“Vou abrir vossas sepulturas e conduzir-vos” | Reflexão a partir de Ezequiel 37,1-14

“Assim fala o Senhor Deus: Ó meu povo, vou abrir as vossas sepulturas e conduzir-vos para a terra de Israel; e quando eu abrir as vossas sepulturas e vos fizer sair delas, sabereis que eu sou o Senhor.'”
(Ez 37,12-13)


Por Pe. Hermes A. Fernandes

Estamos no mês da Bíblia. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil nos anima a aprofundar o Livro de Ezequiel, sob a inspiração do lema “Porei em vós meu espírito e vivereis” (cf. Ez 37,14). Em comunhão com toda a Igreja no Brasil, gostaria de apresentar um singelo comentário sobre Ezequiel 37,12-14. Esta perícope é um trecho do episódio que narra a visão de Ezequiel da planície coberta de ossos ressequidos (cf. Ez 37,1-14).

O nome de Ezequiel, filho de Buzi, evoca em seu sentido mais profundo a “força de Deus”. Para formar seu nome, utiliza-se a raiz hebraica “hzk” (hézek), isto é, “ser forte”, somando-se “el”, que significa Deus. Portanto, Ezequiel significa Força em Deus, ou “Deus fortalece”. Sobre sua origem, sabemos que era filho de um sacerdote (Buzi) e iniciou sua atividade profética provavelmente quando deveria ser admitido ao serviço sagrado no Templo, por volta dos vinte anos de idade, o que se pode verificar em Ez 1,1. A história de Ezequiel está ligada à história do Povo de Deus exilado na Babilônia. Sua pregação pode ser referenciada historicamente entre os anos de 593 e 571 a.C., o que situa o profeta entre os últimos reis de Judá e o exílio babilônico. Por isso, não lhe foi possível viver o sacerdócio no Templo. Não exerceu seu ministério no Santo dos Santos. Outrossim, Javé – que conhece o coração da história e a transforma – faz da vida de Ezequiel uma verdadeira experiência de Deus. De forma mística, experimenta o melhor da transcendência, como que contemplando Deus face a face. As visões de Ezequiel são revestidas de imagens e alegorias próprias à escatologia, pedagogia da criatividade de Javé, com a qual, incute no coração humano a esperança face aos sofrimentos diversos.

A mensagem de Ezequiel, sacerdote educado para reconhecer e preservar a santidade do Templo, está centrada na glória do Senhor. Mesmo vivenciando a degradação da dignidade humana entre os expatriados, quando se é negado o direito à Terra, à identidade e – até mesmo – à liberdade de fé; as palavras de Ezequiel expressam a magnificência divina desde o início de seu livro. Suas alegorias à gloria de Javé se iniciam contemplando a Criação, como podemos inferir de suas referências aos “seres vivos” que testificam a glória do Altíssimo (cf. Ez 1,4-24). Gradativamente, o texto de Ezequiel vai fazendo um caminho de proximidade entre a criação até o Criador, culminando no Senhor como aquele que transforma a história. Aquele a quem se glorifica por ter plasmado a história, é digno de louvor por transformá-la. Dos ossos ressequidos, das sepulturas, Javé fará um povo (cf. Ez 37,12-13). Não há limites para o poder daquele que é a própria força. Em seus trechos de narrativa, poemas e oráculos; pode se perceber na profecia de Ezequiel a marcante presença do gênero epopeico, isto é, figuras de linguagem poética que exaltam os atos daqueles sobre os quais os relatos se referem. O que se pode verificar no texto que nos é apresentado na Liturgia de hoje.

Assim fala o Senhor Deus: “Ó meu povo, vou abrir as vossas sepulturas e conduzir-vos para a terra de Israel; e quando eu abrir as vossas sepulturas e vos fizer sair delas, sabereis que eu sou o Senhor.

Porei em vós o meu espírito, para que vivais e vos colocarei em vossa terra. Então sabereis que eu, o Senhor, digo e faço — oráculo do Senhor”.

(37,12-14)

Aqui temos uma das página mais célebres de Ezequiel. Para bem compreendê-la, sugiro que seja lida na íntegra, isto é: Ez 37,1-14. Esta perícope apresenta uma visão, seguida de sua explicação. Importa ressaltar que, no texto, percebe-se Ezequiel como espectador e protagonista ao mesmo tempo. Uma voz lhe dá instruções e ele profetiza conforme lhe são apresentadas. Dois elementos salutares compõem a visão: os ossos e o vento. Os ossos secos simbolizam a aridez do sofrimento humano. Inerte diante das auguras da vida, o Povo de Deus está em situação de morte. Caminha em direção a tornar-se pó. O vento, símbolo do hálito vital do Criador, é o Espírito, o Carisma, a Força de Deus. O encontro entre o vento e os ossos desencadeia na restauração da morte à vida. O que antes eram ossos, transforma-se gradativamente em cadáveres e, por fim, em seres viventes. Há aqui um possível paralelo entre o texto de Ezequiel e o de Gênesis (cf. Gn 2,7). Também podemos perceber alguma convergência com Jó 10,9-11. É no Espírito de Javé que se encerra a vida, o qual, pode fazê-la brotar do árido pó, ou ser transformada do nada à plenitude.

Mais especificamente no que se refere ao texto que sobre o qual nos debruçamos em estudo, vemos a promessa de Javé de que o sofrimento do povo no exílio babilônico terá um fim. “Abrir as vossas sepulturas” (v. 12b) é uma clara promessa de libertação do estado de morte. Todo o texto apresenta o estado de cativeiro como símile ao estar morto. Expatriado, sem direito à identidade, sem liberdade; o Povo de Deus está como que sem vida, carcaça humana exposta ao sol. Javé não só promete devolver a vida, isto é, a dignidade e liberdade ao seu povo; como – também – promete reconduzi-lo à terra de seus pais. “Porei em vós o meu espírito, para que vivais e vos colocarei em vossa terra” (v. 14a). Na ressignificação da vida humana cativa, está a manifestação do poder de Deus. Ele é o Espírito de Amor que transforma. Amor que se traduz em compromisso. Amor Libertador que gera ou restaura a vida. Por isso, a magnitude e o compromisso de Javé para com seu povo se faz promessa pela profecia de Ezequiel: “Sabereis que eu sou o Senhor” (v. 13b), e ainda, “então sabereis que eu, o Senhor, digo e faço — oráculo do Senhor” (v. 14b).

Em nossa vida, não são poucos os momentos em que nos sentimos em estado de morte. Como podemos ver no livro de Ezequiel, toda vez que temos ameaçadas a dignidade e a liberdade em nossa história; é como se estivéssemos mortos. Quando nos são negados os direitos fundamentais, tais como trabalho, moradia, saúde; somos relegados à condição sub-humana. Somos como que ossos ressequidos sob o “sol do sertão” de nossa existência. A Liturgia de hoje forma em nossos corações a certeza de que nosso Deus é o Senhor da Vida. Ele pode ressignificar nosso viver. Conduzindo-nos da dor à alegria. Das penúrias de nosso pelejar, à dignidade própria aos filhos e filhas de Deus. No Senhor Javé se concentra o Espírito de dignidade e liberdade, de Vida Plena!

Sopra sobre nós, Senhor, seu hálito de libertação!


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