espaço e momento para se conversar e refletir acerca de todas as questões da Igreja e para a Igreja. Outrossim, não se trata de um evento em que a Doutrina da Igreja possa ser alterada. Esse terror tem sido difundido por muitos dos youtubers – pseudo-católicos – que nada mais querem do que contestar e semear divisão.
Estes agentes do caos, usando das clássicas teorias da conspiração, semeiam medo, terror; em meio aos nossos irmãos e irmãs de boa vontade. Usando de palavras convincentes da retórica hipócrita, textos bíblicos e do magistério de forma descontextualizada, afirmam que o objetivo deste Sínodo é corromper a Doutrina da Igreja. Entre suas teorias da conspiração, afirmam que é interesse do Papa e dos bispos a legalização canônica de uniões homoafetivas, a inclusão de mulheres aos ministérios ordenados, a ordenação a estes ministérios de homens casados. A forma com a qual os referidos agentes do caos se posicionam, deixam entender que decisões sobre esses temas são “favas contadas“. Que após o Sínodo, teremos casamentos homoafetivos, mulheres no ministério ordenado e padres casados. Fácil, não?
O próprio Papa Francisco reconhece que o conceito de matrimônio refere-se a homem e mulher. Para isso, a Doutrina é imutável. Portanto, difundir a ideia de que – como resultado do Sínodo – teríamos a inclusão de uniões homoafetivas no Sacramento do Matrimônio é caluniosa e conspiração contra a Igreja. Estes youtubers, que se definem ultraconservadores, nada mais são do que criaturas diabólicas (dia-bolos = aquele que divide), semeando dúvidas e atentando contra a fé do Povo de Deus. E no que se refere às uniões homoafetivas, devemos reconhecer que nosso agir pastoral deve se preocupar com a questão. Mesmo não sendo possível, em nível de Doutrina, entender que constituem como Matrimônio as relações homoafetivas, há que se pensar que se trata de pessoas. Antes de considerar ser hétero ou homossexual, a Igreja se preocupa com a pessoa humana. Indiferente de sua auto definição no que se refere à sexualidade. Não podemos manter nosso agir pastoral, desconsiderando que temos entre nossos irmãos e irmãs pessoas homossexuais. Esta pode, de fato, ser uma preocupação do Sínodo: qual abordagem pastoral devemos ter em relação às pessoas homossexuais? São pessoas! Merecem afeto e acolhida. Não podemos viver como se não existissem ou ter um discurso supérfluo que afirme o dever de renunciar às inclinações de sua sexualidade – vivendo o celibato. A orientação peremptória ao celibato é ineficaz, quase utópica. Em sua origem conceitual, o celibato é uma escolha de vida. Não pode ser imposto. O resultado é que muitas pessoas homossexuais agem como se não vivessem esta situação e a Igreja age como se tal fato não existisse. Pessoas homossexuais, quando confrontadas com o celibato obrigatório, tendem a se esconder; camuflando suas questões pessoais, suas inseguranças e sofrimentos. Legadas à marginalidade. A Igreja que deveria ser sacramento de amor, marginaliza. Ainda há aqueles ministros ordenados e agentes de pastoral que defendem a absurda ideia da “cura gay”. Ou – em última instância – tendem a condená-las à excomunhão. Estas abordagens, todas elas, são arcaicas e obsoletas. Embasadas em dogmatismo e moralismo. A Igreja deve, sim, sentar sinodalmente, rever, rezar e planejar sua postura em relação às pessoas homossexuais. Não se trata de rever a Doutrina. Trata-se de assumir um desafio. A misericórdia deve ser o solo em que se assenta todo agir pastoral. «A lei nova do amor abrange a humanidade toda e não conhece confins, pois o anúncio da salvação de Cristo se estende até aos confins do mundo» [2] .
