O Terceiro Isaías e a corrupção teológica do judaísmo pós-exílico: quando o Templo e a Lei se voltam contra os prediletos de Iahweh

Por Pe. Hermes A. Fernandes

É possível encontrar na Bíblia referências a Ciro, rei da Pérsia, como um herói da causa de YHWH, na libertação de seu povo do Exílio Babilônico. Já dizia a tradição popular: “quem conta um conto, aumenta um ponto”. Entretanto, o que sabemos pela história é que a Pérsia também tinha planos opressores para Judá. Vamos lembrar um pouco da realidade exílica e pós-exílica e, com isso, entender a profecia do Terceiro Isaías sobre esse tempo e suas dores.

Estamos no Século VII a.E.C. O Império Babilônico teve seu apogeu durante o reinado de Nabucodonosor (605-562 a.C.). Com sua morte, o império inicia um processo de desestruturação e decadência. Em 539 a.C., Ciro, rei da Pérsia (550 a.C.), conquista a Babilônia, tornando-se o único imperador de todo o mundo conhecido naquela época. O número de povos subjugados pela Pérsia chega a 80.

Como mantinham o poder sobre tantos povos? Para manter a unidade e a soberania do império, usavam como estratégia manter uma certa liberdade religiosa e cultural aos povos dominados. Assim, evitavam revoltas e mantinham a imagem de “bom opressor”, como se algum opressor pudesse ser bom. Neste contexto, respeitavam o culto a Marduk, na Babilônia, e à Iahweh, em meio aos Judeus. Em razão desta permissão dada aos povos dominados de manter seus costumes religiosos e culturais, Ciro permite que os judeus voltem para Jerusalém, reconstrua o Templo e sua cidade santa. Entretanto, essa face de bondade persa é apenas aparência para estabelecer um forte controle econômico e político sobre a região conquistada. Basta lembrar o fundamento dos templos como centro de arrecadação de tributos. Os persas encorajavam a reconstrução dos centros religiosos destruídos durante a era babilônica, mas a administração destes centros era supervisionada e controlada com mão de ferro pelos agentes fiscais do império persa. O povo que não obedecesse era duramente castigado, como aconteceu com os jônios durante o reinado de Dario I (499-493 a.C.). Os persas queimaram seus templos, castraram os meninos e levaram as meninas para a corte do rei. Atrocidades e violência, eram a verdadeira realidade que se escondia sob a face do bom Império Persa.

Uma outra estratégia do Império Persa para facilitar a administração de suas colônias era dividir e organizar as regiões em satrapias, que – por sua vez – eram subdivididas em províncias. Cada satrapia tinha uma espécie de governador., que era chamado de sátrapa , escolhido pelo rei entre os nobres. Este morava em um palácio, rodeado pela corte e por funcionários. O imperador persa controlava os sátrapas por meio de pessoas de sua confiança, uma espécie de inspetor. Estes inspetores eram chamados de “olhos e ouvidos do rei”. Nada podia escapar à fiscalização.

Cabia ao sártrapa recolher e enviar ao imperador persa o tributo anual da província da produção local trocado por moedas. Essa cobrança de tributos nas colônias gerava um sofrimento imenso aos produtores rurais, trabalhadores, pessoas pobres. Para as famílias camponesas era necessária uma grande quantidade de produtos em troca de poucos moedas. Como o valor da produção era convertido por um valor injusto em moedas, essas famílias precisavam fazer empréstimos. Quando não conseguiam pagar as dívidas entregavam produção, animais, terra, suas filhas e seus filhos para trabalhar como mão de obra assalariada ou escrava. Por essas estratégias políticas e religiosas, Ciro permite a volta dos exilados à Jerusalém (Esd 1,1-11) e a reconstrução do Templo na Cidade Santa. E mais: Ciro ainda financia as obras (Esd 6,1-12). Uma artimanha para fundamentar a exploração futura. O Imperador Persa ainda alicia a elite judaica aos seus interesses. O grupo dos “Golá” (Esd 2), vem sob o comando de sacerdotes. Ciro fortalece o poder religioso, sob o pretexto do bem futuro. Assim, impõe autoridade no Templo e, com ela, um rigoroso sistema de arrecadação de tributos, fonte de renda para o Império Persa. Os povos dominados podiam praticar seus cultos às divindades, mas estão sob o controle econômico e político dos dominadores. Falsa liberdade! Opressão, disfarçada em bondade.

