O Profeta Isaías, a Alienação da Realidade, o caminhar do Povo de Deus Sofredor

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Havia um José e uma Maria. Como muitos de nosso Brasil. Este José e sua Maria, pais de três filhos, sabiam trabalhar a terra. Também como muitos de nosso Brasil. Tendo a seca maltratado a terra, partiram em busca de renda e dignidade em outras paragens. Antes Zé e Maria de Dona Filinha, agora Zé e Maria da estrada. Correndo trecho para trabalhar. Rumando contra a fome, na esperança de dias melhores.

Correram trecho, chegaram ao Mato Grosso do Sul. No conversar com os locais, gente da terra, soube de um certo José Augusto. Dono de fazenda. Próspero. Era respeitado, gente de bem. Na coragem dos resistentes, partiram rumo à fazenda do José Augusto. Bateram às portas da sede latifúndia. Com sua mulher e seus filhos, clamou por misericórdia do fazendeiro. Empoeirados, estavam cansados de tanto caminhar em busca de trabalho e subsistência.

O fazendeiro encaminhou os que pleitearam trabalho às casas de colonos. Tudo era maravilha! Agora um teto para descansar sua Maria e seus filhos. Agora trabalho para tirar o pão de seu suor. Tudo perfeito! Até uma pequena mercearia vendia os víveres para o alimento cotidiano. Ali mesmo, na fazenda. Nem carecia de pôr o pé na estrada para sortir a dispensa. E mais: na confiança. No fiado. Para pagamento futuro, depois do vencimento do mês, pelo rendimento do trabalho. Que Maravilha!

Já diziam muitos Zés e muitas Marias: “quando a esmola é grande…” O salário do trabalho nunca chegou. A amizade do patrão se tornou arrogância, brutalidade. Os meeiros de serviço, os capatazes, se tornaram truculenta ferramenta de disciplina e forçada labuta. Trabalho de sol a sol. Sem folga, sem dignidade… e nada do salário!

Em pouco tempo, entenderam a cilada. Não eram trabalhadores de uma fazenda. Eram escravos do opressor latifúndio. O fazendeiro dizia não ter nada a pagar de salário. A casa em que moravam, os alimentos que compravam fiado na mercearia da fazenda, geraram supostas dívidas que superavam – em muito – o que lhes cabia de salário. Em vez de rendimento mensal pelo trabalho, o que tinham era uma dívida exorbitante com o patrão. Deviam permanecer na fazenda até quitar o último centavo do que deviam ao Sr. José Augusto, cidadão de bem.

Quem antes era um sem trabalho, agora se tornou um sem liberdade. Oh céus, poderia haver dor maior?! O José da Maria, pai de três filhos, filho de Dona Filinha, se tornou escravo da ambição do latifúndio. Entre os que estavam com eles, em situação análoga à escravidão; havia quem dissesse que Deus lhes virou as costas. Também havia entre os capatazes, de espingardas em punho, quem antes caiu no mesmo golpe da fazenda e das perspectivas de dias melhores. Resolveram associar-se ao Sr. José Augusto. Se tornaram soldados do opressor. Renegando suas origens, conseguiram dias menos árduos, ajudando – pela truculência – a manter o cativeiro de outros camponeses. Outros Josés, outras Marias.

E o José? E nossa Maria? Eles não perderam a fé. Conheciam a Palavra de Deus. Mesmo de pouca leitura, se lembravam dos sermõezinhos de Padre Alfredinho. Lá da Mariz da Assunção. Lá no sertão onde Deus lhes plantou. Às margens do Araguaia. Padre Alfredinho falava muito de um Profeta que conhecia a dor do povo sofrido. Seu nome é Isaías. E, em seu canto, leniava a vida e a labuta do povo que sofre. Era cântico de gente sofrida. Cântico do Servo Sofredor.

Após esta parábola dos tempos atuais, gostaríamos de conversar um pouco sobre o Cântico do Servo Sofredor, do Profeta Isaías. Em verdade, trata-se de quatro Cânticos, na Segunda parte do Profeta Isaías, ou seja, no Segundo Isaías, do capítulo 40 até o 55. Por que Segundo Isaías? Trata-se de um discípulo do profeta, o qual, vivia junto ao povo de Israel em situação de cativeiro na Babilônia, aproximadamente em 550 a.C. Portanto, bem depois do profeta Isaías. Este discípulo é anônimo. Por ter herdado a tradição profética de Isaías, sua obra continua a de seu mestre. Na situação de cativeiro, de exílio, tendo presenciado a dor do povo de Israel na diáspora babilônica, o Segundo Isaías não só queria fazer germinar no coração deste povo sofrido a esperança. Também queria amadurecer a consciência diante da realidade.