Diante deste desafio, o Documento de Trabalho (Instrumentum laboris) [3] trata deste tema, levantando questões e desafios para nossos tempos:
“Como podemos criar espaços em que aqueles que se sentem feridos pela Igreja e não bem-vindos pela comunidade possam sentir-se reconhecidos, acolhidos, não julgados e livres para fazer perguntas? À luz da exortação apostólica pós-sinodal Amoris laetitia, que passos concretos são necessários para chegar às pessoas que se sentem excluídas da Igreja por causa da sua afetividade e sexualidade (por exemplo, divorciados recasados, pessoas em casamentos polígamos, pessoas LGBTQ+ etc.)?” [4]
Não se trata de relativizar a Doutrina, ir contra a Sabedoria Bíblica. Ao contrário. É sustentada na Doutrina e inspirada na Palavra de Deus que a Igreja se permite trazer tais questões para os caminhos que tem diante de si.
Ao que se concerne a conceder o ministério ordenado às mulheres,
“por outro lado, se, em nome de um princípio petrino essencialmente masculino, as mulheres devem ser excluídas do ministério ordenado, não podemos deixar de nos perguntar o que devem fazer os homens numa Igreja regida pelo princípio mariano, que é essencialmente feminino.” [5]
Se, por um lado, pensamos que a mulher se faz excluída por um princípio petrino, por outro, são os homens – igualmente – excluídos, quando vemos nossa eclesiologia intimamente vinculada a um princípio mariano. “Igreja: Mãe e Mestra”, “Igreja: esposa de Cristo” etc. Ora, fica clara a inserção do feminino no que concerne ao pensar eclesiológico. Daí, podemos nos perguntar: qual o lugar da mulher na Igreja? Lugar dela é todo lugar, afinal, é no feminino que sua razão fontal, enquanto ecclesia, existe.
Portanto, enquanto fundamento teológico, os que se posicionam a favor da ordenação de mulheres, têm suas razões. Os que são contra, também.
Com base neste viés de raciocínio, podemos perceber que o debate em torno da ordenação de mulheres tange mais ao nível de direitos do que do Bem da Igreja em si. E se falamos de direitos em suas razões fontais, vemos que nem o princípio petrino, nem o mariano, contemplam uma igualdade. Não se trata de sindicalizar os ministérios, possibilitando a igualdade de direitos. Trata-se de se aprofundar na reflexão e discurso da razão fontal e dos sentidos. Por este viés, vemos que o próprio debate ainda não adquiriu a maturidade necessária. Por que ordenar mulheres? Pelo Bem da Igreja? Ou a partir dos direitos iguais e, assim, pelo prisma do politicamente correto?
Pode-se dizer também que, no que diz respeito à ordenação de mulheres, exigi-la não é a melhor abordagem. Primeiro, porque a Igreja Católica, como um todo, claramente não está pronta para cruzar tal limiar. Mais do que aspirações pessoais ou categóricas, devemos considerar as necessidades do Povo de Deus.
O Papa Francisco nos aponta a grande importância das mulheres no caminhar da Igreja. Do ponto de vista histórico-teológico e do pragmático. Reconhece que “no Vaticano, os lugares onde colocamos as mulheres funcionam melhor”. Ele diz isso em relação a uma terceira categoria, nem ministerial, nem eclesial, mas “administrativa” – que é, no entanto, um pouco ministerial, e que esperamos que seja eclesial, porque a administração do Vaticano é também um serviço da Igreja. O Papa ainda aponta que nas faculdades de teologia, onde as mulheres ensinam no mesmo nível que os homens, sejam eles padres ou leigos: funcionam melhor ainda, embora não façam parte da administração.
Tudo isso sugere que podemos, mesmo a partir dessas categorias, estender a fórmula de Francisco: “Na Igreja (e não só no Vaticano) funcionam melhor os lugares onde as mulheres estão presentes”, correspondem melhor ao que a Igreja deve ser, ao que deve fazer para assumir a sua missão. Se fizermos nosso este princípio, com tempo e sem hesitações desnecessárias, quem sabe até onde poderemos ir – “na Igreja”, assim como “no ministério”, se as necessidades do povo de Deus o exigirem? Vale pensar.
O que o Sínodo pretende, quando aborda o tema? À maneira do Papa Francisco, deve toda a Igreja manter-se aberta ao debate e reflexão. É muito possível que não se tenha uma conclusão concreta neste sínodo no que tange à pauta do ministério ordenado para mulheres. Outrossim, estamos a caminho. E isso importa muito.
