A “Ignorantia Controvesia” sobre a “Fiducia Supplicans”

Por Pe. Hermes A. Fernandes

O termo “Ignorantia Controvesia” advém do latim e pode significar polêmica ignorante. Permitam-me popularizar a sentença latina e sugerir seu entendimento como polêmica burra. Por que faço uso de uma expressão tão agressiva? Por não entender que seja possível compreender de outra forma o afã de protestos em relação ao documento do Dicastério para a Doutrina da Fé, “Fiducia Supplicans”.

Nas redes sociais, podemos ver grande mobilização em contrário ao sobredito documento. Por que incomoda tanto? Penso que os corações fechados à sua acolhida seja o principal motivo. Pessoas incapazes de entender que a Igreja busca restaurar seu primeiro amor ao Cristo. Neste desejo, lê o Evangelho como pedagogia de acolhida e ressignificação do amor de Deus por seus filhos e filhas.

Em Lc 4,16-21 lemos:

Jesus foi à cidade de Nazaré, onde se havia criado. Conforme seu costume, no sábado entrou na sinagoga e levantou-se para fazer a leitura. Deram-lhe o livro do profeta Isaías. Abrindo o livro, Jesus encontrou a passagem onde está escrito: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Notícia aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano de graça do Senhor.” Em seguida Jesus fechou o livro, o entregou na mão do ajudante, e sentou-se. Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele. Então Jesus começou a dizer-lhes: “Hoje se cumpriu essa passagem da Escritura, que vocês acabam de ouvir.”

Como podemos ver, ao inaugurar seu ministério na Galileia, Jesus faz uso das palavras do Profeta Isaías (cf. Is 61,1-2). Nestas palavras podemos perceber que a ação messiânica se concentrava no desejo de agregar, consolar e ressignificar a vida de todos os sofredores. Uma Boa Notícia aos pobres, marginalizados, perseguidos, excluídos. Em outros momentos de seu ministério, Jesus se opõe à pedagogia dos Fariseus, os quais, tinham olhar aquilino sobre os populares, verificando os que se portavam de forma contrária à Lei. Ao detectar qualquer rusga de erro, decretavam estar impuros e indignos da religião de Israel. A meritocracia era critério primeiro para o que era santo e o que era impuro. Tanto assim o era, que o próprio nome de sua organização significava “os separados”. Ou seja, os fariseus se separavam da ralé pecadora, considerando-se mais santos e dignos e, por isso, legítimos representantes da vontade de Javé. Em consequência a esta postura, excluíam e marginalizavam o povo simples. Todavia, Jesus denuncia, opondo-se a esta postura excludente e marginalizante.

Vejamos:

‘‘Os doutores da Lei e os fariseus têm autoridade para interpretar a Lei de Moisés. Por isso, vocês devem fazer e observar tudo o que eles dizem. Mas não imitem suas ações, pois eles falam e não praticam. Amarram pesados fardos e os colocam no ombro dos outros, mas eles mesmos não estão dispostos a movê-los, nem sequer com um dedo.” (Mt 23,2-4)

De fato, um representante de Deus, uma liderança religiosa, não pode arrogar-se o direito de agir como juiz, decretando quem pode ou não receber a Graça. Como que fiscais de uma alfândega, decretam quem é puro ou impuro, digno ou não do amor divino. Jesus ainda aponta que, quanto mais puritano o que se diz ministro de Deus, menos proficiente este o é em suas próprias ações. Quem está muito ocupado em apontar a impureza dos outros, não tem tempo de viver em santidade sua própria vida. Por isso, versículos depois no Evangelho Mateano, acrescenta:

Ai de vocês, doutores da Lei e fariseus hipócritas! Vocês pagam o dízimo da hortelã, da erva-doce e do cominho, e deixam de lado os ensinamentos mais importantes da Lei, como a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Vocês deveriam praticar isso, sem deixar aquilo. Guias cegos! Vocês coam um mosquito, mas engolem um camelo. Ai de vocês, doutores da Lei e fariseus hipócritas! Vocês limpam o copo e o prato por fora, mas por dentro vocês estão cheios de desejos de roubo e cobiça. Fariseu cego! ” (Mt 23,23-26a).

Em verdade, quanto mais a moral cristã beira ao moralismo, mais próxima está dos Fariseus e mais distante de Jesus. Penso que a esta reflexão, podemos inserir a questão da “Fiducia Supplicans”. Muitos de nossos irmãos e irmãs, na pressa de rotular e excluir, não conseguem entender que a Igreja, ao abrir seu coração àqueles que são considerados em situação irregular, se aproxima mais de Jesus. No afã de condenar um Documento que propõe acolhida, sequer se dedicam a compreendê-lo. A isso atribui-se o título desta nossa reflexão. A Polêmica Burra sobre a “Fiducia Supplicans”. Burra porque sequer a entende, antes de condenar. E, se entende, finge não fazê-lo, desferindo críticas, condenações e confundindo o Povo de Deus. Assim como fizeram os Fariseus.

