Conversão Ecológica no Contexto da Campanha de Fraternidade 2024

Por Seny Felix [1]

Minha vida foi marcada, deste a tenra idade, pela relação afetuosa com a Casa Comum. Amar à Criação sempre esteve como viés de compreensão do ser Cristã e do ser Igreja. Recentemente, publiquei um texto nesta página sobre a Conversão Ecológica (para visitar o texto, click AQUI). Fazendo o caminho de conversão que este tempo de Quaresma nos convida, gostaria de discorrer um pouco mais sobre o tema. Tenho feito da Encíclica do Papa Francisco Laudato Si’ quase que meu livro de cabeceira. Já a li 4 ou 5 vezes, pois a cada releitura, novos horizontes vão se abrindo, novas percepções surgem. Neste tempo de aprofundar nossa vida cristã na perspectiva das celebrações pascais, penso que a palavra de ordem é conversão.

Conversão é caminho, não é algo que se conclui como um passe de mágica. Conversão é processo. Hoje, percebo coisas que não percebia antes. Hoje, mergulho mais no mistério da amizade com Deus. E esta relação amorosa se reflete no todo.

Ontem, pesquisando sobre São Francisco de Assis, encontrei um vídeo do Padre Fabio de Melo,  sobre a conversão Santo de Assis, onde lá pelo minuto 11 do vídeo, fala que Deus não converteu uma parte do coração, e sim, o filtro que lhe vai nos olhos. Portanto, conversão é algo integral, tangendo todas as dimensões humanas. A isto se inclui a conversão ecológica. Muitas vezes, podemos nos dizer cristãos, mas não nos importamos em jogar óleo de fritura na pia da cozinha, poluindo nossos rios. Contradição! Hipocrisia! Quem ama, o faz nas pequenas coisas.

Hoje, temos a graça de ter um outro Francisco, além do Poverello de Assis, nosso amado Papa. Um profeta para o novo tempo, que a exemplo de seu onomástico São Francisco, tem um olhar voltado para o outro. Relembremos o que ele diz  na Fratelli Tutti:

“Desejo ardentemente que neste tempo que nos cabe viver, reconhecendo a dignidade de cada pessoa, possamos fazer renasce, entre todos um anseio mundial de fraternidade.” (Fratelli Tutti 8) e segue nos convidando a sonhar.

Aqui está o nosso segredo para sonhar e tornar a nossa vida uma bela aventura. Ninguém pode enfrentar a vida isoladamente […]; precisamos de uma comunidade que nos apoie, que nos auxilia e dentro da qual nos ajudemos mutuamente a olhar em frente. Como é importante sonhar juntos!” ( FT nº8)

Sonhar juntos, e juntos semear o Reino de Deus no aqui e no agora. Não um sonhar passivo, e sim, um sonhar ativo; fruto de uma fé viva, repleta de atitudes.

Vivemos no Brasil, neste Tempo de Quaresma, a Campanha da Fraternidade. Neste ano, nos convida e refletir sobre o tema: Fraternidade e Amizade Social, com o lema: Somos todos irmãos e irmãs. Percebo, não sem tristeza, em grupos de catequistas do qual faço parte, uma aversão a qualquer tema proposto pela CNBB para a Campanha da Fraternidade. Ainda ontem, 13/02/24, li coisas do tipo: “é tudo da Teologia da Libertação”! “Tudo comunismo! Coisa do demônio!” Sim! Tudo isso publicado em um grupo de catequistas, com membros de várias partes do nosso imenso Brasil. Papa Francisco também fala sobre isso na Fratelli Tutti, no nº 15:  “A melhor maneira de dominar e avançar sem entraves é semear o desânimo e despertar uma desconfiança constante, mesmo disfarçada por trás da defesa de alguns valores.” Portanto, demonizadas são estas atitudes que semeiam a divisão.

Não consigo compreender tanta repulsa ao tema, tanta desobediência aos nossos bispos, que são nossos pais na fé. Causando na Igreja, justamente aquilo que acusam: separação, divisão, confusão. Afinal, na raiz grega, Diabolos significa exatamente Aquele que Divide. E, ao criticar a Campanha da Fraternidade e a CNBB, acabam criticando também o Papa Francisco. Afinal, o próprio papa enviou um belíssima mensagem solidarizando-se e apoiando a Campanha da Fraternidade em tempos quaresmais. Eu não sou capaz de compreender, qual o mal em falar de amizade social e buscar com esse tema a conversão. Conversão de vida, conversão nos relacionamentos sociais. Opor-se  a tais temas, soa-me à incoerência e ao farisaísmo. E que espécie de cristão católico é este que ataca os bispos e o Papa? E o mais grave, tais palavras vexatórias advêm de catequistas. Que catequese é esta que promove a apostasia? Estes e estas catequistas que criticam, atacam até, a Campanha da Fraternidade, deviam rever sua própria Catequese. São cegos, guiando cegos (cf. Mt 15,14).

Volto-me aos Franciscos. O santo de Assis e o Papa. Tanto um, quanto outro, nos convidam ao mergulho na amizade com Deus, através da natureza e em tudo o que isto implica. Fazem uma chamada a conversão do ser humano total, na integralidade de sua existência, ou seja, todas dimensões de sua vida.

Não se trata de uma conversão pela metade, ou em apenas uma área mais confortável da vida. Nem mesmo uma barganha com Deus: “eu mudo se receber esta ou aquela benção!”. Conversão é metanóia, mudança de pensamento, de comportamento. É entrega, é atitude de fé de quem fez um encontro com o amado e agora só quer espalhar o amor. Mesmo que ainda caia, falhe. A conversão é caminho. Haverá momentos de cansaço, tibieza. Importa sempre recomeçar, voltar ao caminho, experimentando o perdão, porque se é amado, com o amor infinito de Deus, manifesto em magnânima misericórdia. Para uma vida de conversão é preciso perceber Deus atuando na História e fazer parte desta história, atuando na construção de um mundo de irmãs e irmãos. Importa um olhar capaz de perceber as manifestações da transcendência no cotidiano da vida. Sem alienação, sem viver uma vida angélica, e sim, um transbordamento da intimidade com Deus, percebendo-o nos pequenos, nos pobres, nos excluídos socialmente. E, em comunhão com toda a Criação, percebê-lo no canto dos pássaros, no murmurar das águas, no som do ventos nas folhas das árvores; em tudo como comunhão íntima com Deus, que se manifesta e converte em transformação de vida. A amizade com Deus é tamanha que não haverá como não ver Deus nos irmão e irmãs. Entre os humanos e em toda a Casa Comum.

Desejo a todas e todos uma Santa Quaresma! Que cheguemos  juntos à Festa do Banquete Pascal, onde todos são bem-vindos e bem-vindas, quando nos reconheceremos como irmãos e irmãs, filhos do mesmo Pai.


[1] Seny Felix, Catequista, Articuladora da  Pastoral da Ecologia Integral no Vicariato Jacarepaguá/RJ.

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