Ao que se refere ao Ministério Ordenado aos “viri probati“, homens casados – de indeléveis virtudes – que poderiam assumir o ministério presbiteral; podemos perceber que a ideia ainda está na mesa, mas as coisas devem ser feitas na ordem correta, e outros aspectos mais urgentes devem ser considerados primeiro”. Tal tema já havia sido abordado por ocasião do Sínodo da Amazônia. Faz-se claro que permanece o interesse de toda a Igreja em sua reflexão. Outrossim, faz-se mister constatar que o próprio ministério presbiteral deve ser colocado em debate. Nos últimos anos, uma onda de tradicionalismo atingiu a Igreja tal qual um tsunami. Pe. Agenor Brighenti, em seu livro “O novo rosto do clero: Perfil dos padres novos no Brasil” [6], aponta:
Nas últimas décadas tem irrompido no seio do catolicismo brasileiro e para além dele um novo perfil de presbíteros, denominados “padres novos”, que por suas práticas pastorais e comportamentos pessoais têm promovido na esfera da experiência religiosa o deslocamento do profético para o terapêutico e do ético para o estético. Isso tem provocado tensões e entraves nos processos pastorais em curso, tanto entre os presbíteros nas dioceses como em relação às religiosas e aos leigos e leigas nas paróquias onde atuam. Entretanto, o novo perfil de presbíteros na Igreja Católica não é um fenômeno a ser desqualificado ou desprezado. Ao contrário, ainda que em muito se vincule a posturas pré-conciliares e à denominada “pós-modernidade líquida”, seu modo de ser e de agir questiona práticas eclesiais correntes, põe em xeque comportamentos costumeiros, desafiando um estudo para além de leituras ligeiras ou pragmáticas do fenômeno.
Portanto, antes de se pensar a abertura dos ministérios ordenados para mulheres e/ou para homens casados, devemos aprofundar o conceito do ministério presbiteral em si. Atualmente, temos uma fornada de padres incapazes de conhecer o sentido real de sua vocação. Autoritarismo, carreirismo, clericalismo, dogmatismo, limitação intelectual, desconhecimento do conceito de ministério. Muita rendas, barretes, pompas; e pouco compromisso com o Povo de Deus.
Como vimos em nossa reflexão ao longo deste texto, muitas são as questões abordadas no Sínodo da Sinodalidade. Ao contrário do que afirmam os youtubers terroristas das consciências, o que está acontecendo em Roma é uma reunião que prima pelo bem da Igreja. Como objetivo, tem o desejo de afinar o diálogo com o mundo e suas necessidades. Onde todas as pessoas possam ser contempladas por seu amor e agir pastoral. Não se trata de negação de valores doutrinários. Não se trata de uma orientação unilateral teológica. Trata-se de uma reunião de irmãos e irmãs que se sentam ao redor da mesa e se dispõem a ver, julgar e planejar o agir de uma Igreja que deve ser continuadora do Projeto de Jesus. Projeto este, onde todos e todas têm seu lugar.
Urge pensar em Amor, Misericórdia, Acolhida e Respeito: sinodalidade que deve vir de dentro.
Notas
[1] In://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2023-09/sinodo-sinodalidade-lista-participantes-e-calendario-ruffini.html – acesso em 17/10/2023.
[2] CONSELHO PONTIFÍCIO «JUSTIÇA E PAZ», Compêndio da Doutrina Social da Igreja, Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2004, n. 3.
[3] In: https://www.ihu.unisinos.br/images/ihu/2023/06/01015-187-233_1.pdf
[4] In: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/629827-sinodo-dos-bispos-desafiado-a-prosseguir-com-a-reforma-da-igreja – acesso em 17/10/2023.
[5] CHIRON, Françoi. In: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/624596-argumento-de-francisco-sobre-a-ordenacao-de-mulheres-tem-seu-valor-e-seus-limites – acesso em 17/10/2023.
[6] BRIGHENTI, Agenor. O novo rosto do clero: Perfil dos padres novos no Brasil. Petrópolis: Editora Vozes, 2021.
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