No que consiste a não compreensão e entendimento da “Fiducia Supplicans”?

Fica claro, tanto no documento, quanto nas explicações do Dicastério para a Doutrina da Fé e do próprio Papa, que a “Fiducia Supplicans” não pretende rever a teologia moral ou a teologia dos sacramentos. Não se trata de alterar o que se refere à indissolubilidade do matrimônio ou se criar uma legitimação sacramental das uniões homoafetivas. Portanto, não se trata de mudança de doutrina. Entretanto, novos tempos requerem novas perspectivas. E aqui se compreende a “Fiducia Supplicans”. Abençoar às pessoas em relações irregulares, não pretende abençoar as relações irregulares.

A “Fiducia Supplicans” não pode ser interpretada como uma oposição doutrinal, porque o documento é claro e clássico a respeito do matrimônio e da sexualidade. Existem diversas frases fortes na Declaração que não deixam dúvidas:

«A presente Declaração permanece firme quanto à doutrina tradicional da Igreja sobre o matrimônio, não admintindo nenhum tipo de rito litúrgico ou de bênçãos semelhantes a um rito litúrgico que possam criar confusão». Age-se diante de casais em situação irregular «sem convalidar oficialmente o seu status ou modificar de algum modo o ensinamento perene da Igreja sobre o matrimônio» (Apresentação).

«São inadmissíveis ritos e orações que possam criar confusão entre aquilo que é constitutivo do matrimônio, como “união exclusiva, estável e indissolúvel entre um homem e uma mulher, naturalmente aberta à geração de filhos” e aquilo que o contradiz. Esta convicção é fundada sobre a perene doutrina católica do matrimônio. Somente neste contexto as relações sexuais encontram o seu sentido natural, adequado e plenamente humano. A doutrina da Igreja sobre este ponto permanece firme» (4).

«Tal é também o sentido do Responsum da então Congregação para a Doutrina da Fé, onde se afirma que a Igreja não tem o poder de conceder a bênção a uniões entre pessoas do mesmo sexo» (5).

«Dado que a Igreja desde sempre considerou moralmente lícitas somente aquelas relações sexuais  que são vividas ao interno do matrimônio, ela não tem o poder de conferir a sua bênção litúrgica quando esta, de qualquer modo, possa oferecer uma forma de legitimação moral a uma união que presuma ser um matrimônio ou a uma prática sexual extra-matrimonial» (11).

Portanto, não há a menor possibilidade de se considerar uma distância doutrinal desta Declaração ou considerá-la herética, contrária à Tradição da Igreja ou blasfema. Quem assim a vê, o faz por oposição ao atual magistério pontifício. Contestam uma Igreja que caminha rumo a maior acolhida e coerência com os valores evangélicos.

Aqui vale lembrar uma particularidade gramatical e semântica. O Documento diz “abençoar a pessoas em situação de relação irregular”. Ao se propor abençoar pessoas que vivem como casais segunda união, ou pessoas homossexuais, devemos focar nossa atenção à formulação do texto. Abençoar a pessoas. Não se trata de legitimar a união e sim, entender que estas pessoas são parte integrante do Povo de Deus. Também elas são Igreja de Jesus. Portanto, não se pode lhes negar a benção.

E o que é benção? É bendizer alguém. É o ato de desejar o Bem às pessoas. A proposta da “Fiducia Supplicans” não se refere ao rito sacramental e, sim, à ação pastoral. É trazer para o seio da Igreja aqueles e aquelas que, muitas vezes, são tratados como marginais à comunidade cristã. É não cair na armadilha dos Fariseus que fechavam as portas do céu àqueles que entendiam ser impuros e indignos. Aquele e aquela que não entendeu a “Fiducia Supplicans”, sequer entendeu – antes – a Jesus e seu Evangelho.

Antes de se posicionar contra a “Fiducia Supplicans”, contra o pontificado do Papa Francisco, ou às diretrizes da CNBB; faz-se necessário aprofundado estudo e boa vontade, sem os quais, se faz impossível qualquer entendimento. Atacar o que não se entende é premissa para a intolerância, as polarizações, o preconceito e a marginalização. É criar polêmica por mera burrice ou má intenção. Ambos os postulados afastam a verdade. Por ignorância, ou vilania.


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