Com isso, apoiado pelo império persa, o grupo da Golá chegou a Judá considerando-se o verdadeiro Israel, os donos da terra (Esd 9,8-12). E o que pensavam as pessoas que permaneceram em Judá durante o tempo do Exílio Babilônico? Será que consideravam a elite judaica exilada a verdadeira “dona da terra”? Vejamos!

O movimento popular reagiu. Houve muita resistência (cf. Esd 4). Ao nível de primeira compreensão, Judá era apenas um pequeno grupo no meio dos outros povos, e Samaria era a província que mais se destacava na região. Mantinha o domínio sobre grande parte do território de Judá e não queria perder sua posição de liderança para o grupo de Golá (cf. Ne 3,33-37).

Mesmo na região de Judá haviam oposições. Em Judá haviam camponeses, chamados “pobres da terra”, que durante o exílio se organizaram. Estes grupos de camponeses viveram de forma mais solidária, mais popular; celebrando e vivendo a vida como podiam, mesmo que com simplicidade (cf. Jr 40). Este Povo de Resistência era contra a reconstrução do Templo (cf. Is 66,1-2). Lembravam-se bem dos reis e sacerdotes tomando suas produções durante o tempo da monarquia em Judá. Para estes grupos populares, o verdadeiro culto era a prática da justiça (cf. Is 58,1-10). Para estes pobres da terra, a reconstrução do Templo significava a volta do antigo sistema de opressão. Não por parte de uma Nação Estrangeira e, sim, pelas elites do seu próprio povo.

Não obstante a resistência dos pobres da terra ou das comunidades da Samaria, o Templo é reinaugurado em 515 a.C. e, a partir daí, consolida-se cada vez mais a soberania dos persas na região. Por volta de 455 a.C., o imperador Artaxerxes envia Neemias como governador de Judá, com a missão de reorganizar a economia e reconstruir os muros da cidade. Depois, cerca de 400 a.C., envia Esdras, sacerdote e escriba, para se responsabilizar pelo cumprimento da Lei e a manutenção do Templo. Neste período, se consolida o governo teocrático em Judá. Em torno do Templo e da Lei, justificado pela teologia da retribuição, tem-se os primeiros sinais do judaísmo formativo. Com a ligação do poder do estado à religião, temos o que se pode chamar teocracia. Quando a religião, a ganância capital e a sede de poder se encontram, o que temos é corrupção teológica.

Este momento histórico, e suas dores, foram registrados por muitos autores bíblicos. No livro do profeta Malaquias (515-455 a.C.), podemos perceber a corrupção dos dirigentes locais, principalmente dos sacerdotes, que deviam garantir o controle sobre a comunidade e a arrecadação de tributos para o Império Persa. Aqui se fez imperativo o trabalho de Neemias. Enviado por Artaxerxes em 445 a.C., Neemias – um judeu influente na corte persa – tornou-se governador de Judá.

Estas decisões e iniciativas foram tomadas à revelia do povo. Medidas de poder, tomadas pelos detentores do poder. Aos pobres, fora reservado o abandono, a exploração e o sofrimento.

Quando a religião se coloca a serviço do poder, se sente o cheiro de sangue e incenso. Por trás das Leis do Templo, existe – em verdade – um rigoroso sistema de arrecadação de tributos, que sustenta a elite religiosa judaica e o império persa. As famílias pobres sofrem a dor da miséria, da fome, da doença, do desemprego, da falta de moradia, da morte. E sofrem a humilhação de serem consideradas pelo sistema do Templo gente inferior, impura, desprezível. São excluídas da sociedade e, segundo a religião oficial, rejeitadas por Deus.

É neste contexto histórico que vimos se formar a terceira parte da grande obra de Isaías. Lembrando do fim do exílio babilônico, dos desdobramentos no processo de reconstrução do Templo e de Jerusalém, a comunidade dos pobres e esquecidos se organiza em profecia e resistência. Desta realidade nasce as páginas do Terceiro Isaías, comunidade que deseja promover o direito e a justiça, anunciando o Ano da Graça do Senhor e denunciando as injustiças e o desprezo aos pobres.

O espírito do Senhor Javé está sobre mim, porque Javé me ungiu. Ele me enviou para dar a boa notícia aos pobres, para curar os corações feridos, para proclamar a libertação dos escravos e pôr em liberdade os prisioneiros, para promulgar o ano da graça de Javé, o dia da vingança do nosso Deus, e para consolar todos os aflitos, os aflitos de Sião, para transformar sua cinza em coroa, seu luto em perfume de festa, seu abatimento em roupa de gala
(Is 61,1-3a)


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