A Monarquia Davídico-Salomônica

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Em nosso caminhar de fé, muitas vezes, a pessoa do rei Davi se faz aparente. A referência a ele e ao seu filho Salomão acontece em muitos dos livros do Primeiro e Segundo Testamentos. Davi sucede a Saul, o primeiro rei da monarquia de Israel. Considerando que Saul viveu uma vida marcada por instabilidades e infortúnios, é em Davi e Salomão que se pode perceber a realização da promessa de Javé. O povo hebreu não mais era um pequeno grupo de uma sociedade seminômade. Agora é um grande povo. O Povo de Israel!

A monarquia de Israel levou algum tempo para a sua consolidação. O marco dessa efetivação histórica se dá em Davi (1010-970 a.C.). É Davi o primeiro rei de Israel, no ponto de vista de um monarca em seu sentido mais pleno. Saul foi como que um ensaio. De fato, dado aos muitos infortúnios, não conseguiu consolidar Israel como um reino. É Davi quem leva essa tarefa a bom termo. Para empreender tamanha tarefa, Davi teve a seu favor um momento internacional propício. O Egito estava em decadência e a Assíria ainda não constituía ameaça à Palestina e aos países vizinhos. Tais fatos favoráveis deu a Davi a oportunidade de consolidar seu reino sem as devidas interferências externas.

Para se consolidar como rei, e fortalecer seu reino, precisou de medidas nada ortodoxas para seu tempo. Nada ortodoxas, mas de uma sutileza e astúcia admiráveis. Para seu triunfo, usou como trunfo a organização de um exército mercenário formado com aqueles que estavam à margem da sociedade: os estrangeiros, os endividados, os desempregados (1Sm 22,1-2). Pessoas marginalizadas da sociedade no tempo de Saul, foram dignificadas pelo trabalho: estes mercedários se tornaram protetores daqueles que tinham bens e podiam pagar o devido tributo (1Sm 25). Como mercenários, o grupo de Davi prestava seus serviços a quem pudesse pagar (1Sm 27). Com isso, Davi deixou de lado a lei tribal da “guerra-santa”, com a qual se podia guerrear somente em caso de defesa. O próprio Javé combatia em favor do povo (Ex 17,8-16). Davi se torna um conquistador, e se apropriava e saqueava os despojos dos inimigos derrotados, algo que também era condenado pelas leis tribais (Js 6,17-21). Em Sm 30 vê-se que ele ganhou tanto com os saques que pôde dar presentes aos anciãos de Judá, em troca de favores. Assim, foi plantando suas relações diplomáticas entre os que poderiam figurar futuramente como aliados em seu intento. A monarquia consolidada.

Davi e seu exército de mercenários dominou a estratégica cidade-estado Jerusalém, que estava nas mãos dos jebuseus. Jerusalém, também chamada de “fortaleza de Sião”, tornou-se a cidade de Davi (2Sm 5,6-12). E como grande estadista, incorporou em seu quadro administrativo os funcionários jebuseus, num acordo diplomático (2Sm 8,15-18; 20,23-26), pois precisava de gente especializada para dirigir a cidade e administrar os domínios arredores. Entretanto, por inteligência, continua ligado às sociedades tribais. Neste sentido, ele manteve o exército tribal através de seu chefe, Joab (2Sm 8,16). No que se refere à religião, ao lado de Sadoc – sacerdote jabuzeu – conservou o sacerdote levita Abiatar, que pertencia ao sistema tribal (2Sm 8,17).

Tendo como suporte uma máquina administrativa bem montada e um exército a seu serviço, Davi pôde conquistar cidades importantes e controlar rotas comerciais, arrecadando mais tributos (2Sm 8,1-12). Conquistando Edom (2Sm 8,1-14), passou a controlar a Estrada dos Reis que ligava o porto de Asiongaber à cidade de Damasco, atravessando Edom, Moab, Amor e a região de Galaad. Edom ficava entre o Mar Morto e o golfo de Ácaba, onde se situa a atual cidade de Elat. O famoso porto de Asiogaber servia de escoadouro da produção dessa terra rica em minas de cobre, além de ser importante centro comercial. Aquele que dominasse a Estrada dos Reis, tinha nas mãos o comércio entre a Arábia, o Mar Vermelho e a região do Eufrates. Neste sentido, todo empenho de Davi era por consolidar Israel como um reino poderoso e revestir-se de importância necessária para a perenização de sua história.

