Por Pe. Hermes A. Fernandes
Muito se falou no século passado sobre aparições de Nossa Senhora. Ainda hoje, no Século XXI, tal tema permeia o imaginário religioso dos católicos e católicas de nosso Brasil e exterior. Por conseguinte, inquire-se o que a Igreja diz a respeito desses fenômenos extraordinários. Parte dos cristãos e cristãs, católicos e católicas, pretendem dar certa “apimentada” no cotidiano da vivência religiosa. Como se o viver, a partir do Evangelho, não nos desafiasse o suficiente no cotidiano eclesial. Há quem precise de um caráter de mistério, cheirando a misticismo, para se sentir impulsionado à comunhão eclesial. Como se o Mistério de Cristo não mais nos bastasse como provocativo impulsionador ao caminho cristão. Destarte, há quem saia em busca de aparições de Nossa Senhora, conhecimento sobre o mistério dos anjos ou sobre demonologia. Em conseguinte, buscam um magistério paralelo, onde não se deseja conhecer melhor o Cristo e sim, aquilo que está como coadjuvante, ou mesmo inexistente, na História da Salvação.
Em nossos tempos, a devoção a São Miguel Arcanjo tem provocado um verdadeiro frisson nos corações devotos. São Miguel deixou de ser um servo do Senhor e tornou-se seu adversário. Há quem defenda que é um disparate o Mês da Bíblia acontecer no mesmo tempo em que se deva viver a Quaresma de São Miguel. É! Isso mesmo! Como se a dimensão soteriológica do Cristo fosse superada pela espada libertadora do “príncipe da milícia celeste”. Não seria Jesus Cristo a fonte primeira da Libertação Humana?
Ao se falar de aparições ou doutrinas paralelas, podemos qualificá-las como revelações particulares, ou mesmo, confusões de discernimento. Alguém intui algo a partir de sua criatividade e, convencido de ser tal pensamento a verdade, sai a anunciar ou defender tais intuições como verdade de fé. A isso entendemos como magistério paralelo, advindos de revelações particulares. Ou, em certos casos, desejo de se construir uma pseudo-teologia que subsidie uma eclesiologia equivocada, distante da comunhão com o Magistério Oficial da Igreja. Fenômeno comum após o avanço das mídias digitais, com seus influencers católicos. Aqui temos a Igreja Digital, infiltrada na Igreja Católica e seu Magistério, mas – nas entrelinhas – sua adversária. Por que? Por anunciar um Evangelho diferente do que nos deixou o Messias de Nazaré. E, por conseguinte, uma igreja que não é herdeira dos apóstolos e discípulos e discípulas do primeiro momento. Um catolicismo cheio de amenidades, superficialidades, misticismos, devocionismos. Um cristianismo, sem Cristo. Uma igreja caricata, que responde a interesses particulares e não corresponde ao Projeto do Reino de Deus.
Entre tantas confusões e manipulações de conceitos de fé, esta igreja sem Cristo, confunde e manipula por sua mariologia. Mariologia que atribui à Mãe de Jesus uma autoridade maior que a de seu Filho, Jesus.
A Igreja Católica não entende como viés da mariologia as aparições. Mariologia é uma lente de entendimento teológico que aponta para o Cristo. Toda mariologia deve ser cristológica. No tocante às aparições, como dito acima, reserva-se a dimensão de revelação particular, ou seja, destinada a uma ou mais pessoas, para as quais, até podem ter algum significado. Se alguém acredita que Nossa Senhora realmente apareceu e falou, pode continuar acreditando enquanto a Igreja não se pronuncie a respeito de modo oficial. Portanto, não se pode entender estes fenômenos como fonte de revelação da fé para toda a Igreja. Em tese, a teologia ensina que o conteúdo de tais revelações particulares não são artigos de fé, pois a Revelação Divina pública e oficial foi encerrada com instituição, pelo próprio Cristo, do Ministério Apostólico. A eles, os apóstolos, foi confiado o depósito da fé. É o que nos diz o Concílio Vaticano II: “A dispensação cristã da graça, como aliança nova e definitiva, jamais passará, e já não há que se esperar alguma nova revelação pública antes da gloriosa manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. 1Tm 6,14; Tt 2,13)”, (Dei Verbum, nº 4). Desta feita, nenhuma premência sobre a vida eclesial ou sobre a escatologia pode ser adicionada, de forma que sobreponha-se ao munus apostólico. “Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre” (Hb 13,8). E coube ao Ministério Apostólico, ao longo dos tempos, anunciá-lo até que volte (cf. Hb 9,28). Assim sendo, o anúncio do Cristo foi confiado a sua Igreja, na expectativa do Reino Definitivo.
É neste sentido que se faz seguro afirmar que não podemos acreditar em doutrinas novas, à relevelia do Evangelho. Não há depósito de fé diferente daquele a quem o próprio Jesus confiou. Mesmo que alguma verdade diferente ao Evangelho seja atribuída à revelação de algum santo ou, até mesmo, à Virgem Maria.
Ademais, faz-se prudente refletir que em nossos tempos atuais estamos nos perdendo no que é circunstancial e, por conseguinte, nos afastando do que é essencial. Quando se nos é apresentada a oportunidade de formações sobre temas como anjos, demonologia etc; percebemos que se enchem auditórios, tamanha a audiência em consequência do interesse dos cristão e cristãs. Todavia, é gritante a dificuldade de agregar pessoas para as necessárias formações sobre Campanha da Fraternidade, Mês da Bíblia etc. É comum ver queixas por parte de agentes de pastoral sobre o total desinteresse pelas Escolas Diocesanas de Teologia para Leigos e Leigas. Em contrapartida, os gurus da fé, por meio de seu magistério paralelo, lotam espaços físicos e virtuais com interessados por seus ensinamentos. Estes, cheios de equívocos e achismos das revelações particulares e, quando não, de rompimento com o Magistério da Igreja. Como se neles se encerrasse o desejo de dividir a Igreja, como o conceito etimológico de diabólico nos adverte.
Na eminente preocupação pelo descaminho proposto pelos influencers católicos, vale a prudência de advertir: se a Igreja não se manifestou oficialmente, cuidado! Há muita semente de divisão sendo plantada no jardim da Santíssima Virgem, ou embebida como veneno letal na espada flamejante do arcanjo guerreiro. Maria ou São Miguel não seriam opositores do caminhar da Igreja. Nossa Senhora não se atribuiria maior importância do que o Evangelho de seu Filho. Afinal, ela mesma colocou-se na condição de discípula de Jesus. E São Miguel? Aos arcanjos, cabe servir ao plano de Deus, não disputar premência com a Palavra Revelada.
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