Por Pe. Hermes A. Fernandes
Em três estudos anteriores, tratamos de uma breve introdução ao Segundo Isaías e do contexto histórico e antropológico que serve de base para a profecia e construção literária deste segundo momento do que chamamos a Grande Obra, ou seja, todo o Livro de Isaías. Ainda fizemos uma análise da estrutura com que se constrói o Segundo Isaías. Vale lembrar que o livro que recebe o nome de Isaías se divide em três livrinhos, os quais, chamamo-los de Primeiro, Segundo e Terceiro Isaías. O que estamos a tratar nesta série de pequenos estudos refere-se ao Segundo Isaías, isto é, dos capítulos 40 a 55.
Neste estudo, vamos entender o Segundo Isaías à luz da história da Babilônia. Vamos embarcar nesta viagem pelo mundo bíblico?
“Os pobres e os indigentes buscam água, mas não encontram. Estão com a língua seca de sede.” (Is 41,17a)
Em situação de exílio na Babilônia, o povo judeu se encontra no “fundo do poço”. Fome, sede, trabalho forçado, violência e confinamento; sugam a vida dos pobres. É penar dia a dia! O sofrimento torna-se ainda maior quando imagina-se que tudo isso é castigo de Javé.
Para entender melhor a situação em que vivia o povo de Israel na Babilônia, vejamos como esse império vivia. Qual era sua situação para, consequentemente, entender como viviam os judeus exilados. Podemos entender a história babilônica em dois períodos. Uma do apogeu do império, sob o reinado de Nabucodonosor (605 a 563 a.E.C.). E a outra da época de sua decadência, após a morte do famoso imperador babilônico. Vamos lá!
Entendendo a Babilônia, seu apogeu e queda
O rei da Babilônia, Nabucodonosor, reinou de 605 a 562 a.E.C. Ele comandou a batalha de Carquêmis (605 a.E.C), na qual vence o Egito, aliado da Assíria. Ao retornar vitorioso à Babilônia, assume o poder em virtude da morte de seu pai. Seu período de governo é um dos mais prósperos que a Babilônia conheceu. Tempos áureos para quem se identifica com a posição de opressor.
Como sinal de seu poder e riqueza, o império Babilônico manda construir obras arquitetônicas de singular imponência. Nabucodonosor empreende grandes obras na capital, como a construção do canal que liga os rios Tigre e Eufrates, e a edificação da terceira muralha, com a finalidade de proteger a cidade contra invasões (cf. Jr 51,12-13.58). Constrói largas avenidas que se cortam em ângulo reto, terminando em praças com perspectivas amplas. Edifícios de três a quatro andares (o que era impressionante para a época) agrupam-se em quarteirões. Podemos concluir que a Babilônia pensou as cidades como as temos hoje. Do ponto de vista religioso, os templos eram grandiosos e seus jardins cuidados com esmero. O rio Eufrates, com um grande volume de água, corta a cidade em duas partes, denominadas Cidade Velha e Cidade Nova. A arquitetura babilônica e seu paisagismo primavam em ostentar o poder do império e, consequentemente, o nome de seu imperador, Nabucodonosor.
Falando da Cidade Velha, podemos dizer que ali ficava a fortaleza do norte, a cidadela, os jardins suspensos, a torre de Babel, a porta e a casa sagrada, além dos templos principais, como o de Marduk. Na Cidade Nova, estava o templo de Shamasch – o deus do sol, protetor da lei e justiça -, e o templo de Adad – um deus do oráculo e adivinhações. Nesse período de grande esplendor, a Babilônia atinge o auge de seu prestígio e torna-se o centro financeiro e cultural do mundo antigo, como podemos ver nos trabalhos dos mais célebres historiadores.
O comércio era a principal fonte de renda da Babilônia, com a qual, sustentava a suntuosidade e o luxo do império. Além disso, como todos os sistemas opressores, as guerras de conquista e cobranças de tributos, somavam à arrecadação, constituindo um reino poderoso e rico. Neste contexto, o domínio da Babilônia sobre Síria e a Palestina cria condições favoráveis para que seus mercadores controlem todo o comércio da Ásia Menor. Ainda vale lembrar que, no tempo de Nabucodonosor, o comércio não era monopólio do Estado, mas estava nas mãos dos grandes comerciantes. O mesmo acontece com a terra. Podemos pensar, com certa ironia, que a ideologia capitalista neoliberal teve seu momento precursor na Babilônia.
O clero religioso, sacerdotes da Babilônia, era formado de grandes proprietários de terra e detinha o monopólio da maior parte das atividades comerciais e das produções artesanais. O Estado, por sua vez, embora possuísse menos terras, mantinha o controle político e econômico da nação por meio de seu poderoso exército e da cobrança de tributos do povo e dos templos. O Estado ainda contava com o grupo de oficiais militares e altos funcionários da administração pública, além de outros aliados que, em troca de apoio, recebiam do governo terras e benefícios, como a isenção de impostos e tributos. Aqui podemos ver que, também a corrução política, teve sua inspiração precursora no mundo antigo e, (por que não?), na Babilônia.
A desigualdade social também teve sua representação histórica na Babilônia. Enquanto a família real, os grandes comerciantes e os altos funcionários da corte usufruíam todas as vantagens políticas, econômicas e sociais do império; as pequenas famílias de camponeses, pastores, pescadores, artesãos e pequenos comerciantes; enfrentavam uma realidade cada dia mais difícil. A maioria das pessoas do campo, por exemplo, trabalhava como arrendatário de terras que pertenciam aos templos e ao Estado, devendo pagar a estes um sétimo de sua produção. A opressão do latifúndio também teve sua inspiração precursora na Babilônia. Não conseguindo pagar a pesada carga de tributos, penhoravam seus bens, acumulavam dívidas e acabavam perdendo a própria liberdade. Em troca de comida e roupa, acabavam servindo às elites como escravos.
