Por Pe. Hermes A. Fernandes
A escatologia nos Evangelhos é uma leitura desafiante. Há muito a se compreender e, muitas vezes, superficial é nosso olhar. Entre os Evangelhos, a escatologia mateana é a que mais nos incita. Se por um lado Mateus fala dos novíssimos de uma veemência temerosa, de outro, nos aponta que o Projeto Redentor que se encerra no cumprimento da Justiça e na vivência do amor, aquece o coração e faz jus ao sentido mais etimológico de escatologia: Esperança! No desejo de compreender um pouco mais a escatologia mateana, propomos que façamos uma jornada pelo texto de Mateus 24,37-44.
Antes de qualquer coisa, precisamos lembrar que o discurso escatológico está presente nos três evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), porém é mais amplo em Mateus, uma vez que é esse evangelista quem faz questão de apresentar o ensinamento de Jesus organizado em forma de discursos mais prolongados. O discurso escatológico trata das realidades últimas e finais da história, antecedendo as narrativas da paixão, morte e ressurreição de Jesus, na estrutura dos evangelhos mencionados. Embora use imagens para falar das realidades últimas, o objetivo do discurso escatológico é ajudar a comunidade a viver o hoje como se já fosse o futuro, alimentando a esperança e estimulando a luta pela transformação do mundo já agora, com a superação das injustiças, da violência e do ódio. Por isso, mais do que falar de uma vinda, é mais oportuno recordar a necessidade de acolher uma presença que já está inserida no mundo, mas precisa ser acolhida e experimentada na vida de cada pessoa. O Reino de Deus está entre nós!
Vejamos o texto Mateano:
A vinda do Filho do Homem será como no tempo de Noé. Porque, nos dias antes do dilúvio todos comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca. E eles nada perceberam, até que veio o dilúvio, e arrastou a todos. Assim acontecerá também na vinda do Filho do Homem. Dois homens estarão trabalhando no campo: um será levado e o outro será deixado. Duas mulheres estarão moendo no moinho: uma será levada, a outra será deixada. Portanto, fiquem vigiando! Porque vocês não sabem em que dia virá o Senhor de vocês. Compreendam bem isto: se o dono da casa soubesse a que horas viria o ladrão, certamente ficaria vigiando, e não deixaria que a sua casa fosse arrombada. Por isso, também vocês estejam preparados. Porque o Filho do Homem virá na hora em que vocês menos esperarem.
(Mt 24,37-44)
Para uma compreensão mais adequada do texto, primeiramente, é preciso colocá-lo no seu devido contexto, como faremos aqui. Ora, como já adiantamos, trata-se de um trecho do discurso escatológico de Jesus. Ao nível de contexto literário, ou seja, considerando o texto no conjunto do Evangelho segundo Mateus, esse discurso nasceu como resposta à pergunta dos discípulos diante da declaração de Jesus sobre a destruição do templo de Jerusalém. Quando Jesus afirmou que daquela faraônica construção “não restaria pedra sobre pedra” (cf. Mt 24,2), seus discípulos, certamente escandalizados, lhe perguntaram “como” e “quando” tudo isso aconteceria (cf. Mt 24,3). O amplo discurso escatológico é, portanto, a resposta de Jesus a essa pergunta. Em nível de contexto sócio-histórico, no entanto, esse discurso nasceu como resposta à situação de perseguição vivida pelas comunidades do evangelista. Perseguidos pelas autoridades romanas e pelo judaísmo oficial (Judaísmo Formativo), os cristãos sentiam-se sufocados, desanimados porque não viam o Reino de Deus ser instaurado; sentiam-se quase sem forças para suportar o sofrimento e o desânimo. Por isso, com o discurso, o evangelista os convida à resistência e à perseverança, alimentando a esperança de um mundo novo e estimulando a sua construção. De fato, a situação das comunidades da Palestina, nos anos 80 do primeiro século, era bastante adversa, e a tendência ao desânimo na vivência da mensagem de Jesus era forte. E Mateus, o evangelista que mais conhecia aquela realidade, foi quem mais desenvolveu o discurso escatológico, com o intuito de renovar a esperança e perseverança, combatendo o medo causado por pregadores oportunistas que já existiam naquela época. Falta de esperança diante das perseguições, desigualdades, injustiças; são realidades que também estão em nosso contexto atual. E não faltam , entre nós também, pregadores oportunistas.
