Por Pe. Hermes A. Fernandes
Vamos pensar em nível de introdução. Quando tomamos em mãos a Bíblia e a abrimos no Evangelho de Marcos, nos deparamos com o primeiro escrito sistemático que deseja relatar a mensagem e a vida de Jesus. Até Marcos, Evangelho era o anúncio oral da salvação realizada em e por Jesus. Aqueles que anunciavam Jesus, eram as testemunhas oculares, que garantiam a verdade do que era proclamado. No entanto, perante o crescente desaparecimento destas testemunhas, pois morriam ao passar do tempo, era necessário garantir não só a fidelidade ao que elas tinham anunciado, como contextualizar o que Jesus dissera e fizera no decorrer de sua vida. Marcos foi o primeiro a fazê-lo, criando o gênero literário evangelho, chamado assim pela tradição posterior, porque conservara por escrito a proclamação oral da grande Boa Nova: que, em Jesus, Deus fez-se próximo (cf. 1,14s). Mateus e Lucas seguiram o seu exemplo e usaram-no como uma das suas principais fontes. O Evangelho de Marcos inspirou os dois outros sinóticos.
Pensemos um pouco sobre o que se sabe a respeito de autor, localização onde o texto se originou e possível data. A tradição eclesial, fundamentada em Pápias de Hierápolis (130 dC), atribui este Evangelho a João Marcos, um discípulo de segunda geração, filho de certa Maria, cuja casa se reunia a Comunidade de Jerusalém (cf. At 12,12). Era ligado a Pedro (1Pd 5,13) e a Paulo (At 12,12; 13,5; Cl 4,10; 2Tm 4,11). Segundo o bispo de Hierápolis, Marcos teria posto por escrito a pregação de Pedro, enquanto secretário e intérprete. O fato de explicar palavras em aramaico (5,41) e os costumes judaicos (7,3-5), remete, segundo algumas opiniões, à elaboração do evangelho – ou pelo menos à sua difusão – para fora da Palestina. Segundo a tradição, teria sido escrito em Roma, no tempo do martírio de Pedro (mais ou menos 65 dC). Esta data parece confirmada pelas alusões à Guerra Judaica e à destruição de Jerusalém (63-73 dC), o que se revela em Mc 13. No próprio conteúdo se vislumbra referências de lugar e data, pois nela encontramos muitas palavras latinas que o autor não sente necessidade de traduzir (centurião, legião, censo, denário, quadrante). Bem diferente dos termos originais, em língua aramaica. Além disso, Roma estava intimamente relacionada com Pedro e Paulo. E Marcos se relacionava a eles como referência do Primeiro Anúncio, o Querigma. Neste sentido, o Evangelho Marcano também é chamado querigmático.
No que se refere aos seus destinatários, a ligação de Marcos a Pedro (cuja pregação e ministério se desenvolvia sobretudo entre os cristãos de origem judaica) e a Paulo (pregador do evangelho e fundador de comunidades também entre os de origem pagã); faz com que identifiquemos Marcos como alguém que faz a ponte entre os cristãos das duas proveniências. De fato, em Roma existiam diversas Igrejas Domésticas, constituídas por discípulos vindos do judaísmo e do paganismo. Por isso, o fato de o título programático da obra de Marcos (“Início do Evangelho de Jesus, Cristo, Filho de Deus“, cf. 1,1) e da proclamação do próprio Deus sobre a identidade de Jesus (cf. 1,11; 9,7), sendo confirmada na profissão de fé de Pedro, um judeu (“Tu és o Cristo“, cf. 8,29), assim como na profissão de fé de um pagão, o centurião romano perante a morte de Jesus (“verdadeiramente este homem era Filho de Deus“, 15,39); faz pensar numa comunidade constituída por gente com origem no judaísmo da diáspora e no paganismo.
O texto marcado se abre ao cristianismo sem fronteiras. A abertura da comunidade ao mundo pagão é sublinhada. Quer pela omissão em 6,6b-13 das palavras do paralelo de Mt 10,5b-6 (Não partais para o caminho dos pagãos, nem entreis em cidade dos samaritanos; ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel), quer pelo segundo relato da multiplicação dos pães destinada aos pagãos (8,1-10), quer ainda por episódios como o da mulher sirofenícia (7,24-30).
A comunidade de Marcos sofre dificuldades pelas perseguições. Já não apenas do Judaísmo Formativo. Outrossim, depois do incêndio de Roma, o qual Nero culpou os cristãos, as autoridades do império passam a uma perseguição sistemática às comunidades cristãs (situação apresentada em 13,9). Neste sentido, o leitor é confrontado com uma enfática apresentação do caminho sofredor de Jesus, pelo qual, necessariamente passam também os seus discípulos, para poder – junto ao centurião – descobrir, aos pés da cruz, a verdadeira identidade do seu Senhor. Consequentemente, perante a perseguição e o sofrimento, o discípulo é convidado a tomar a sua cruz e a colocar-se atrás de Jesus, (8,34), sabendo que, desta forma, chegará com ele ao dia da ressurreição e do triunfo, pois Deus terá sempre a última palavra, nele se encerram o sentido e significado da vida. Só assim o discípulo poderá responder com verdade existencial à pergunta de Jesus no início do caminho para Jerusalém: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (8,29a). Aqui vale lembrar que na pergunta “quem é Jesus?” se concentra a tese temática de todo o evangelho marcano.
