A Igreja deve se ocupar exclusivamente de salvar almas? Direitos Humanos e desafios Ecológicos não fazem parte da missão da Igreja?

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Recentemente, ouvi em uma rádio católica uma piedosa mulher dizer: “A Igreja não nos manda plantar árvores, se preocupar com meio ambiente, ou coisas do tipo. A missão da Igreja é salvar almas. Essa insistência com discursos ecológicos na Santa Igreja são pautas marxistas que contaminam o discurso de fé, e nos afastam da sã Doutrina da Igreja!”

Por ocasião do Dia Mundial do Meio ambiente, a acontecer neste 05 de junho, desejamos propor uma reflexão:

Considerando a afirmação da apresentadora de rádio, se a missão da Igreja deve ser exclusivamente salvar almas, cabe perguntar: no que consiste a alma?

Primeiramente, há uma diferença conceitual entre alma e espírito. O espírito é a força vital. Advinda de Deus, nosso amado Criador, possibilita a vida em toda matéria orgânica[1]. Todos os seres vivos, humanos ou não, possuem essa força vivente. Portanto, tendo em perspectiva a realidade humana em paralelo a outros seres viventes, o conceito de alma e espírito se difere. Alma é um conceito próprio à humanidade. Portanto, podemos investigar a questão da alma não somente pela teologia, assim como também pela filosofia e antropologia.

Os modelos conceituais com que nossa tradição exprimiu sua reflexão sobre o homem não apenas se sucederam ao longo da história, mas se interpenetraram e completaram, forjando a ideia do homem constitutiva de nossa cultura. Tal ideia integra elementos da tradição da Antiguidade clássica (greco-romana) e da tradição bíblico-cristã. A esta integração deve-se à compreensão do homem como portador de uma razão universal (animal rationale) e como ser dotado de liberdade para escolher (liberum arbitrium). Destas duas prerrogativas surgem as formas de saber por excelência: a Metafísica (razão teórica) e a Ética (razão prática). Na interseção destes dois saberes, situa-se a Antropologia.

O desenvolvimento das chamadas ciências do homem, a partir do século XVIII, provocou uma crise nesta ideia do homem que o Ocidente desenvolveu. Responder a esta crise, recuperar uma certa “ideia unitária” do homem, é a tarefa que a Antropologia Filosófica tem diante si. Neste intento, o antropólogo e filósofo Lima Vaz[2] apresenta um roteiro metodológico rigoroso, um método de articulação de categorias que, em um movimento dialético, ordenam-se em vista da unidade sistêmica. Trata-se de uma antropologia integral, vinculada fundamentalmente à metafísica e à ética.

A Antropologia Filosófica é uma objetivação conceitual e discursiva do fenômeno do homem na peculiaridade de ser, ao mesmo tempo, objeto e sujeito. É irrevogavelmente socrática enquanto autocompreensão, em seu entrecruzamento epistemológico de sujeito e objeto. Antes de ser um saber sobre o sujeito, é um saber do sujeito, um conhecer-se como sujeito. É dar luz à razão sobre si mesmo, enquanto autoconsciência. As categorias antropológicas constituem o problema mais delicado dentro da Antropologia, devido à impossibilidade de distinguir metodologicamente homem-sujeito e homem-objeto. No sistema antropológico vaziano (elaborado por Lima Vaz), em princípio, está a constituição das categorias pelas etapas de conhecimento do homem, a saber, pré-compreensão, compreensão explicativa e compreensão filosófica ou transcendental. A afirmação “Eu sou” que impulsiona a reflexão filosófica, é o princípio e o fim de um discurso que se desenvolve de categoria a categoria, até a unidade total do ser humano. Lima Vaz elabora uma Antropologia Filosófica que integra os polos da natureza, do sujeito e das formas em uma articulação dialética, sem cair numa justaposição simples e superando os reducionismos. Ante tal complexidade estrutural e dinâmica, distingue níveis ontológicos constitutivos do ser do homem: Corpo, Alma e Espírito. E a unidade do homem composta por categorias distintas é encontrada na Literatura Paulina em 1Ts 5,23 “Que o vosso ser inteiro, o espírito, a alma e corpo sejam guardados de modo irrepreensíviel para o dia da vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo”. Paulo apresenta a tríade que compõe a unidade do ser humano. Corpo, alma e espírito. Entendido acima o que é espírito, a força vital, entendendo agora que a alma consiste na pessoa integralmente, o corpo é a forma física em que a força vital é difundida e, enquanto pessoa consciente, forma seu ser integralmente.

Entendendo que não se pode separar o conceito de alma do conceito de pessoa, devemos constatar que também o conceito de ética está intimamente ligado ao conceito de pessoa, uma vez que a ética tenciona preservar o equilíbrio das relações. Enquanto ser humano, social e comunitariamente interligado, suas ações podem definir o bem estar de sua existência. Como nos disse o Papa Francisco, “tudo está interligado” [2].

