O deus fraquinho dos conservadores

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Nestes dias em que vivemos assolados pela tristeza que nos desperta a tragédia no Rio Grande do Sul, maior assombro nos revela algumas reações a respeito dos fatos. Pessoas que, usando do desastre ambiental, desferem suas palavras de ódio e preconceito aos seus desafetos. Quer religiosos, quer políticos.

Em nome de política e religião conservadoras, motivados por uma santidade alienada e perversa, atribuem o desastre ambiental do Rio Grande do Sul à infidelidade a Deus e a seus valores. Como que se desconsiderassem todos os alertas sobre as políticas predatórias ao meio ambiente e suas consequências, aos brados, afirmam ser castigo de Deus as inundações.

Uma mulher que se declara cristã, em seu perfil de Instagram, afirmou que o Rio Grande do sul é o estado onde mais se tem religiões de Matriz Africana. E, por esse motivo, Deus estaria devastando o estado por sua ira contra o satanismo e a idolatria. Aliás, essa confusão já se faz histórica. Não é incomum ver pessoas desinformadas e intolerantes afirmar que as religiões de Matriz Africana são satanistas, adoradoras do Diabo. Aqui temos um erro antropológico. O Diabo é uma figura da tradição judaico-cristã. Personifica o mal. Todavia, na tradição africana esse personagem era desconhecido aos Yorubás e Bantu. Etnias predominantes dos negros sequestrados e trazidos ao Brasil para trabalho escravo. Em sua cultura, usando os Yorubás como exemplo, o mal se personifica em Ajegun, não em Satanás. Portanto, sequer a narrativa religiosa converge, quanto menos poderia convergir o culto. Satanás e seus demônios foram apresentados aos negros escravizados por seus opressores, isto é, os espanhóis e portugueses que promoviam, se beneficiavam e lucravam com trabalho escravo. Penso que os negros escravizados, ao ouvir falar do autor do mal da religião cristã, passou a preteri-lo automaticamente. Uma vez que os “homens brancos” os sequestraram, torturavam e escravizavam; certamente identificaram os escravagistas com essa figura de mal, Satanás e seus demônios. E hoje, pessoas de coração duro e mente pequena, querem demonizar os Orixás do Candomblé e Umbanda. Dizendo-os imagens de Satã. Satânico é manter essa cultura de racismo social e religioso. Não se trata de negar o direito de existir às Religiões de Matriz Africana por razões doutrinais. Trata-se de racismo religioso. Não se vê críticas igualmente cruéis a outras formas de religião anímica ou politeísta. A persistência dos conservadores em atacar a fé dos negros é puro racismo. Vil e perverso!

Também no Instagram pude ver um pregador católico (padre legitimamente ordenado), usando dos desastres ambientais como subterfúgio para atacar seus desafetos ideológicos. Aqui me refiro a ideológicos e não teológicos, pois tais posicionamentos não correspondem ao Magistério da Igreja. Este sacerdote afirmou que o Rio Grande do Sul é o estado onde mais se tem maçons, onde mais a Teologia da Libertação possui simpatizantes, onde menos se preserva a sã doutrina da Igreja, sendo lá lugar de uma Igreja corrompida pelo comunismo. Mais uma vez, os conservadores aproveitam uma oportunidade diversa para combater seus “moinhos de vento” de forma caricata e quixotesca. Sim, caricata! Nenhum teólogo, de qualificações medianas que seja, entende como comunismo os desafios e as diretrizes das pastorais sociais. O que tal padre chama de comunismo, já o Papa Leão XIII (1810-1903) define como Doutrina Social da Igreja em seu pontificado, pela encíclica Rerum Novarum, mostrando preocupação com a condição de vida dos trabalhadores. Neste referido pontífice, está o embrião de todo um caminhar da Pastoral Operária.

