O Profeta Isaías e a conversão aos Pobres

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Lá para as bandas de Barbacena, nas Minas Gerais, há um lugar de nome singular e, igualmente, singular população: Vargem do Amargoso, subúrbio de Ressaquinha. Como muitos dos subúrbios rurais, trata-se de lugar de gente simples, mas acolhedora. A vida lá não passa devagar, é degustada em pequenos goles. Cercada pela exuberante beleza nativa, o povo da Vargem vive em contemplação e deslumbre diante da gratuidade da Criação.

Como dizem os pessimistas, não há estiagem que dure para sempre. Às portas da Vargem, a ambição pelo lucro bateu sinuosa, como os predadores que fitam a presa. Um tal de Marcos, empresário sabe-se lá do quê, resolveu ficar mais rico às custas da beleza da Vargem. O berço da paz de muitos, era terra intocada pela exploração. Vargem do Amargoso nos faz voltar ao passado, dada a preservação da cultura genuinamente mineira, a mata nativa quase intacta, a riqueza fluvial. Um paraíso! E, quando se fala de paraíso aos predadores do meio ambiente, estes escutam lucro. O Sr. Marcos, faceiro como todos os ambiciosos, queria aquele rico lugar para explorar. E, consequentemente, também destruir. Aproximou-se da população. Passou a frequentar os jogos de futebol, patrocinar o time local, visitar aniversariantes; como candidato em tempo de eleição. A diferença é que Marcos queria conquistar a simpatia, antes de propor levar para a Vargem o Ecoturismo e, com ele, a destruição. O prefeito da vizinha Ressaquinha já sabia do intento. Claro que não só gostou da ideia, quanto ofereceu seus préstimos. Afinal, era mais receita e arrecadação. Assim, mesmo diante do risco ecológico, Marcos e o prefeito estavam prontos para cravar os dentes vampirescos na Vargem.

Na Vargem havia um padre. Muito preocupado com as rezas e o jantar. Gente simples como sua simples gente. Com sua batina de um negro desbotado, se alegrava com as novenas que iam a bom termo, com as confissões, as missas domingueiras de igreja cheia. Um padre. Como muitos do interior. Nem bom, nem ruim. Um cura de aldeia. Pe. Sebastião gostava de seu povo. Conhecia a cada um. Porém, que não viessem falar de política. “Não sou de Direita, nem de Esquerda. Sou de Jesus!” E assim vivia sua vida na Vargem. Feliz e farto de paz e de beleza. E satisfeito com o amor de seu povo. Um padre de aldeia.

E foi assim que a questão ecológica chegou na casa paroquial. Marcos e o prefeito de Ressaquinha apareceram, meio que sem querer, na residência presbiteral. As visitas vieram trazer a boa nova ao padre. O progresso estava chegando à Vargem, com as bênçãos de Nossa Senhora! E por mais que o padre não fosse afeito à política, cismou. Era um homem negro, nascido em família pobre; mas não ausente de inteligência. Viu que aquilo não cheirava bem. Quando o progresso chega aos santuários ecológicos, a prosperidade vem, mas não para os nativos. Vem para o investidor forasteiro e seus aliados! A elite perversa. Aos povos da terra, fica a perda da identidade e da riqueza nativa do seu lugar.

O padre, que não gostava de política, mas amava seu povo; foi ao arcebispo se aconselhar. No acolhedor pórtico da Sé em Mariana, ouviu Dom Luciano falar tudo que viu pelo mundo afora sobre o tema. Quando os ricos, querendo ficar mais ricos, destroem a vida dos pobres; que ficam cada dia mais pobres. Ali, sob a proteção de Nossa Senhora da Assunção, entendeu em meia hora o que precisava para lutar uma vida inteira. Iria defender seu povo na Vargem. Mesmo que fosse incompreendido pelos colegas do clero, ou amigos de longa data. Fazia-se imperativo que ele falasse de ecologia, de respeito à Casa Comum. E iria orientar seu povo a não se deixar seduzir pelo empreendedor Marcos. Aquela era terra de gente simples. No chão da terra, no canto dos pássaros, na água límpida, estava a identidade daquele povo.

E o Padre, e sua batina desbotada pelo tempo e missão, fez forte oposição ao projeto de destruição. Até que em uma tarde de outono, três tiros de calibre .38 calou a voz do padre e tingiu sua batina de sangue. Mataram mais um irmão, um profeta de nossos tempos; em nome do lucro, em nome da ambição. Porém, a morte do padre não calou a luta pela Vargem. Aqueles que nada entendiam da questão ecológica, entenderam a morte do seu pastor. Um bom pastor. E, como semente que brota quando irrigada pela água, do sangue do Padre Sebastião brotou a semente da resistência e calou a voz da ambição. Tanta gente que viu e ouviu o acontecido, tomou partido e lugar. E, ainda hoje, a beleza da Vargem ali está. E empreendedor do Turismo Rural? Condenado a 28 anos de prisão. Ele e o prefeito espertalhão.

Essa é uma historieta, uma ficção. Exceto a geografia, os personagem e acontecimentos são fictícios. Ou melhor, nem todos. Não poderíamos deixar de incluir em nossa historinha Dom Luciano Mendes de Almeida, como humilde e justa homenagem. Esta é uma parábola para nossos tempos.