O povo palestino exilado vivia na mesma condição, ou até pior, do povo pobre nativo da Babilônia. Estes exilados, são feitos de propriedade do Estado Babilônico como espólio de guerra (cf. Is 47,6). Eram obrigados, muitas vezes, a trabalhar nas obras públicas e no campo, ou eram vendidos como mercadoria (cf. Salmo 137). Entre estas pessoas, estavam os exilados e exiladas da segunda deportação, ou seja, os judeus pobres. São estes homens e mulheres que deixaram no livrinho do Segundo Isaías sua memória do tempo de sofrimento e opressão.
Em meio à dureza do sofrimento, estas pessoas pobres e exploradas, nem sempre encontraram na figura da divindade a força no seu penar. Como nos diz Frei Carlos Mesters[1], o povo via a situação de um jeito errado. Um jeito torto. Entendia que foram abandonados por Deus. Por vezes, sua fé em Javé se fazia enfraquecida. Em contrapartida, o povo babilônico, como a maioria dos povos antigos, veneravam as forças da natureza, valorizavam a arte de interpretar os sonhos e presságios, e acreditavam que a força de uma divindade se manifesta por meio das conquistas do rei e das riquezas da nação. Por isso, o povo Judeu, influenciado pelo contexto em que vivia na diáspora, chegou a duvidar do amor e da força de Javé, seu Deus. A partir dessa compreensão, podemos entender as exortações do profeta:
“Fique, pois com os seus encantamentos, com a multidão de seus feitiços, pelos quais você se fatigou desde à juventude. Quem sabe você vai tirar algum proveito! Você se cansou de seus numerosos conselheiros? Que se apresentem, então, e a salvem os astrólogos que observam as estrelas e a cada mês fazem prognósticos do que vai acontecer a você.” (Is 47,12-13)
O Imperador valia-se das crenças religiosas do povo para, em nome de Marduk, a principal divindade babilônica, impor tributos e impostos cada vez mais pesados para sustentar a corte e o exército. Para manter a aparência religiosa da exploração, os sacerdotes realizavam cultos suntuosos nas praças, nos templos e nos santuários. Exigindo-se oferendas e sacrifícios “dignos” à glória de um deus tão poderoso (cf. Is 44,9-20).
Diante da pedagogia do medo imposta pelos sacerdotes a serviço do imperador, o povo – que já enfrentava uma realidade muito dura e precisava de ajuda e proteção – não queria correr o risco de “desapontar” a divindade, rebelando-se contra as cobranças do império. Na verdade, a religião acabou sendo usada por Nabucodonosor e pelos sacerdotes para extorquir da população pobre produtos e rendas destinadas à sustentação da corte e do templo, aumentando ainda mais o sofrimento dos pequenos, dos pobres.
Ainda há mais sofrimento por vir. Com a morte de Nabucodonosor (viveu de 630 a 562 a.E.C), começa-se um crescente processo de desestabilização da Babilônia até sua derrocada final. Em um período de mais ou menos sete anos, três reis assumiram o trono, dois dos quais foram assassinados. Essa situação demonstra a fragilidade do império. E quem paga o maior preço com isso são os pobres.
No ano de 555 a.E.C., chega ao trono o último imperador babilônico. Seu nome era Nabônides. Ele tenta recuperar a economia da Babilônia, mas logo cria um confronto com os sacerdotes de Marduk ao colocar a deusa Sin como divindade suprema do império. Por trás deste conflito de divindades está uma acirrada disputa econômica entre o Estado e os ricos templos, entre a monarquia e o poder religioso.
Nabônides e a Babilônia ainda tem mais uma ameaça à porta. O rei da Pérsia, Ciro (559-530 a.E.C.), torna-se cada vez mais poderoso. Ameaçando o, ate agora, maior império do mundo antigo. O conflito acontece e o resultado é a conquista da Babilônia pela Pérsia.
O desejo de Ciro ao conquistar a Babilônia era o domínio da Mesopotâmia, o território siro-palestino e algumas regiões do deserto da Arábia, até então em poder de Nabônides. A região siro-palestina era caminho aberto para se conquistar o Egito e, assim, ter em mãos todo o mundo conhecido naquela época. Este era o sonho de poder acalentado por Ciro, rei da Pérsia.
Neste contexto de guerras, conspirações, derrubadas de reinos; quem sofre mais? Certamente, o povo mais pobre. No acaso da Babilônia, as pequenas famílias camponesas, arrendatárias das terras dos templos e do Estado, e o grupo de escravos e escravas. Estas pessoas viviam em total insegurança. Diante da instabilidade econômica e da eminente queda do império babilônico, além das sucessivas guerras e disputas de poder entre os templos e o Estado; as taxas e os impostos eram cada vez mais altos. Os pobres não suportavam mais!
É nessa realidade de crise do final do período do exílio que se situa a comunidade do Segundo Isaías. Mergulhando no cotidiano dessa comunidade escravizada e explorada, vamos nos aproximar de sua vida massacrada e ouvir seus clamores. Expressão de dor e angústia.
Este é o tema para nosso próximo estudo. Conhecer a Comunidade do Segundo Isaías. Até lá!
(continua)
Nota
[1] Para se entender a maneira errada de interpretar o sofrimento e o amor de Javé no tempo do exílio, é bom a leitura do livro:
MESTERS, Carlos. A missão do povo que sofre; Tu és meu Servo!. Petrópolis: Vozes, 1981.
Deixe um comentário