Reflexões sobre o Conservadorismo Brasileiro e a Liberdade

Por Mauro Nascimento

O conservadorismo brasileiro, em sua forma atual, apresenta uma série de peculiaridades que o tornam único, ou, como se diz em latim, “sui generis”. Entre as diversas contradições que emergem desse movimento, uma se destaca pela sua complexidade: a noção de liberdade. Em discursos frequentes, ouvimos a declaração de que “a liberdade é mais importante que a vida”. No entanto, quando observamos as práticas e políticas defendidas por muitos autoproclamados conservadores, percebemos uma liberdade que, paradoxalmente, é restritiva e seletiva.

A liberdade, na retórica conservadora brasileira, muitas vezes parece ser uma questão de conveniência. Por um lado, defende-se vigorosamente a liberdade de expressão, a liberdade econômica e a liberdade de portar armas. Essas liberdades são exaltadas como pilares fundamentais da sociedade. Contudo, quando a liberdade de escolha se expande para questões sociais e comportamentais que fogem ao espectro da moralidade tradicional conservadora, há uma clara tendência de repressão.

Tomemos como exemplo a questão da descriminalização da maconha. A liberdade de escolher o que consumir é uma expressão fundamental da autonomia individual. No entanto, muitos conservadores brasileiros se opõem fortemente a essa liberdade, promovendo discursos e políticas que mantêm a proibição e criminalização do uso recreativo da maconha. Essa postura não apenas ignora evidências científicas e experiências de outros países, mas também perpetua um sistema que criminaliza desproporcionalmente determinadas populações.

O que se manifesta nesse contexto é uma liberdade que não é verdadeira, mas um simulacro – uma cópia superficial que não possui a essência do conceito que pretende representar. Essa liberdade condicionada e parcial revela uma profunda contradição no discurso conservador. Se a liberdade é, de fato, mais importante que a vida, então deveria ser defendida em todas as suas formas, contanto que não infrinja a liberdade dos outros e respeite os limites legais estabelecidos.

Essa liberdade simulada não é uma defesa genuína da autonomia individual, mas sim uma ferramenta para manter uma ordem social que favorece um grupo específico. A retórica de liberdade é usada para justificar políticas e atitudes que muitas vezes perpetuam desigualdades e injustiças. É uma liberdade que serve aos interesses daqueles que já possuem poder e privilégio, ao invés de ser um princípio universal aplicável a todos os cidadãos.

A análise do conservadorismo brasileiro e sua relação com a liberdade nos leva a questionar as verdadeiras motivações por trás dos discursos que exaltam esse valor. A liberdade, quando usada de forma seletiva e conveniente, perde seu significado profundo e se transforma em um instrumento de controle e exclusão. Para que a liberdade seja realmente valorizada e respeitada, é necessário um compromisso genuíno com a igualdade e o respeito aos direitos individuais de todas as pessoas, independentemente de suas escolhas de vida, desde que estas estejam dentro dos limites da legalidade.

Assim, a verdadeira liberdade, aquela que é mais importante que a vida, deve ser uma liberdade inclusiva, que permita a cada indivíduo viver de acordo com suas próprias convicções e desejos, respeitando sempre a liberdade dos outros. Somente então poderemos afirmar que vivemos em uma sociedade verdadeiramente livre.

Mauro Nascimento
Imagem: Freepik.


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