Tal qual os cristãos do primeiro século, também nós, face aos muitos opróbrios, nos firmamos na esperança da parusia. Quando o Reino de Deus se instaurará com sua plenitude de amor e justiça. Também nós pensamos que esse tempo tarda em chegar. Assim, voltemos à pergunta dos discípulos sobre “quando e como” aconteceria a grande transformação do mundo, cujo primeiro grande sinal seria a destruição do templo de Jerusalém. Sobre esta questão, é importante recordar que Jesus responde com bastante cuidado. Ele emprega uma linguagem altamente simbólica, típica do gênero apocalíptico, como era comum no seu tempo, e convida os interlocutores de todos os tempos a olhar para a história e observar o tempo presente. À história, se olha a partir da Escritura; ao tempo presente, se olha a partir do cotidiano, da vida das pessoas mais simples, como o agricultor e a dona de casa. Em relação à dimensão temporal, ao seja, ao “quando”, disse Jesus: “Quanto àquele dia e hora, ninguém sabe, nem os anjos do céu e nem o Filho, mas somente o Pai” (Mt 24,36). Essa confissão de ignorância do Filho parece estranha, uma vez que Ele mesmo já tinha afirmado sua intimidade com o Pai, mostrando que tinham tudo em comum: “Tudo me foi entregue por meu Pai” (cf. Mt 11,27a). A afirmação de não conhecimento do momento exato da manifestação definitiva de Deus é, portanto, um alerta para a comunidade não se deixar levar por falsos anúncios de muitos supostos destinatários de visões e aparições. Quanto ao “como” da manifestação, Jesus também não apresenta muitos detalhes, embora seja menos ambíguo do que na resposta ao “quando”; inclusive, disse que haveria perseguição aos seus seguidores, e que muitos pregadores aproveitariam a ocasião para causar medo nas pessoas, o que exige bastante vigilância e cuidado para não se deixar enganar (cf. Mt 24,4-14). É, portanto, nesse contexto sobre o qual nos debruçamos em estudo, que foi construído e transmitido o discurso escatológico na comunidade de Mateus e pensado também para as comunidades de todos os tempos e lugares. É comum e lamentável que ainda hoje muitos pregadores se ocupem de uma pregação da teologia do medo. Pregam um horror ao pecado, apontando a condenação como consequência irremediável. Não por fins piedosos, mas por uma pedagogia de poder. Os fariseus, no tempo de Jesus, recorriam a essa pedagogia. Como “os separados” da ralé pecadora, impunham fardos pesados sobre os simples e humildes, no desejo de promover sua magnificência. Uma religião de vaidades e dominação. Estes que se achavam os santos, estavam consumidos pela sede de poder e autoreferencialidade, autopromoção. A tentação pelo prestígio e fama. Aos fariseus importava dominar e ser admirados. Não diferente de muitos dos religiosos de nosso tempo.
Diante de tais desafios no entendimento do programa messiânico e seu Evangelho, é muito claro o interesse de Jesus em ponderar as expectativas e curiosidade dos discípulos. Na verdade, ele se preocupava bastante com tais expectativas, pois refletiam uma mentalidade incompatível com seu projeto de Reino. Por isso, ele ensina que, mais importante do que procurar descrever uma realidade desconhecida, é estar preparado para acolher a novidade da vinda do Filho do Homem, como Ele mesmo se auto intitula, ao referir-se à sua segunda vinda. E a melhor forma de preparar-se para tal evento é olhar com atenção para a história e perceber os sinais dos tempos. Por isso, Jesus cita o exemplo do tempo de Noé para apresentar a imprevisibilidade da sua vinda: “A vinda do Filho do Homem será como no tempo de Noé. Pois nos dias antes do dilúvio, todos comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca” (vv. 37-38). Assim, Ele mostra que a única coisa a ser feita é prevenir-se a partir do cotidiano, com discernimento e responsabilidade. Por isso, diz que “nos dias antes do dilúvio” (v. 38a), todos levavam uma vida normal, aparentemente, e muitos foram surpreendidos. Com isso, ele ensina que é necessário “normalizar” a vida a partir dos valores do Evangelho. Quer dizer, o ensinamento de Jesus deve ser regra e não exceção. Por regra, aqui, não se deve entender normas ou preceitos, mas o que deve ser prioridade e essencial, como o amor, a solidariedade, a justiça, a paz. A aqueles que aguardam a segunda vinda de Jesus, importa mergulhar profundamente no projeto do Reino, e não alienar-se em uma escatologia do sobrenatural, do angelismo, ou do medo puro e simples do inferno. Acolher ao Reino de Deus como se cada dia fosse seu hoje.