Ainda pensando em expansão comercial, podemos lembrar que entre as terras dos Filisteus e as montanhas de Judá, estava a região de Sefetá, área produtora de trigo e cereais. Davi conquistou essa região e controlou a estrada do Vale que ligava Sefetá a Jerusalém. Essa rota interna fazia a conexão entre as duas rotas comerciais: Estrada dos Reis e o caminho do Mar, que ligava Egito, Assíria e Mesopotâmia. Com tais conquistas, Davi conteve o avanço dos Filisteus, além de ter nas mãos a região de Sefetá e a rota para transportar produtos e abastecer o centro de Jerusalém. Aqui vale uma observação: o que Saul não conseguiu por meio das armas, Davi teve êxito, pela astúcia e intentos administrativos. Os Filisteus, inimigos mais ardorosos do tempo de Saul, foram minados à raiz, quando estes dominadores tiveram seus domínios cerceados. Davi vence os Filisteus pela sabedoria e não pela força.

Em razão dos êxitos de Davi, a nação de Israel cresceu, desenvolveu-se e seu rei cresceu em popularidade. Afinal, ele agradava ricos e pobres. O nacionalismo aumentou. Davi não massacrou o povo do campo com tributos, pois conseguiu muitos bens e riquezas a partir de conquistas. Mas, ao assumir a estrutura de cidade-estado, introduzindo em seu governo saque, tributação e corvéia sobre os povos conquistados (2Sm 15,1-6), Davi infringiu algumas leis tribais, guardadas zelosamente no coração do povo. Para as tribos, isso significou exploração. Além do mais, Davi – em sua administração – favoreceu Judá em detrimento das tribos do Norte (2Sm 8,1-6). Por essa razão, aos poucos, foram surgindo revoltas, como a de Absalão (2Sm 15-18) e de Seba (2Sm 20), que foram registradas na memória bíblica, tendo provavelmente acontecido muitas outras não mencionadas no texto sagrado. Para acalmar os ânimos, fez-se necessário forte justificativa quanto à maneira de agir do rei. E nada melhor para isso do que usar a religião do próprio povo. Assim, a religião do Povo de Israel, que em tempos passados foi inspiração para o processo de libertação de seu povo, agora foi deturpada como argumento para dominá-lo. Como isso aconteceu?

A cidade de Jerusalém, a fortaleza de Sião, foi apresentada como “Cidade de Davi”, escolhida pelo próprio Javé. Para sustentar essa tese e dar respaldo a esta escolha, a Arca da Aliança, símbolo da religiosidade camponesa, foi transportada para Jerusalém (1Sm 6). Pouco a pouco, a elite, com a ajuda do Profeta Natã, foi incutindo no povo a ideia da escolha divina da casa davídica, com a qual Javé fez aliança para sempre (2Sm 7; Sl 89,1-5). A partir dessa ideologia, o rei passou a ser o intermediário entre Deus e o povo. Obedecer ou desobedecer ao rei significava obedecer ou desobedecer a Deus. Neste princípio está o germe da teologia da retribuição, como uma maneira de Deus retribuir a obediência ou a desobediência ao seu eleito: o rei. Com isso, deturpa-se a revelação de Javé, como um Deus Libertador, tão presente nos antigos, como Abrão, Isaac, Jacó e, até mesmo, em Moisés.

Assim sendo, no contexto da cidade-estado, Davi era um rei bom. Ele trouxe muitos benefícios para Judá. O povo viveu um tempo de prosperidade e paz… Esse sucesso se tornou ideal para os monarquistas. Eles fizeram da história de Davi o “manual” de ensinamentos político-ideológicos da corte. Todavia, lendo a história paralelamente entre o Sul e o Norte, percebemos que os benefícios estavam mais em prol da cidade-estado Jerusalém e a corte, do que às populações periféricas, como por exemplo a região Norte, seio do Israel pós-cativeiro egípcio.

