Abraão, o hebreu! Na vocação deste Patriarca da fé se inaugura a opção de Javé pelos marginalizados | Círculo Bíblico 41

Por Pe. Hermes A. Fernandes

No texto bíblico de Gn 12,1-3 encontramos a vocação de Abraão:

“Yaweh disse a Abraão: ‘sai de sua terra, do meio de seus parentes, da casa de seu pai, e vá para a terra que eu lhe mostrarei. Vou fazer de você uma grande nação e abençoá-lo. Engrandecerei seu nome. Seja uma benção! Abençoarei quem abençoar você e amaldiçoarei aqueles que o amaldiçoarem. Em você, todos os clãs deste solo serão abençoados’.”

Mesmo por uma leitura despretensiosa deste texto, é inegável a percepção de que se trata de uma benção e uma promessa. Mas quem foi Abraão? Em que terra ele estava? Por que se justifica sua saída de junto a seus familiares, sua gente?

Em Gn 14,13, Abraão é chamado de “o hebreu”. Quem está acostumado com as imagens que o retratam – iconografia poética, muitas vezes – pode pensar que seu olhar altivo, suas barbas longas presentes na litografia, retratem alguém que gozava do prestígio e valor na sociedade de seu tempo. Ledo engano! Em verdade, o título de “o hebreu”, trazia em si um significado revestido de xenofobia e marginalização.

A raiz desse vocábulo é  (yvrin) que significa “parte/margem”. Hebreu significaria, portanto, alguém que advém de outra parte, da outra margem. Assim, ao chamar alguém de hebreu, no contexto de Abraão, significa deixar claro que aquele não faz parte de sua gente. Ainda mais: tratava-se de alguém que se ocupava de rebanhos. Não na condição de latifundiário, proprietário de terras, mas daquele que migrava de terra em terra, em busca de pastagem para seu rebanho e, consequentemente, lutando pelo sustento de sua família de léu em léu. Neste sentido, podemos identificar a forma com que os povos nômades eram vistos tais quais – ainda hoje – ciganos e trabalhadores sem terra são vistos. Gente sem nome, sem terra, sem raízes, sem eira nem beira.

Quando do chamado de Abraão em Gn 12,1-3, este se encontrava em Ur, terra dos Caldeus, no sul da Mesopotâmia. Aos olhos dos povos mesopotâmicos, onde se encontrava Abraão, denominar alguém como hebreu também era uma forma de dizer que este era indesejado, indigno, marginal. Sendo Abraão o indesejado pelos “bem-nascidos”, os estabelecidos na terra; Javé – por volta de 1800 a.C. – exorta-lhe a deixar aquela terra, com destino à Canaã, a antiga denominação da região correspondente à Israel hoje. E a promessa de Javé é antônima à forma com que este, o marginalizado, era visto. “Vou fazer de você uma grande nação e abençoá-lo” (Gn 12,2). Aquele que era marginalizado, excluído; se tornará grande, pai de um numeroso povo. Excelente em número e dignidade. O Povo de Deus!

A história extra-bíblica também nos informa que no tempo quando Abraão deixa Ur, uma grande calamidade acontecia naquela região. O nascimento do Primeiro Império Babilônico se deu por muito derramamento de sangue. Neste sentido, podemos perceber que a vocação de Abraão também consiste em uma forma de preservá-lo, e à sua gente, de grande sofrimento por guerras e opressões, características da construção de impérios. Na busca de riqueza e poder, sempre caminham juntas a violência e a morte. O apogeu dos Amoritas, constituindo o Primeiro Império Babilônico plasmado desde os anos 1900 a.C., está manchado de sangue e lágrimas. Todavia, Javé escolheu Abraão para edificar seu povo longe dali, em Canaã, preferindo o mais indigno dos homens aos olhos dos gananciosos, como predileto no seu coração.

Abraão vai para Canaã. Seu coração dócil à vontade de Javé se torna testemunho de confiança em Deus e atenção aos seus caminhos. Em consequência da sua fé na Palavra de Javé, de fato, o nome de Abraão jamais será esquecido. Do marginalizado ao patriarca, do excluído ao predileto; Abraão aflora em nós a certeza de que Javé é Deus dos pobres e sofredores. “O Senhor dos que combatem é conosco, está com a gente, ele é nossa fortaleza, é o Deus que nos defende!” (Sl 46). Não obstante nossa pequenez, ele está conosco em nossos sofrimentos. Sendo agente de libertação, consolo na dor, esperança futura. Nosso Abba, Paizinho querido, como nos ensina Jesus.


Deixe um comentário

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