O Tradicionalismo, a Fome de Palavra, de Pão e de Beleza

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Nesta semana, estive acompanhando algumas celebrações que aconteceram em nossas comunidades eclesiais e comunidades amigas. Entre elas, a recepção de ministérios (Ordens Menores) de alguns seminaristas. Chamou-me a atenção as vestes e a postura destes candidatos ao Ministério Ordenado. Mãos postas em pose angélica, rendas em alvas resgatadas dos museus e já criticadas pelo nosso amado Papa Francisco. A questão transcende a impressão estética. Vai além: parece que estamos nos esquecendo do verdadeiro sentido do servir, amar e consagrar-se; imperativos fundamentais para a vocação presbiteral.

Nossos candidatos ao presbiterato estão se esquecendo do sentido essencial desta vocação. Parece que o clericalismo, tão criticado pelo Papa Francisco, veio para ficar. Mesmo o antecessor, o Papa Bento XVI, já havia apontado esta dificuldade. O clericalismo é um joio que cresce em meio ao trigo da seara do Senhor.

Com a mais recente avalanche de clericalismo que assola a Igreja, vemos que há mais acento na questão sacerdotal e enfraquecimento de uma visão mais ampla do ministério presbiteral. Essa, porém, é apenas a ponta do iceberg do problema da teologia dos ministérios, que distancia ainda mais bispos, padres e leigos, criando uma espécie de muro de separação entre as diversas modalidades do ser cristão. É preciso cada vez mais acentuar que a hierarquia querida por uns, é contraditória com o sentido real do presbiterato que é a dinâmica do serviço: “Se alguém quer ser o primeiro, seja o último de todos e servo de todos” (Mc 9,35). Pior de tudo é quando esse clericalismo desencadeia um processo de carreirismo [1].



Interessante que inúmeras vezes o Papa Bento XVI chamou a atenção para o problema do carreirismo na Igreja. No dia 2 de fevereiro de 2010, falando a um grupo de padres, ele interrogou: “A carreira e o poder não serão uma tentação? Uma tentação da qual não estão imunes nem aqueles que têm um papel de animação e de governo na Igreja?”. E durante uma ordenação de quinze sacerdotes, em 2006, o Papa Bento XVI, servindo-se do Evangelho do Domingo do Bom Pastor, destaca com precisão: “Quem sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante” (Jo 10,1). A palavra “sobe” evoca a imagem de alguém que se agarra sobre o recinto para alcançar, escalando, lá onde legitimamente não consegue chegar. “Subir” pode-se ver aqui também como imagem do carreirismo, da tentativa de chegar “ao alto”, de procurar uma posição mediante a Igreja: servir-se, não é servir. É a imagem do homem que, através do sacerdócio, quer fazer-se importante, se tornar um personagem; a imagem daquele que focaliza a própria exaltação e não o humilde serviço de Jesus Cristo. Mas a única subida legítima rumo ao ministério do pastor é a cruz. Esta é a porta… Entrar pela porta, que é Cristo, quer dizer conhecê-lo e amá-lo, sem mais, para que a nossa vontade se una à sua e o nosso agir se torne uma só coisa com o seu agir [2].

Diante dessa reflexão, fica claro que qualquer tipo de exibicionismo por meio do ministério presbiteral é contrário à sua natureza de serviço, de doação, de abnegação. Sobretudo, hoje, onde os meios de comunicação social favorecem a exposição exacerbada de alguns, fazendo surgir até mesmo verdadeiros fã-clubes, é muito pertinente a palavra do Papa Bento XVI para que não percamos de vista a finalidade real do ministério presbiteral. Também corrobora para conter o exibicionismo nos meios de comunicação a mensagem do Papa Bento XVI para o 44° Dia Mundial das Comunicações Sociais (15/05/2010), intitulada: “O Sacerdote e a Pastoral no Mundo Digital: as novas mídias ao Serviço da Palavra”“A divulgação dos ‘multimídias’ e o diversificado ‘espectro de funções’ da própria comunicação que podem comportar o risco de uma utilização determinada principalmente pela mera exigência de marcar presença e de considerar erroneamente a internet como um espaço a ser ocupado”.

No atual pontificado, o Papa Francisco pediu que resgatássemos o aspecto missionário e samaritano da Igreja. Consequentemente, solicita – inúmeras vezes – que os presbíteros redescubram esta dimensão missionária e samaritana, sendo pastores com cheiro de ovelhas. Isto significa caminhar junto, partilhar das dores do povo, dedicar-se despretensiosamente, sobretudo, aos menos favorecidos. A opção preferencial pelos pobres, advinda das reflexões de décadas de trabalhos do Episcopado Latino-americano e Caribenho, diretriz sublinhada e grifada pela CNBB, enquanto viés para ação evangelizadora no Brasil; tem sido ignorada e, até mesmo, marginalizada por alguns que assumem ou pretendem assumir o ministério presbiteral. O que se faz notar pelo constante avanço de devocionismos, grupos católicos que desejam viver uma teologia e liturgia anteriores ao Concílio Vaticano II. Isso, sem deixar de lado a constatação de que o ministério ordenado tem sido palco para se manifestar os sinais mais fúteis da vaidade humana. Há mais padres produzindo stories nas redes sociais, para autopromoção de suas imagens, do que em meio às comunidades; vivenciando o carisma do Bom Pastor.

Esta nossa reflexão não aponta caminhos sanativos para a questão. Em verdade, temos encontrado dificuldade de – até mesmo – reconhecer o problema. Estariam nossos bispos ignorando o declínio de qualidade na formação dos ministros ordenados? Não percebem que onde tem sobrado tecidos e ostentação estética, tem faltado qualidade no trabalho pastoral, ou mesmo, sincero desejo de servir o Povo de Deus? Ou, o que acredito estar mais próximo da verdade, seriam nossos bispos ignorados pelos presbíteros envaidecidos e surdos a qualquer palavra ponderativa que vise sanar o problema? Onde erram nossos seminários? O que vemos é uma constante tentativa da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil em tornar a Igreja mais próxima das exortações do Papa Francisco. Junto ao OSIB [3], fomenta reflexões e critérios formativos para que o Ministério Ordenado caminhe, mais e mais, rumo ao ideal de Jesus, o Bom Pastor. Lamentavelmente, sobretudo os padres mais jovens, parecem não refletir tão hercúleo empenho. Enquanto sobram batinas, rendas e barretes, falta compromisso. Sacerdotes alienados à fome do povo. Fome de Palavra. Fome de pão. Fome de beleza.

Notas

[1] O presente texto é inspirado no livro de Pe. Manoel José de Godoy, sob o título: Presbyterorum Ordinis: Texto e Comentário. 1ª Ed. São Paulo: Paulinas, 2012, p. 18-22.

[2] Cf. Agência Fides 8/5/2006

[3] OSIB: Organização dos Seminários e Institutos Filosófico-Teológicos do Brasil. É um organismo que visa articular e integrar os Seminários e demais casas de formação, buscando critérios e diretrizes comuns na ação formativa dos futuros presbíteros do país, respeitando a caminhada de cada regional, com suas respectivas Igrejas particulares e dos diferentes Institutos.


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