A historinha do Pe. Sebastião e da Vargem trata de um contexto ainda comum em nossos tempos. A ambição atropela o bem-estar dos pobres e a sobrevivência do meio ambiente. São políticas de morte que contrapõem-se aos clamores de vida que chegam a Javé e seu Filho Jesus. O padre de nossa historinha vivia sua vida satisfeito com o caminhar de sua comunidade religiosa. Novenas, rezas, convivência pastoral. No momento fatídico, quando seu povo se via ameaçado pela ganância dos poderosos e os caprichos das elites, percebeu-se em uma situação de fronteira. O padre que não gostava de política, viu-se forçado a tomar lugar na política. Precisou anunciar a política do Bem. Converter-se à profecia.

Na Palavra de Deus também podemos ver alguns homens e mulheres que precisaram tomar lugar e fazer opções. Moisés, Ester, Débora e, de quem desejamos falar agora, Isaías.

O Primeiro Isaías, primeira parte da grande obra profética que leva seu nome, nasceu por volta de 760 a.C., no reino do Sul, Judá. A pessoa deste profeta está revestida desde seu nascimento do sentido de sua missão. Até seu nome, Isaías, significa “Javé é Salvação”. Pode haver nome mais oportuno? No ano de seu nascimento, e primeiros momentos de sua vida, Ozias era rei de Judá (781-740 a.C.). O pai de Isaías foi Amós (cf. Is 1,1), mas certamente não se trata do profeta. Amós, o profeta, nasceu em Técua, uma pequena cidade do reino do Norte, Israel (Am 7, 12-15), durante do reinado de Jeroboão II (783-743 a.C.). Amós era um homem simples do Reino de Israel, enquanto o Primeiro Isaías tinha formação e cultura típicas de Jerusalém, isto é, Reino de Judá. O que nos leva a concluir que o pai de Isaías seja um homônimo do profeta. Não se trata da mesma pessoa.

Isaías era um profeta a serviço do Templo e conselheiro do Rei (cf. 2Rs 19,1-7). Este lugar social, com suas tradições religiosas, delineou a vida, as opções e a mensagem do profeta. Grande parte de sua pregação era baseada na escolha divina de Jerusalém e na eleição davídica, princípios teológicos fundamentais da fé que o sustentava. Assim como ilustramos acima em nossa historinha sobre o Pe. Sebastião, Isaías entendeu que as escolhas dos poderosos e das elites nem sempre condizem com o sonho de Deus para seus filhos. Mesmo sendo profeta do Templo e conselheiro do rei, afagado pela realidade palaciana (cf. Is 3,1-9), precisou renunciar à segurança desta condição para escolher o lado certo na história. Quando a liberdade e a vida não mais se fazem presentes nas sociedades, é chegada a hora da profecia. Isaías afasta-se das realidades palacianas e faz obstinada oposição às injustiças e caprichos das elites. Ele que atendeu com prontidão ao chamado profético, com mesma força, enfrentou reis e políticos, sem jamais se deixar abater. Converteu-se à causa dos pobres.

E seu caminhar profético foi lindo! Postou-se radicalmente em favor dos pequeninos, sendo extremamente duro com os grupos dominantes e injustos: juízes, latifundiários, políticos, mulheres da elite de Jerusalém (cf. Is 1,10-28; 3,16-24; 5,8-24). Defendeu com todo vigor os oprimidos, os órfãos, as viúvas (cf. Is 1,17; 10, 1-4) e o povo explorado por seus líderes (cf. Is 3,13-15). Com requinte argumentativo, a profecia do Primeiro Isaías marca forte a identidade do Deus, Javé libertador, que se levanta ao longo da história em favor dos pequeninos, dos oprimidos. Com isso, sofreu muitas perseguições, como de se esperar de quem escolhe a liberdade e a vida como missão e ideal.

Isaías viveu intensamente. Respondeu com brio ao chamado de Javé, que desestabilizou suas escolhas primeiras, plasmou seu jeito de ser, convertendo-se às causas justas e necessárias. A causa do pobre.

A data de sua morte é incerta. Provavelmente ocorreu após a morte de Ezequias, em 687 a.C. A tradição judaica, assumida por alguns dos Santos Padres da Igreja, como Justino, Tertuliano e outros; diz que Isaías foi martirizado por Manassés, o qual o teria assassinado, ordenando que fosse partido ao meio. Todavia, essa tradição não tem sustentação bíblica. Importa que conheçamos mais sua vida, deixemo-nos inspirar por seu testemunho e nos embebamos com suas palavras. Isaías é exemplo de como, muitas vezes, somos chamados a mudança de vida. Não em razão de nossos erros e acertos. Há pessoas que não estão erradas enquanto virtudes e vícios, mas se colocaram do lado errado da história. Isaías, e o Pe. Sebastião de nossa historinha inaugural desta reflexão, são exemplos disso. Viviam vidas dignas. Porém, em dado momento, foi preciso abandonar o conforto da situação e converter-se à profecia. Afrontando poderes estabelecidos e, por amor à verdade e vontade de Deus, pagar o preço com suas próprias vidas. Aconteceu com Isaías, acontece com muitos de nossos irmãos e irmãs. São Romero, Pe. Josimo, Irmã Dorothy Stang, entre outros. A vida se faz brotar e florescer pelo sangue dos mártires. Para tanto, é preciso se converter à causa dos pobres.


Deixe um comentário

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