Por Pe. Hermes A. Fernandes
Durante todo o Tempo Pascal, o Evangelho de João esteve presente em nossas Liturgias. Percebemos no Evangelho da Comunidade Joanina uma ternura que se nos salta aos olhos. Jesus se nos é apresentado como um Messias do amor, pelo amor. A propósito, o amor é a chave de leitura para toda a literatura joanina.
Nas três cartas de João, a palavra Amor aparece 38 vezes. Como que uma colenda a se repetir, reavivando em nosso coração o imperativo para um mundo melhor. Sem amor, toda a humanidade está fadada à barbárie. Não há filosofia, política, economia, reflexão sociológica; capazes de proporcionar caminhos eficazes para uma sociedade justa e igualitária, sem que o amor seja o eixo motriz para esse intento. Se quisermos um mundo melhor, precisamos nos render à necessidade de amor e à responsabilidade de amar. Sem medida, sem restrições. Amor puro e simples. Amor ousado e humilde. Amor ao jeito de Deus.
O Segundo Testamento foi escrito no idioma grego, e dois grupos diferentes de palavras gregas foram traduzidos para o português como “amor”. A palavra grega phileo descreve um amor associado ao intento pessoal, humano, como o amor da família ou dos amigos, oferecido a partir de um sentimento de afeto mútuo. A expressão “amor fraternal” está interligada a este conceito. É uma tradução da palavra grega philadelphia, a forma substantiva do verbo phileo. Phileo é o ato de amar que flerta com a necessidade de reciprocidade. Amor humano, não necessariamente do jeito de Deus.
Etimologicamente, as palavras gregas agápi e agapao são as formas substantivas e verbais de um tipo diferente de amor. Ágape é um amor que envolve altruísmo e sacrifício, concedido se merecido ou não, e independentemente da reciprocidade. É um amor gratuito, semelhante ao de Deus. A literatura joanina usou dessas palavras frequentemente. Como já mencionado acima, em suas três cartas, a palavra amor aparece trinta e oito vezes, e todas são traduções das palavras agápi ou agapao.
João usa essas palavras gregas para descrever o amor de Deus. “O amor é de Deus; … Deus é amor.” (1Jo 4,7-8). Descrevendo como Deus exerceu seu amor por meio de Jesus, João continua: “Nisto se tornou visível o amor de Deus entre nós: Deus enviou o seu Filho único a este mundo, para dar-nos a vida por meio dele. E o amor consiste no seguinte: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou, e nos enviou o seu Filho como vítima expiatória por nossos pecados.” (vs. 9 e 10). No evangelho de João, ele também se refere a essa grande manifestação do amor de Deus: ‘‘Pois Deus amou de tal forma o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele acredita não morra, mas tenha vida eterna.” (Jo 3,16).
O verdadeiro cristão e a verdadeira cristã desejam desenvolver um amor altruísta, abnegado. Tal amor vai além de um simples sentimento benevolente, ou afeto mútuo, exercido de um para com o outro. Pelo contrário, é um amor que impele a sacrificar os próprios interesses, o prazer, o conforto, o tempo, a força, e tudo o que se tem; em benefício de outros e outras. Esse tipo de “amor uns aos outros”, requer um esforço profundo de nossos corações. Trata-se de um exercício de consciência, e é desenvolvido ao longo do tempo, com necessária perseverança.
“Ninguém jamais viu Deus. Se nos amamos uns aos outros, Deus está conosco, e o seu amor se realiza completamente entre nós. Nisto reconhecemos que permanecemos com Deus, e ele conosco: ele nos deu o seu Espírito. E nós vimos e testemunhamos que o Pai enviou o seu Filho como Salvador do mundo. Quando alguém confessa que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece com ele, e ele com Deus. E nós reconhecemos o amor que Deus tem por nós e acreditamos nesse amor. Deus é amor: quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus permanece nele. (1Jo 4,12-16). Deus aceita nosso amor uns pelos outros como uma manifestação de nosso amor por ele. Assim, podemos nos perguntar: Temos um genuíno interesse e preocupação pelo mais alto grau de bem-estar de nossos irmãos? Quando ficamos sabendo de suas experiências difíceis, temos empatia e compaixão? Como nos portamos ao perceber que algum irmão ou irmã se encontra em dificuldade? E é aqui que o amor-ágape se transforma em amor-ypiresía, isto é, amor-serviço.
Neste sentido, nos vem duas provocações importantes e desafiadoras: o amor de Deus, Ágape, deve ser vivido pelos cristãos e cristãs, como amor-serviço. Amor que não é mero conceito, e sim, atitude. Amor que não se enclausura em uma ideia, mas esvoaça-se em concretude. Amor que a tudo suporta, não é subjugado por interesses mesquinhos, é altruísta, traduz-se em compaixão e misericórdia (cf. 1Cor 13,4-7). Outra forma de avaliarmos se estamos desenvolvendo o amor-ágape é o modo como o exercemos para com toda a humanidade, demonstrando amor até pelos nossos inimigos. (cf. Mt 5,44-45) O amor altruísta nos fará ser solidários e misericordiosos para com todos e todas. E aqui vale a ousadia de rejeitar até mesmo o conceito de inimizade. Quem experimenta o amor-ágape, está imune ao ódio, ao rancor, às expectativas de vingança. Estas emoções nocivas não podem coabitar com o desafio cristão de amar sem medida. Podemos ter dificuldades de conivência, dadas as nuances da psique, mas nunca podemos fazer do ódio um caminho a seguir. O amor a tudo perdoa (cf. 1Cor 13,5), portanto, não coabita com conflitos. Nenhuma justificativa é aceitável para a violência!
Há quem pense que esses imperativos são impossíveis a nós, humanos e humanas. Um amor que vence nossos interesses pessoais, nosso conceito de justiça limitado ao legalismo, nossa bondade escrava da meritocracia. Lembremo-nos que este jeito ousado de amar é o jeito de Deus. Ele é sua fonte. Se falharmos, às vezes, em manifestar amor aos nossos irmãos e irmãs, ou mesmo a aqueles que nos provocam sentimentos de rejeição, não devemos desanimar. Ao contrário, devemos perseverar buscando força em Deus, como nos exorta a Segunda Carta a Timóteo: “O Senhor certamente lhe dará inteligência em todas as coisas!” (cf. 2Tm 1,7). Se Deus é a fonte do amor, também é a fonte do discernimento e da fortaleza, com as quais, nada nos é impossível! Amemo-nos sem medo, com a ousadia de Deus!
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