Por Pe. Hermes A. Fernandes
& Karina Moreti
Durante nossa caminhada cristã, nos deparamos com muitas situações, nas quais, os piores sentimentos se nos fazem apresentar. São as violências muitas, as injustiças, os atentados à Dignidade Humana em nome do Capital, do Prestígio (autopromoção), do Poder. Vivemos como testemunhas, espectadores, de um mundo culpado. Culpado por esquecer os valores de Deus, aderindo – cada dia mais – às tentações diabólicas que seduzem homens e mulheres com prestígio, fome de riqueza, poder. Como consequência, temos sofrimento, miséria, violência. Violência às mulheres, pelas muitas formas de misoginia. Violência aos vulneráveis, pela abominável aporofobia. Violência pelas muitas formas de racismo.
Mesmo no ambiente eclesial, tais tentações nos chegam. São as muitas formas de tradicionalismo que privilegiam as escaladas pelo poder e prestígio. São as virtuosas desculpas que favorecem o acúmulo de riquezas, em nome de Deus. Quem se esqueceu dos clérigos que acumularam bens e riquezas, ostentando luxo, porque sua ação evangelizadora está intimamente ligada aos métodos de marketing religioso? Esse mecanismo de comércio não deseja promover o sonho de Deus para a humanidade. Promove figuras sacerdotais que arrebanham pessoas, enchendo espaços de shows, ou motiva as vigílias insones com aquele sacerdote piedoso das madrugadas. Enquanto isso, cristãos e cristãs que escolhem doar a vida promovendo caridade e justiça social, são chamados de comunistas. Pode parecer belo e piedoso o modelo de ser Igreja midiática. Todavia, enquanto a fé glamour se expande cada dia mais, a fé comprometida com os projetos do Reino se atrofia; relegando profecia e engajamento à condição de exclusão. Quem nunca viu pregadores confundir (propositalmente) justiça social, profecia, opção preferencial pelos pobres; com ideologia marxista? Revestem a Igreja em Saída com o espectro do bicho-papão do comunismo. Enquanto isso, os pobres ficam cada vez mais pobres e, muitas vezes, quem os oprime e explora são os mesmos que rezam as insones Ave-Marias madrugueiras.
É fato que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil tem nos advertido herculeamente sobre a necessidade de uma Igreja comprometida com os apelos da realidade que nos cercam. As Campanhas da Fraternidade, a cada ano, nos apontam um foco de reflexão e ação em prol de uma sociedade mais humana e solidária. E mesmo sendo diretriz da Conferência Nacional dos Bispos, ou seja, Magistério oficial da Igreja; há quem simplesmente as ignore. E mais: não são raras as publicações nas mídias de opositores às Campanhas da Fraternidade. Com isso, busca-se uma Igreja presa no passado, apregoando espiritualidades atrofiadas, anacrônicas; cheias de devoção, mas vazias do Evangelho.
O Evangelho nos impele a transformar a realidade que nos cerca. Foi o próprio Jesus que, ao definir o programa de sua ação messiânica, recitou a passagem de Isaías 61 que diz:
“‘O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Notícia aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano de graça do Senhor.’ Em seguida Jesus fechou o livro, o entregou na mão do ajudante, e sentou-se. Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele. Então Jesus começou a dizer-lhes: ‘Hoje se cumpriu essa passagem da Escritura, que vocês acabam de ouvir.'” (Lc 4, 18-21)
Na perícope de Isaías, proclamada por Jesus, encontramos claras indicações de que a pessoa religiosa deve estar em plena comunhão com a vida. Fé e Vida aliançadas, formando e transformando-se mutuamente. A Espiritualidade Cristã é uma Espiritualidade Pascal, portanto, está em constante caminho. E, conforme podemos ver na perícope de Isaías, relida pelo texto lucano, o discípulo e a discípula de Jesus deve prioritariamente escolher os sofredores, aliando-se às suas causas; comprometendo-se com o processo de libertação das muitas formas de cativeiro. Já nos disse Maria Antônia Marques: “Toda religião que não se compromete com a dignidade e a promoção da vida é idolatria”.
Na atualidade do que vivemos, quando o cristão e a cristã se cala diante do sofrimento de seus irmãos e irmãs, corrobora para que tais sofrimentos se prevaleçam. Há culpabilidade na omissão. Ser profeta, agir em profecia, não é facultativo ao discípulo e discípula de Jesus. Ao contrário, trata-se de um imperativo. Nosso batismo nos impele ao mister de Jesus profeta, sacerdote e rei. O discipulado nos faz continuadores da Ação e Mensagem de Jesus. O silêncio diante das injustiças é cumplicidade, é revestir-se do espectro do Opressor, em detrimento dos oprimidos. É cair nas tentações propostas a Jesus no deserto (cf. Lc 4,1-13), escolhendo abundância e riqueza, prestígio e poder. É repelir o que advém do Evangelho, abraçando o que é diabólico.
Precisamos escolher entre o Espectro do Opressor e o Espírito do Evangelho.
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