Posteriormente, a Doutrina Social da Igreja foi se aprofundando pelo Concílio Vaticano II, e – em nível de um contexto latino-americano – pelas Conferencias Episcopais da América Latina e Caribe, realizadas no Rio de Janeiro (1955), Medellín (1968), Puebla (1979), Santo Domingo (1992) e, recentemente, Aparecida (2007). É inegável que a Igreja da América Latina e Caribe deva se preocupar com a situação dos vulneráveis e injustiçados por uma sociedade neoliberal excludente e marginalizadora. Com a eleição de nosso atual pontífice, o Papa Francisco, esse debate recebeu forte impulso em nível de Igreja em toda a Orbe, todo o Mundo. Nosso amado Papa não se cansa em afirmar que deseja um Igreja Pobre, com os pobres e para os pobres.

Neste sentido, estaria o padre em sua homilia rompendo com sua comunhão eclesial? Estaria ele optando pela apostasia? É esta a atitude de quem rompe com o Magistério da Igreja, mesmo que de forma insinuante e velada. Rotular de comunismo a Doutrina Social da Igreja é o mesmo que dizer “não sou mais católico”.

O que me parece por estes posicionamentos conservadores e, consequentemente anacrônicos, é o desejo de se ressuscitar uma Igreja morta e sepultada. A Igreja menos carisma, mais poder, anunciadora da teologia do medo, defensora do padroado. Esta Igreja do deus impiedoso e castigador está morta e sepultada. O Espírito Santo, por sua criatividade divina, inspirou nossos bispos a rever tais desvios do caminhar. Quando em sua história, a Igreja se preocupou mais com a manutenção do poder, esquecendo-se do Evangelho. Oportunamente, temos caminhado nos dois últimos séculos a reparar essas fraturas. Desde Leão XIII, como mencionei acima. E, mesmo assim, há quem queira restaurar o mofo e a tirania. O mofo, pois este modelo de Igreja – como nos ensina o teólogo Fernando Altemeyer Junior, um catolicismo sem inculturação, sem diálogo com o século; meramente devocional e moralista; é um catolicismo mofado. Há muito superado pelo Magistério da Igreja e pelas Diretrizes de Ação Pastoral.

O deus pregado pelos conservadores, é um deus incapaz. Fraco, mesquinho. Não se trata do Abba, o Paizinho de Jesus, Iahweh Libertador. Este Deus lindo, que libertou o povo hebreu do cativeiro egípcio, que inspirou Israel no resgate de sua identidade após o exílio na Babilônia; que suscitou profetas como Jeremias, Isaías, Amós; que se encarnou no ventre de uma aldeã na Galileia, que como verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, esteve em meio aos mais pobres e sofredores; e ressignificou toda a vida humana por sua Paixão, Morte e Ressurreição; não pode ser um deus de picuinhas ideológicas. Não pode ser um deus que se ocupe de problemas morais, cheirando a moralismos. Não pode decretar a morte de centenas de pessoas, desabrigando outras  milhares, porque existem maçons, candomblé, umbanda ou porque a Igreja local se compromete com os pobres.

E mais: nosso Deus nunca se preocuparia com um show de música Pop.

Essas ideias promovem a imagem de um deus tirano. Não o Deus que tanto amou o mundo que deu seu Filho para que, quem nele acreditasse, tivesse vida eterna (cf. Jo 3,16). Quem pensa assim, não só ignora a mensagem do Evangelho, desconhece a Igreja na qual foi batizado. São tiranos, mesquinhos, moralistas, vaidosos, orgulhosos, gananciosos que criam um deus a imagem deles. Um deus fraco, tanto quando seus pregadores.

Nosso Deus, o Paizinho de Jesus, é lindo! Seu poder, sua força, são traduzidos em amor e misericórdia. Ele aprecia a beleza e a vida! E é essa beleza e vida que a Igreja anuncia hoje. Contrapondo-se a toda política de morte e toda forma de marginalização e exclusão da plenitude da vida. Nosso Deus é de Festa e Libertação! Não do Medo e da Tirania.


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