Passou-se o tempo e Davi foi substituído no trono por Salomão, seu filho (970-931 a.C.). Este teve um comportamento diferente ao de seu pai. Ao assumir o governo, a primeira medida tomada por ele foi eliminar os remanescentes tribais, próximos à corte. Em 1Rs 2,12-35, Salomão, nascido em Jerusalém, mandou matar Adonias, seu irmão mais velho, nascido em Hebron (2Sm 3,4), e Joab, chefe do exército popular. Expulsou o sacerdote levita Abiatar para Anatot, uma cidadezinha do interior (1Rs 2,26-35). Enquanto o governo de Davi pode ser caracterizado como um governo de expansão, o governo de Salomão pode ser classificado como um governo de “segurança nacional” e solidificação do sistema monárquico. Salomão criou um exército poderoso, com carros de guerra, a arma mais moderna da época, para defender as rotas comerciais, os armazéns com os excedentes do palácio (1Rs 10,26-29). Construiu o Templo, palácios, cidades-armazéns (1Rs 6,9). Para manter essa infra-estrutura e a mordomia da corte, Salomão espoliou o povo com tributos em forma de arrecadação de produtos e de corvéia, ou seja, trabalhos que as pessoas eram obrigadas a prestar para as obras do Estado (1Rs 5,27-32; 9,15-24;11,28). O mesmo sofrimento imposto ao Povo Hebreu, quando do cativeiro no Egito, que revoltou a Javé a ponto de suscitar Moisés como seu mensageiro de libertação (+ ou – 1250 a.C.), agora era imposto pelo próprio rei de Israel.

Salomão é lembrado na história por sua sabedoria. De certa forma, em razão da própria construção de uma autoimagem que lhe beneficiasse. Organizou um grupo de escribas e sacerdotes da corte. Esses escribas, além de escrever os anais do reino, tinham a função de estruturar a justificativa ideológica da monarquia davídica que até então era embrionária. Podemos pensar que, de certa forma, essa iniciativa foi bem longe, dada ao exagero pernicioso. Enclausuraram a Arca da Aliança no Templo (1Rs 8,6) e, com ela, um dos pontos de referência da religiosidade popular. Javé, o Deus da vida, que caminhava com seu povo, agora tinha um rosto diferente: era Rei dos reis e sua morada era o Templo, na monarquia santa de Sião. Aí devia ser procurado. Mais tarde, Isaías – profeta do Templo e ligado à corte – assimilou essa teologia. O que lhe fará viver um processo de conversão à causa dos pobres, mas isso é tema para uma outra conversa.

Tendo em vista uma política centralizadora, colocando os recursos e esforços à disposição da capital, da cidade-estado Jerusalém, Salomão entra em choque com a realidade dos camponeses e a cultura tribal. Para o povo de Israel, carros de guerra com cavalos significavam rejeição ao exército popular camponês e a exploração do povo, uma vez que esta tecnologia militar gerava altos custos, sustentados pela tributação de todos, inclusive aos mais pobres. Além disso, tais mecanismos bélicos eram inadequados à topografia do país, pois Israel era uma região montanhosa. Os carros de guerra custavam muito, mas só serviam como imagem de poder militar. Quase ineficazes em situação de guerra. E para manter estas e outras vaidades do poder, a alta tributação em trabalhos de corvéia, sobretudo às tribos do Norte, estrangulou a produção do campo: base de sustentação da cidade e da própria monarquia (1Rs 4,1-5,8). Com isso, Salomão perdeu o controle de Edom e da Estrada dos Reis e, consequentemente, do comércio (1Rs 11,14-25). Para saldar as dívidas externas, o rei foi forçado a entregar cidades importantes (1Rs 9,10-14), pois a situação se tornou insuportável. No fim do governo de Salomão, já estava claro o clima de revolta (1Rs 11), que acabou estourando no início do reinado de seu filho Roboão (1Rs 12). Em 931 a.C. aconteceu a divisão do reino: Reino do Norte, Israel; Reino do Sul, Judá. Quando essa divisão acontece, gradativamente o Reino de Judá entra em declínio.

Como podemos perceber, fazendo uma leitura da história bíblica, dando voz a ela mesma, a Monarquia Davídico-Salomônica significou para o Povo de Israel como que uma resposta aos anseios de realização indenitária, tendo galgado árduos caminhos até se consolidar como uma sociedade de homens e mulheres livres. Todavia, não se pode negar que neste longo caminho, muitas vezes a própria identidade do povo se perde, assim como a de seu Deus, Javé. Entre Abraão e Salomão, não temos só uma distância de quase um milênio enquanto cronologia. A monarquia não só se esqueceu da religiosidade popular e sua intimidade com Javé, seu Libertador. Foi além! Na figura de Davi e Salomão, se perdeu a identidade de um povo de resistência, tornando-se tão opressor quanto os que oprimiram os hebreus no passado.

Bibliografia Consultada

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