Ao compreender a integralidade da Criação e o Criador que nela se faz revelar, podemos pensar que no bem viver, em nível contemplativo e na dinâmica do cuidado, se pode experimentar a transcendência. A transcendência é, das experiências humanas, a mais profunda e decisiva; pela intencionalidade transgride os limites da sua situação no mundo e na história e se lança na direção de uma suposta realidade trans-mundana e trans-histórica, capaz de unificar as razões com as quais os indivíduos e as sociedades procuram dar um sentido ao seu estar no espaço e no tempo. Essa experiência crucial foi sendo interpretada mormente pelos paradigmas filosófico e teológico. Pela transcendência, o imanente se transmuta no eterno. Unindo-os por uma simbiose humano-divina. 

Tal transcendência não pode ser entendida por um olhar dualista. Essa corrente dualista de se compreender corpo-alma, céu-terra, sagrado-profano; oriunda-se da influência grega nos primeiros séculos do cristianismo. Na Idade Média, chegou-se ao extremo de se desprezar as realidades seculares, materiais, de tal ponto que se chegou à heresia. Entre as heresias dualistas, a mais marcante foi o catarismo.

O catarismo[4] foi uma doutrina herética originada na França, no século XI. Porém, foi somente a partir de 1140 que essa heresia ganhou força pela Europa. Considerado o maior movimento herético surgido na Baixa Idade Média, o catarismo foi herdeiro de doutrinas gnósticas que defendiam uma visão dualista do mundo. De acordo com esta heresia, o dualismo manifestava-se da seguinte maneira: os cátaros acreditavam que a bondade existia somente no mundo espiritual e que o mundo material era maligno por essência. Ainda nessa concepção, o mundo era a armadilha de Satã, pela qual, a humanidade precisava se libertar ou perder-se para a condenação eterna. Uma teologia do medo, segundo a qual, só a realidade celeste era segura.  Podemos encontrar mais informações sobre essa corrente herética na obra do historiador Nachman Falbel[5]. E em muitos pensadores e pregadores de nossos tempos há alguma faísca fumegante do catarismo.

É pensando em tudo isso, que somos levados a concluir: nosso amor a Deus faz-se em extensão à sua criação. A experiência transcendente é algo metafísico. Outrossim, não nos esqueçamos que pela metafísica (razão teórica), somos levados à ética (razão prática). Amar é cuidar. Manter nossa ação evangelizadora estritamente no ambiente abstrato é impor certo platonismo deturpado à nossa confissão de fé e vivência eclesial.

Portanto, a ideia de limitar a ação da Igreja à uma esfera etérea, à uma realidade angélica, flerta com a heresia dos cátaros. Faz entender que tudo o que é de realidade terrena é impuro, enquanto o que tem o céu como perspectiva, é ideal. Ora, foi Deus quem criou o mundo. Na criação está a identidade do Criador. Diante da criação, o homem e a mulher deve assumir uma postura contemplativa, vislumbrando que nela está a beleza de seu Criador. Percebendo a inter-relação de Deus e a obra criada, sendo a humanidade vocacionada à participação nesta criação, tal vislumbramento deve revestir-se de responsabilidade. Todo amor deve ser traduzido em cuidado. Se percebemos nosso Criador em todas as criaturas, amamo-nas igualmente. Amor e cuidado devem ser imperativos do homem e da mulher para com toda a criação.

Amar, cuidar, proteger. A Igreja deve se ocupar da salvação das almas? Sim, de fato! Entendendo que a alma humana é toda sua pessoalidade, integralmente. Ao escolher defender Direitos Fundamentais, denunciar as exclusões sociais, promover políticas públicas pelo cuidado dos vulneráveis; a Igreja está salvando almas. Afinal, não podemos pensar a ação evangelizadora direcionada às realidades etéreas, aos anjos. O anúncio do Evangelho se destina aos humanos. Deve estar ciente e revestido de sua integralidade. Não só consigo mesmo, mas com toda a criação. Nosso planeta é nossa Casa Comum. Habitat de tudo que foi criado. Neste sentido, ecologia também é um pauta soteriológica para a ação evangelizadora. E quem não entende isso, deve rever sua catequese.


Notas

[1] AQUINO, S. Tomás de. O ente e a essência. 8ª Ed. Petrópolis: Vozes, 2014, p. 34

[2] VAZ, L. Fenomenologia e sistema: a propósito da composição da Fenomenologia do Espírito. Revista Brasileira de Filosofia, v. XX, p. 384-405, 1970.

[3] FRANCISCO, Papa. Carta Encíclica Laudato Si’. In: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html, acesso 02/06/2024.

[4] FRANGIOTTI, Roque. História da teologia: período medieval. São Paulo: Paulinas, 1992, p. 152.

[5] Nachman Falbel: obteve graduação em História e Filosofia pela Universidade de Brar Ilan (1964), mestrado em História das Religiões pela Universidade de São Paulo (1969) e doutorado em História Social pela Universidade de São Paulo (1972). Atualmente é professor titular da Universidade de São Paulo. Atuando principalmente nos seguintes temas: História Medieval, Filosofia Medieval, História e Cultura Judaica.


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