Tendo visto o proposto acima, podemos pensar no que consiste o conteúdo deste Evangelho. O título do evangelho (cf. 1,1) apresenta também a sua finalidade: que os discípulos descubram a verdadeira identidade de Jesus como Messias e Filho de Deus. Trata-se de um mistério (a que alguns chamam segredo messiânico) e a que se chega não apenas pela razão, mas sobretudo, pelo seguimento adequado da pessoa de Jesus. Por isso, ele recusa a revelação que de si fazem os espíritos impuros (cf. 1,25.34) e mesmo a apressada profissão de fé de Pedro, que proclama um messianismo com critérios mundanos (cf. 8,29s), como se percebe pelo contexto imediatamente posterior (cf. 8,31-34). Para descobrir a verdadeira identidade de Jesus, o discípulo é chamado a colocar-se atrás dele, enquanto seguidor (cf. 1,16.20; 8,32.34), a acompanhá-lo na sua missão e revelação na Galileia e arredores (cf. 1,14-8,26), fazendo do cotidiano, da convivência com o Mestre, o projeto diário da sua própria vida (cf. 1,21-38). Sobretudo, os discípulos são chamados a percorrer o mesmo caminho de Jesus (cf. 8,34; 10,46.52). Trata-se do caminho para Jerusalém (cf. 8,27-10,52), onde o Filho do Homem sofrerá e dará sua vida, mas também onde Deus o ressuscitará (cf. 14,1-16,8). Ao contrário das mulheres, que deixaram que o medo as fizesse emudecer a alegria da ressurreição (cf. 16,8: primeira conclusão), os discípulos, a quem o livro se destina, são desafiados a jamais permitir que os respeitos humanos ou o medo da cruz calem a alegria da salvação de Deus operada em Jesus (cf. 16,9-20: segunda conclusão). As diferentes personagens, que pontuam o andamento da narrativa, são modelos de discipulado, que o leitor é convidado a imitar ou rejeitar, e sobretudo, a perceber como todos os modelos são insuficientes e muitas vezes claudicam, como no caso dos próprios doze, herdeiros da tradição apostólica. Por isso, apenas Jesus é o modelo definitivo e colocar-se atrás dele, enquanto seguidor e seguidora, constitui o único caminho que leva à ressurreição.
Ainda vale elencar aqui algumas informações exegéticas que nos chegam ao longo da história, a saber: depois da introdução, que engloba o título (cf. 1,1), a preparação e a vinda de Jesus (1,2-13), o evangelho aparece estruturado fundamentalmente em duas grandes partes, a última das quais inclui a conclusão.
Neste sentido, podemos organizar a obra marcana pelos seguintes destaques, como nos informa a introdução deste Evangelho na tradução da CNBB, de 2018:
O Querigma de Jesus e dos Apóstolos
Em Marcos transparece o primeiro anúncio (o querigma) que os apóstolos dirigiam aos seus contemporâneos. Este querigma dos evangelizadores inclui o querigma proclamado pelo próprio Jesus, o anúncio do Reino de Deus (cf. 1,14s.38). Marcos traz o anúncio dos apóstolos acerca de Jesus anunciando o Reino.
O Mistério de Jesus Messias e Filho de Deus (o Segredo Messiânico)
Em Marcos, os demônios expulsos percebem que Jesus é o Messias, mas ele proíbe que o torne público. Jesus impõe a mesma proibição aos discípulos depois da profissão de fé (cf. 8,30) e da Transfiguração (cf. 9,9). Tudo isso, porque não se entende o sentido da missão de Jesus e do Reino por ele anunciado antes de ver como ele dá a própria vida na cruz e como Deus, pela ressurreição, confirma sua obra.
A Cristologia de Marcos: Jesus, Filho do Homem e Servo Sofredor
Jesus não chama a si mesmo de Messias, mas Filho do Homem, o enviado humano de Deus para instaurar o Reino (cf. Mc 8,31; 14,62; e, em paralelo, Dn 7,13). Jesus realiza essa sua missão dando sua vida “por muitos” (cf. 10,45; 14,24). Aqui se identifica Jesus com o Servo Sofredor de Is 53. Ele é o Cristo-Messias, enviado por Deus, à maneira do Filho do Homem e Servo Sofredor. Em Jesus se cumpre as profecias.
A Galileia, geografia simbólica
Depois da abertura, Marcos descreve a obra de Jesus a partir da Galileia, longe de Jerusalém e do Templo, que ele vai purificar, provocando o conflito que o leva à morte (cf. Mc 11,18). É também na Galileia que Jesus, depois da morte e ressurreição, irá à frente de seus discípulos (Mc 16,17): sua obra e sua comunidade continuam. Não no centro do antigo culto, mas no espaço novo, aberto a todos.
