“Conversão Ecológica” | Por Seny Felix

Lí a Encíclica Laudato Sí (LS) – na íntegra – ao menos, duas vezes. Sem contar as tantas vezes que volto a ela em consulta, relendo fragmentos para fundamentar algum estudo específico. Durante a conclusão de minha graduação em Sociologia, cujo tema foi Educação Ambiental, voltei a esta encíclica como base e fundamento de meu Trabalho de Conclusão de Curso. Quando de minha pós-graduação em Ensino Religioso, com o tema Religião e Ecologia: O Cuidado da Casa Comum, também a Laudato Si’ foi de grande importância. Ecologia está sendo, novamente, tema de estudo para a conclusão no curso em Dimensão Social da Fé. Não me acanho em confessar que a Encíclica Laudato Si’ tem sido companheira em meu caminhar. Acadêmico e Eclesial.

Desde a primeira vez que a li, confesso que não vi novidade sobre o assunto do ponto de vista econômico, social  ou antropológico. Outros cientistas e autores ligados ao tema já falavam sobre o assunto desde a década de 1960. E qual é a novidade em uma encíclica papal que é um compilado de estudos sérios e profundos sobre as questões ambientais em nosso planeta? Afinal, nem é a primeira vez que um Papa fala sobre questões ambientais. Outros já o haviam feito.

Destaco aqui as principais novidades que percebo na Encíclica:

1º. Seus destinatários: a LS é destinada a cada pessoa que habita neste planeta, ampliou-se o diálogo não se restringindo ao meio católico ou aos homens de boa vontade, é uma carta do papa a toda a humanidade;

2ª. Novidade: é uma encíclica inteira sobre  o  Cuidado da Casa Comum;

3ª. É a novidade que mais me chamou a atenção enquanto cristã católica,  a chamada conversão ecológica.

No capítulo VI – Educação e espiritualidade ecológicas que trata sobre a conversão ecológica. Aqui cabe pontuar o que é conversão: a palavra conversão, em grego é “epistrepho” –  significa mudança de caminho, de sentido, de direção.

Já a palavra ecologia é derivada de duas palavras gregas: oikos e logos, que significam, respectivamente, “casa” e “estudo”.  Desse modo, podemos definir ecologia como  o estudo do local em que os seres vivos vivem.

Assim, o papa Francisco propõe  “aos cristãos algumas linhas de espiritualidade ecológica que nascem das convicções da nossa fé, pois aquilo que o Evangelho nos ensina tem consequências no nosso modo de pensar, sentir e viver” (LS, 216). “Propõe uma mística que anima, … uma moção interior que nos impele, motiva, encoraja e dá sentido à ação pessoal e comunitária” (Evangelii Gaudium, 261)

A crise ecológica que estamos vivendo é uma chamada a uma profunda revisão do que estamos fazendo com nosso planeta e nos convida a uma mudança de sentido e direção, ou seja a uma Conversão ecológica, conversão que inicia-se no interior mas tem sua resposta e atitude na prática cotidiana de nossas atitudes, nossos relacionamento com o outro, com o espaço que vivemos e com toda a criação, Papa Francisco coloca para nós que viver a vocação de guardiões da obra de Deus não é algo opcional nem aspecto secundário da experiência cristã. mas parte essencial, de uma existência virtuosa.

Chamou-me deveras a atenção este ponto, não é opcional, e aqui falo diretamente ao cristão católico, seja ele papa, bispo, presbíteros, religioso ou leigos,  não nos é dada opção!!!! É parte essencial, ou seja, constituinte de uma existência virtuosa. Isso muda todas as nossas relações nas esferas pessoais, sociais e mentais, não há fé ou conversão verdadeira que não parta do interior e transborde para todos os âmbitos da vida.

Plantar um jardim no seu quintal ou no terreno da paróquia não faz de ninguém um convertido ecológico, pode até fazer parte do processo, mas não se resume a isso. A Ecologia Integral proposta é ampla e abrange todas as relações humanas, antropológicas, sociopolíticas, não é um mero sentimentalismo ou adoração da natureza, mas atitude de gratidão com o bem recebido de Deus e envolve o cuidado com todo  esse bem recebido e com todos os habitantes desta casa, não estamos fora do mundo mas inseridos nele e dele dependemos para nossa sobrevivência.

Nossa consciência enquanto seres humanos, não nos dá o direito de nos apropriarmos de tudo de forma egoísta  e destrutiva, mas gera em nós a responsabilidade do cuidado e com manutenção para futuras gerações.

Não dá pra falar de vida e fazer opções em várias áreas da vida que levam a destruição, poluição e queimadas de nossas matas, a degradação do meio natural, que resultam na crise climática, não dá para escolher a vida e ter atitudes que geram morte, seja nas atitudes pessoais ou sociais, isto é incoerência.

Que a fé se una à ciência e busquem juntas uma saída para a crise que semeamos e estamos colhendo.

Precisamos de forças e ânimo na caminhada que é de  luta,  contra um sistema que corrompe valores, que vê primeiro o lucro depois a pessoa humana, falam tanto da condenação da igreja ao comunismo mas esquecem-se que esta mesma Igreja condenou também o capitalismo que vê tudo pela ótica do lucro,  destrói, segregra e marginaliza.

Que busquemos enquanto cristãos a leitura e o estudo atento das encíclicas papais que nos dão norte nesta caminhada.

Recomendo a leitura:

Da conversão do próprio Papa Francisco, “Minha conversão ecológica”. Depoimento do Papa Francisco – Instituto Humanitas Unisinos – IHU  se ele passou pelo processo de conversão ecológica, por que qualquer um de nós estaria isento ou alheio a ela ?

Da Laudato Si  – papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si_po.pdf (vatican.va)

E por fim, desejo que a Divina Ruah esteja em nós realizando a metanóia necessária neste processo de  conversão  e caminhada ecológica.

Sobre a Autora

Seny Felix, licenciada em sociologia, pós-graduanda em Dimensão Social da Fé,  membro da articulação das Pastorais da Ecologia Integral do Brasil, atuando na Pastoral da Ecologia Integral no Vicariato Jacarepaguá/RJ.


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