É preciso respeitar a Liberdade de Deus

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Fico pensando nestes tempos em que a teologia da condenação tem sido difundida herculeamente. Existem entre nós irmãos e irmãs que dedicam-se a apontar erros, condenar, excluir. Pregadores que gritam aos quatro cantos palavras de ordem como “heresia!”, “abominação!”. São pregadores que preteriram o fogo do Espírito Santo, ao preferir o fogo do inferno. Falam mais do segundo, esquecendo-se do primeiro.

Nesta visão de Deus e de religião, podemos identificar alguns equívocos.

Primeiramente, porque confundem a graça, entendendo-a como meritocracia. A salvação da humanidade e a ressignificação da vida se deu pelo sacrifício soteriológico de Jesus. Ele, o Cordeiro Imolado, a Vítima Voluntária, ofereceu-se em sacrifício por todos e todas, homens e mulheres, que nele esperam e confiam. Não se trata de meritocracia. A Vida Eterna não é um diploma, um prêmio, dado aos santos. É, sim, resultado do Amor incondicional de Javé, Paizinho de Jesus, que oferece seu próprio Filho em sacrifício, tornando – a humanidade toda – filhos e filhas dele. Portanto, somos chamados ao “Banquete da Vida” pelo amor de Deus e de seu Filho e não por nossos méritos.

O que nos faz pensar um segundo postulado: se a salvação não é fruto de nosso mérito, a condenação não é resultado de demérito. São muitos os que vivem a dizer que este ou aquele não será salvo. Que este ou aquele pecado não tem perdão. Nós, leitores atentos do Evangelho – por uma leitura sincera – somos obrigados a reconhecer que a criatividade de Deus supera nossa lógica. Os relatos da vida de Jesus nos mostram que o Messias trouxe para junto de si aqueles e aquelas que a sociedade judaica rejeitava. Aqui podemos lembrar Levi (Mateus), Zaqueu, Maria de Magdala, entre tantos que estavam rotulados pelo selo de “impuros”, imposto pelo judaísmo formativo. Isso irritou os Fariseus e demais poderosos do Templo. Ainda hoje, fazendo a atualização do Evangelho para nossos dias, irrita nossos irmãos e irmãs que outorgam a si o título de seguidores fiéis de Jesus e defensores da Sã Doutrina da Igreja. Nunca se viu tanto conteúdo na Internet condenando heresias, modernismos, “traições” ao Magistério da Igreja. A qual Magistério se referem? Ao que lhes dão o direito de condenar? Jesus não pautou suas ações pela condenação e, sim, pela acolhida. Como se dizer defensor do Magistério da Igreja, indo contra as palavras e ações de Jesus?

Fala-se muito em conversão. Penso que estão certos neste imperativo. Porém, a conversão que precisamos é ao Projeto de Jesus. Acolher, abraçar, perdoar, amar – com amor incondicional. Os Fariseus se apegavam em demasia às Leis e às normas de vida santa, segundo eles acreditavam. Com isso, afastaram-se de Javé, o Deus que esteve ao lado daquele povo em todas as situações de sofrimento. No Egito, na Babilônia, entre tantos “perrengues” que passaram e ficaram registrados na história. Javé mostrou-se, ao longo da História da Salvação, um Deus companheiro na caminhada, solidário, apaixonado por seu povo. Não era o “deus” que acreditavam os Fariseus.

Em nossas comunidades, enquanto seguidores e seguidoras de Jesus, devemos dar voz a este Deus. Apaixonado por seus filhos e filhas. Mesmo que a sociedade, os tabus, os preconceitos creditem neles desconfiança, reprovação. Como nos mostra seu Filho: aqueles e aquelas que a sociedade descartou, foram abraçados pelo Messias Misericordioso. Deus quer contrariar nossos moralismos. Nossas manias de grandeza. Ele pode. É dono de tudo, inclusive da Verdade. Devemos respeitar a liberdade de Deus. Ele pode amar a todos e todas, mesmo a aqueles e aquelas que pensamos ser indignos de amor. O que esperar de um Deus que escolhe a indigência da manjedoura e não a suntuosidade dos palácios? Que, sendo Autor da Vida, deixou-se matar por conspiração da mesquinhez e ambição de alguns aficionados pelo poder? Esse nosso Deus é surpreendente! Precisamos renunciar ao desejo de tomar o lugar dele. Deixar de arrogarmo-nos o poder de juiz. Ele quer amar a todos e todas sem medida. Sem restrições. Respeitemos a liberdade de Deus!


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