O discipulado
Em Mc 1,16-20, Jesus chama, na Galileia, os quatro primeiros discípulos. Em Mc 3,13-19, os estabelece em número de “doze“, uma alegoria às doze tribos de Israel, representando o Novo Povo de Deus. Em Mc 6,1-6, ele os envia em missão; na secção 8,27 a 10,52 lhes ensina o caminho de seguimento; no Getsêmani, admoesta-os (cf. 14,32-42); depois da ressurreição, precede-os novamente na Galileia, que agora simboliza o mundo que se abre à missão (cf. 16,7). Portanto, o evangelho de Marcos insiste na formação do discipulado, oferecendo um guia sistemático do caminho de seguimento de Jesus.
Ao nível de conclusão
Este nosso texto pretende ser um breve roteiro de compreensão do Evangelho de Marcos. Podemos sintetizar seu conteúdo conforme nos apresenta sua introdução na Bíblia Edição Pastoral:
Marcos escreveu o seu Evangelho com a finalidade precisa de responder à pergunta: “Quem é Jesus?”. O evangelista, porém, não responde com doutrinas teóricas ou discursos de Jesus. Ele apenas relata a prática ou atividade de Jesus, deixando que o leitor chegue por si mesmo à conclusão de que Jesus é o Messias, o Filho de Deus (1,1; 8,29; 14,61; 15,39). Portanto, na leitura do livro de Marcos, o importante é perceber o significado do que Jesus faz, isto é, estar atento ao quadro completo da sua atividade.
Através da sua prática, Jesus realiza o projeto messiânico segundo a vontade do Pai, entrando em conflito com uma concepção de Messias ligada aos esquemas de dominação. Nessa época, tinha-se a ideia de que o Messias viria como rei triunfante, que libertaria a nação judaica do poderio romano, e faria Israel retomar o antigo esplendor dos tempos de Davi e Salomão. Mas esse Messias não mudaria em nada, e até mesmo aperfeiçoaria, o esquema interno classista e opressor, sustentado por uma ideologia religiosa. Esse conflito se traduz concretamente no confronto da atividade de Jesus com a sociedade judaica do seu tempo.
Toda a atividade de Jesus é o anúncio e a concretização da vinda do Reino de Deus (Mc 1,15). E isso se manifesta pela transformação radical das relações humanas: o poder é substituído pelo serviço (campo político), o comércio pela partilha (campo econômico), a alienação pela capacidade de ver e ouvir a realidade (campo ideológico). Trata-se de proposta alternativa de sociedade, que leva ao nivelamento fraterno das pessoas. Isso provoca a oposição acirrada das autoridades e dos privilegiados, que fazem de Jerusalém e do Templo a sede do seu poder e riqueza. O resultado do conflito é a paixão e morte de Jesus. Mas Jesus não permanece morto. Ele ressuscita, e sua Ressurreição é a sentença condenatória do sistema que o matou.
O livro de Marcos é apenas o começo da Boa Notícia (1,1). O autor deixa claro, portanto, que sua obra não é completa e que, para chegar ao fim, supõe que o leitor tome uma posição: continuar o livro através de sua própria vida, tornando-se discípulo de Jesus. Como discípulo, o leitor deve agora chegar a uma decisão, isto é, reconhecer Jesus como o Messias que leva à plenitude de vida (8,29; 15,39) e aceitar o seu convite, indo ao encontro do Ressuscitado na Galileia (16,7). Não se trata simplesmente de voltar a ler o Evangelho desde 1,14, e sim de continuar no tempo presente a atividade concreta de Jesus, através de prática que faça renascer continuamente a esperança da vinda do Reino.
Ao ler o Evangelho de Marcos, somos impelidos à missão. Somos, também nós, anunciadores deste Reino de Deus que nos introduz à uma nova realidade, na qual, as dores e sofrimentos humanos são ressignificados em alegria plena. Jesus, o Filho de Deus, apresenta o Reino de seu Pai. Onde as dores se convertem em alegria. Onde a fraternidade se sobrepõe às buscas de poder, à tirania e aos projetos de morte. Na simplicidade do texto marcano se esconde a grandiosidade do primeiro anúncio. Jesus, o Messias esperado, se revela a partir da Galileia e para lá aponta como referencial após sua ressurreição. Com isso, nos convida a ser comunidade de discípulos e discípulas na intimidade, na partilha, na ideia referencial de família. Apontando para a Galileia, nos introduz à Nazaré. Lugar da vida oculta de Jesus, referência e convite à sua intimidade. Voltar com Jesus à Nazaré, é perceber a casa como referencial da comunidade. Vivendo enquanto comunidade de seguidores e seguidoras de Jesus, devemos entender que o testemunho prefacia a palavra. A vida é anúncio testemunhal da mensagem de Jesus e da construção do Reino de seu Pai.
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