Entre os exilados, podemos elencar dois tipos de pessoas e seus respectivos pensamentos e comportamentos diante do sofrimento. Havia quem se deixasse abater totalmente na situação de exílio. Acreditavam que Javé os havia abandonado. Virado as costas. Trata-se de um grupo do Povo de Deus, sofrido e oprimido, quase sem fé e sem esperança. De tanto sofrer, entregou os pontos dizendo: “Estou no fim das minhas forças, acabou-se minha esperança que vinha de Deus” (Lm 3,18). Já não tinham consciência de sua dignidade, sentiam-se sem saída. Sem ânimo para lutar (cf. Lm 3,7.9.). Tamanha era sua dor e desalento, que já nem mais se acreditavam um povo, eram “apenas um resto de povo, refugo das nações” (Lm 3, 45). Ao tirar o sonho das mentes de um povo e o chão por baixo de seus pés, destrói-se toda esperança. Rouba-se a identidade. E um povo sem identidade, é um povo alienado.

Outra parte dos exilados foi seduzida pelo opressor. Achando que deveriam se preservar de maior sofrimento, alguns dos que foram exilados de Israel para a Babilônia agiram como que traiçoeiros. Estes, se sentiam privilegiados em Israel, as elites tão denunciadas por Jeremias e Isaías, e quando levados à força para a Babilônia, trataram de buscar a preservação de seu estilo de vida. São os privilegiados que querem sempre manter seu status quo. Se não estavam mais em sua terra, que não fossem privados de conforto e posição. Não queriam ser somados aos pobres de Israel. Não poderiam dividir a dor da privação da terra e da liberdade em meio aos “pés rapados” da antiga Cidade Santa, Jerusalém. Mesmo que, para isso, renunciasse à identidade e à fé. Estes, também, estavam alienados da realidade. E as palavras do Segundo Isaías para essa gente eram de iracúndia denúncia. Se os primeiros, os sem esperança, se sentiam abandonados por Javé no Exílio, estes segundos abandonaram a Javé, em troca de alguns privilégios mendigados a Nabucodonosor II. O flagelo de Judá. Imperador da Babilônia.

Os quatro Cânticos do Servo Sofredor são como que um roteiro de libertação. E quem é esse servo, personagem dos cânticos? Seria o Povo no cativeiro babilônico? Seria Jesus, o Messias que haveria de vir? Seria algum outro profeta prometido? Seríamos nós, aqui e agora? Nenhuma das respostas estariam completamente certas, em suas premissas da pergunta, a não ser por uma hermenêutica e atualização do texto. Em verdade, é de consenso entre os estudiosos da Bíblia que o Segundo Isaías inspirou seus quatro Cânticos do Servo, roteiros de libertação, na história do profeta Jeremias, o grande sofredor, que nunca baixou a cabeça diante dos opressores e que tanto fez para manter no povo a esperança. Foi nesse profeta, Jeremias, e não em seu mestre, o Primeiro Isaías, que se inspirou como ideal para o povo sofredor, no intento de lutar por liberdade e vida. O Segundo Isaías não pretendia, ao escrever os quatro cânticos, narrar a vida de Jeremias; mas sim, apresentar ao povo do cativeiro um modelo que o ajudasse a descobrir, na figura do servo, a sua missão como Povo de Deus. Assim, o Servo dos quatro cânticos é o próprio Povo de Deus! Claro que veremos alguns paralelos no testemunho das comunidades cristãs futuras. Afinal, a imagem do Messias, Jesus, carrega muito das promessas dos textos dos três Isaías, ou seja, as três partes da grande obra do Profeta Isaías. Jesus é a promessa que se realiza em plenitude. Mas isso é tema para uma outra conversa. Voltemos ao Segundo Isaías e aos seus quatro Cânticos do Servo Sofredor.

Podemos dizer que esses quatro cânticos são um roteiro, indicando os quatro passos da caminhada do Povo como servo de Deus. Como que um espelho, pode se mirar e tomar consciência de sua missão. Para pertencer ao Povo de Deus, é preciso comprometer-se com a liberdade, a justiça e a vida. Para tanto, os cânticos falam da Semente da Resistência, fala de esperança, aponta a força e a perseverança necessárias à luta por liberdade e vida e, por fim, apresenta os frutos da vitória.

Ao ler os quatro Cânticos do Servo Sofredor, o seguidor e a seguidora de Jesus precisam entender que, antes de mais nada, deve se colocar em situação de cativeiro e exílio para compreender a obra do Segundo Isaías e aplicá-la em sua própria realidade. É preciso perceber as várias situações análogas ao exílio da Babilônia que nosso povo sofre hoje em dia. Como exemplo, vimos a historieta, a pequena parábola, que contamos no início de nossa conversa. Situação de trabalho análogo à escravidão é uma das muitas babilônias de nosso tempo. Tendo se visto no exílio, padecendo-se nas babilônias de nossos tempos, subjugados por muitos dos nabucodonosores da contemporaneidade; o discípulo e a discípula de Jesus podem se inspirar no roteiro de libertação que nos apresenta o Segundo Isaías.

Antes de mais nada, precisamos nos entender enquanto povo de Deus. Aliados aos sofredores, como um só povo. Não alienados da esperança e da identidade, por medo e covardia; ou aliciados pelos poderes opressores, por conivência ou oportunismo. O Servo Sofredor somos todos nós! Como o novo Povo de Deus, rumamos em direção da Liberdade, da Justiça e da Vida; o Reino de Deus!


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