Transfiguração: Fato ou Boato?

Por Pe. Hermes A. Fernandes

À guisa de introdução, sempre se faz necessário deixar que a própria Bíblia fale. Dar voz à Palavra Revelada. O relato da Transfiguração está contido nos três Evangelhos Sinóticos, a saber: Mateus 17,1-8; Marcos 9,2-8 e Lucas 9,28-36. Como estamos no Ano B do esquema Litúrgico, vamos ao relato de Marcos:

Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, e os levou sozinhos a um lugar à parte sobre uma alta montanha. E transfigurou-se diante deles. Suas roupas ficaram brilhantes e tão brancas como nenhuma lavadeira sobre a terra poderia alvejar. Apareceram-lhe Elias e Moisés, e estavam conversando com Jesus.  Então Pedro tomou a palavra e disse a Jesus: “Mestre, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”. Pedro não sabia o que dizer, pois estavam todos com muito medo. Então desceu uma nuvem e os encobriu com sua sombra. E da nuvem saiu uma voz: “Este é o meu Filho amado. Escutai o que ele diz!” E, de repente, olhando em volta, não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus com eles. Ao descerem da montanha, Jesus ordenou que não contassem a ninguém o que tinham visto, até que o Filho do Homem tivesse ressuscitado dos mortos. 10 Eles observaram essa ordem, mas comentavam entre si o que queria dizer “ressuscitar dos mortos”.

Semelhanças e Divergências entre os Três Relatos da Transfiguração

O relato de Marcos é muito semelhante ao mateano. Em Lucas, há alguns elementos novos: enquanto Jesus conversa com Moisés e Elias, os discípulos dormiam. Entretanto, relata em seguida que estes discípulos testemunham Jesus conversando com estes célebres personagens do Primeiro Testamento. Além disso, os dois personagens, na conversa com Jesus, falam de seu êxodo que se consumaria em Jerusalém. Parece, portanto, que em Lucas não importa tanto quem são as duas pessoas que conversam com Jesus. O texto Lucano deixa como aspecto fundamental a eminência do Mistério de sua Paixão que está por vir. Em Mateus o acento é colocado sobre a figura de Jesus como o novo Moisés, oferecendo a Nova Lei, sobre o Tabor. Mateus aponta para a ressignificação da Lei, dialogando o Tabor com o Sinai. Em Marcos, podemos pontuar – como sua originalidade e como mensagem principal – a revelação messiânica e divina de Jesus, confirmando aquilo que o autor deste Evangelho já tinha dito no episódio do batismo. Tanto o é que, também na transfiguração, no relato marcano, aparece uma voz que diz: Este è o meu filho amado; ouvi-o (Mc 9,7), tal qual quando no relato do batismo (cf. Mc 1,11).

Esta é a síntese teológica das três narrativas evangélicas que contam o evento da Transfiguração. É preciso que a tenhamos sempre em perspectiva.

Transfiguração: fato ou recurso metafórico dos autores evangélicos?

Não temos porque duvidar que o fato realmente tenha acontecido. Podemos, ao bem de uma hermenêutica mais apurada, entender os detalhes como recursos estilísticos para dar maior efeito à catequese destas perícopes bíblicas. Tal artifício pode ter sido usado para reforçar a mensagem teológica que cada evangelho quer transmitir. Não podemos dar uma proposição meramente mitológica ao relato da Transfiguração. Não se trata de um conto popular. Há que se crer no episódio como real.

Ainda vale pontuar que os evangelhos são históricos, enquanto falam de um Jesus histórico, que viveu e cujas ações foram contadas e recontadas, até que os evangelistas transcreveram-nas como legado às Igrejas. Outrossim, vale lembrar que os evangelhos não são apenas história. Vão além disso: há que se considerar a teologia, a catequese, a mistagogia e o testemunho das primeiras comunidades dos seguidores e seguidoras de Jesus. Cada evangelista tem uma mensagem precisa, que é destinada a uma comunidade específica, e tem em mente um público determinado. Muitos detalhes históricos são relegados a segundo plano, pois – em si – os evangelhos não são mera historiografia, ou mesmo relato jornalístico, no sentido hodierno do conceito.

Ainda vale sublinhar certa particularidade sobre o relato do qual nos dedicamos em refletir hoje: Os discípulos que testemunharam a Transfiguração, reconheceram Elias e Moisés. Fato curioso, pois estes personagens do Primeiro Testamento viveram muitos anos antes de Jesus. Daí podemos nos lembrar que tais homens e suas histórias faziam parte do imaginário coletivo dos judeus, dada a importância deles como referência à Israel. Assim, traziam uma íntima relação com estas figuras célebres do Tempo da Promessa, a ponto de identificá-las em colóquio com o Messias. Ainda vale sublinhar: não devemos nos concentrar nestas questões minoritárias ou curiosas dos relatos bíblicos. Embora seja possível matéria de estudo, não são determinantes para entender a mensagem que o autor sagrado deseja transmitir.

Neste sentido, quando lemos os relatos sobre a vida de Jesus nos evangelhos, não podemos absolutamente nos fixar somente nas questões históricas. Faz-se necessário transcender aos fatos e desvelar a mensagem escondida em cada narrativa. Fazer uma experiência mistagógica do texto bíblico, da Palavra Revelada! É nos pequenos detalhes de uma receita que um alimento se faz delicioso ao paladar.


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