Entre tocaias e calúnias, a Igreja perseguida vive

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Já somamos mais de 500 anos. O Brasil católico, com cinco séculos de história, tem muito o que celebrar. Penitencialmente, inclusive. A catequese aculturante está para nossa história como uma Nênia, um canto de súplica penitencial. Outrossim, também celebramos o sangue dos mártires. Homens e Mulheres que deram suas vidas neste Brasil pela causa dos sofredores. Alguns destes mártires, ministros ordenados.

Antes mesmo de conhecermos os padres cantores, curadores das emoções, tivemos padres que se identificavam com feridas sociais. Ministros ordenados que primavam pela formação de consciências, pelo protagonismo eclesial. Dedicados a viver e celebrar a fé, a partir da realidade dos sofredores. Se hoje temos forte representatividade de uma Igreja profundamente midiática e emotiva, apegada à estética; tivemos antes uma Igreja profética, sinodal e transformadora. Regozijamo-nos em lembrar de personagens como Paulo Evaristo Arns, Hélder Camara, Pedro Casaldáliga, Josimo, Aloísio Lorscheider, Luciano Mendes de Almeida, Ezequiel Ramin; entre tantos nomes. Padres e bispos que se deixaram suscitar por Deus a agir e partilhar da dor dos empobrecidos, explorados, marginalizados. Muitos destes, por real compromisso com os marginalizados, foram até às últimas consequências, perdendo suas vidas por assassínio.

Como bem nos esclarece e provoca o livro de Brighenti[1], hoje temos uma Igreja muito mais intimista do que comunitária. Claro que aqui não tencionamos condenar esse modelo de ser Igreja. Entretanto, ainda hoje, o Magistério se manifesta mais afinado com o antigo rosto do clero do que com o que vislumbramos nestes tempos. Os mais recentes documentos da Igreja insistem no sonho de uma Igreja em Saída, comprometida com os pobres, interagindo com suas dores e anseios, e em ação missionária e evangelizadora. Resgatando documentos recentes, temos o Documento de Aparecida, as Encíclicas Fratelli Tutti e Querida Amazônia, o Documento 105 da CNBB. Isso, citando poucos dos que nos vem imediatamente à memória. Ora, podemos concluir que a proposta da Igreja é sempre estar em saída, nas periferias existenciais, à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres. É viver e anunciar a Boa Nova do Evangelho com alegria, jeito humilde e paixão, para acolher o Reino de Deus e contribuir em sua construção já aqui na Terra, na esperança do Reino Definitivo. Tais sonhos nos impelem a:

– Ser presença evangélica e testemunho profético na Igreja e na Sociedade, sempre a partir dos pobres e excluídos;
– Lutar pela justiça, pelos Direitos Humanos, vivendo em comunidades fraternas, em busca de uma sociedade igualitária e solidária e de uma Terra-Mãe preservada;
– Acolher e valorizar, com espírito crítico, as diferentes culturas e vivências religiosas;
– Formar comunidades participativas, organizadas e com espiritualidade do encontro, da acolhida e da inclusão;
– Promover a vida de todas as pessoas e da natureza.

Nestes tempos em que vivemos e no desejo de efetivar tais sonhos, precisamos de ministros ordenados que estejam afinados com uma Igreja mais ministerial e comunitária. Onde as relações se fundamentem na vivência fraterna dos ministérios. Em que o anúncio de Jesus inspire mais serviço do que autoridade, transformando integralmente vidas para o Reino de Deus.

Das décadas de 1970 a 1990, tivemos grandes testemunhos deste modelo de ser ministro ordenado para a Igreja de Jesus. Entre tantos, alguns seguiram em ousadia profética, ao ponto de ter o sangue derramado. Mártires de uma Igreja que desejava ser pobre, com os pobres e para os pobres. Modelo de ser Igreja que, por muitos, foi marginalizado. Acusado até mesmo de heresia. Sim, os que se posicionam contra o Projeto do Reino, usam das mesmas artimanhas conspiratórias daqueles que tramaram contra Jesus: acusam de blasfêmia e heresia. Conspiração que resultou na Morte do Messias e deseja assassinar a Igreja em Saída.

Mesmo com o passar dos anos, esta Igreja permanece viva. Como não poderia ser diferente, ainda temos padres e bispos que apaixonadamente se dedicam às pequenas comunidades, compostas de empobrecidos, marginalizados, excluídos.

Entre tocaias e calúnias, a Igreja de Jesus continua viva e pobre. Com os pobres, ressignificando a Dignidade Humana, a partir das propostas do Evangelho de Jesus.

Nota

[1] BRIGHENT, Agenor. O novo rosto do clero: Perfil dos padres novos no Brasil. Petrópolis: Vozes, 2021.


Deixe um comentário

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