Ainda podemos dar umas pinceladas em nossa reflexão de viés exegético. O dilúvio (em grego: κατακλισμός – kataklismós), é apresentado como exemplo de como Deus pode surpreender a humanidade e como essa costuma não se prevenir para uma questão tão fundamental, que é a própria relação com Deus. Ao afirmar que “todos comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento” (v. 38b), Ele quer dizer que se fazia o que era normal e consumia-se todas as energias em coisas efêmeras, embora necessárias. As atividades de “comer, beber e casar-se” representam o cotidiano, as coisas que sustentam a vida em sua rotina e normalidade. São coisas essenciais, indispensáveis, bastante valorizadas nos livros proféticos e sapienciais da Bíblia Hebraica. Aqui, contudo, Jesus quer chamar a atenção para a comunidade não se contentar com a normalidade das coisas, pois foi por causa disso que muitos se perderam na história. Por isso, Noé é apresentado como exemplo de prudência, aquele que percebeu os sinais dos tempos, que são os sinais pelos quais Deus se comunica com a humanidade. Devido à sua prudência, “Noé entrou na arca” (v. 38c), enquanto os outros “nada perceberam, até que veio o dilúvio e arrastou a todos” (v. 39a). Mais do que um alerta, esse exemplo é uma advertência para a responsabilidade. É preciso considerar que o discurso escatológico é direcionado principalmente aos discípulos que viviam situação de perseguição e desilusão com os rumos da história, como a ocupação romana e a dispersão dos cristãos e membros do judaísmo formativo após a destruição do templo de Jerusalém, no contexto posterior ao ano 70 d.C. Portanto, é inadmissível que esses discípulos não saibam perceber os sinais dos tempos. Eles estavam “no furacão da história”, como nos afirma o célebre biblista Pe. Luis Alonso Schökel. Por isso, Jesus não lhes dá respostas prontas, mas convida-os a, inseridos no mundo, perceberem como Deus age na história. É preciso que o discipulado esteja enraizado na história. É preciso ler a fé com a vida. O contrario disso é alienação. Como nos diz Maria Antônia Marques, “toda religião que não promove a plenitude da vida é idolatria!”
Assim como a leitura popular da Bíblia nos ensina o ver, julgar e agir; Jesus usa de pedagogia semelhante para revelar sua mensagem escatológica. De um exemplo do passado, Jesus parte para o presente e percebe que também no seu tempo as coisas estavam acontecendo da mesma forma, ou seja, as atividades do cotidiano continuavam distraindo as pessoas. É claro que não se pode ignorar o cotidiano; pelo contrário, deve-se vivê-lo bem, com intensidade. E o trabalho, como é mostrado nos dois exemplos seguintes, é uma dimensão indispensável para se viver bem o cotidiano. É um direito e um meio essencial para a dignidade humana. Mas isso exige responsabilidade, o que passa pela busca de sentido para a vida, tanto em nível pessoal quanto comunitário. Por isso, Ele cita duas atividades típicas do seu tempo. Uma para o homem e outra para a mulher: o trabalho no campo e a atividade doméstica, respectivamente. Vejamos: “Dois homens estarão trabalhando no campo: um será levado e o outro será deixado. Duas mulheres estarão moendo no moinho: uma será levada e a outra será deixada” (vv. 40-41). Ao afirmar que um(a) será levado(a) e outro(a) deixado(a), Jesus não está antecipando a condenação e nem a salvação de ninguém, mas está lamentando que, novamente, a humanidade está desperdiçando a oportunidade de renovar-se, já que nem todos vivem as mesmas situações com a intensidade e a responsabilidade devidos. É lamentável que milhões de pessoas não tenham acesso ao trabalho digno. É igualmente lamentável que tantas pessoas não façam do trabalho um instrumento favorável à edificação do Reino de Deus. Portanto, Jesus não fala da condenação de uns e a salvação de outros e, sim, da desigualdade entre os humano, algo incompatível ao Projeto de Deus e seu Reino.
É neste mister que se faz imperativo entender que o Reino de Deus, cuja irrupção na história corresponde neste caso à manifestação do Filho do Homem, não é excludente. Ao contrário, é a própria humanidade que está rejeitando inserir-se nele. Enquanto alguns estão se esforçando para entrar nele, outros simplesmente o ignoram e, por isso, ficarão de fora. As atividades agrária e doméstica nesse contexto representam também o fechamento da humanidade a uma mentalidade antiga. Quem contentar-se somente em fazer estas coisas, sem preocupar-se com nada além disso, obviamente não está interessado no Reino, embora sejam atividades indispensáveis que não podem ser ignoradas. Aos discípulos e discípulas, é necessária uma abertura de horizonte. Estar atento à vinda do Filho do Homem é estar disposto a lutar e trabalhar pela instauração do Reino, e isso não se faz sem uma mudança de mentalidade. O Filho já veio; o discípulo e a discípula são desafiados, hoje, a reconhecer a sua presença e, assim, dar um novo sentido ao seu cotidiano, sobretudo, transformando-o. Por isso, é importante fazer – bem-feitas – as atividades do dia-a-dia, sem fechar-se nelas. Logo, quem trabalha no campo que o faça visando a construção do Reino, da mesma forma, quem exerce atividade doméstica ou qualquer que seja o trabalho. A instauração do Reino exige o esforço responsável e a esperança ativa de todas as pessoas. Quem deseja servir a Deus e tornar-se discípulo e discípula de Jesus, precisa fazer bem todas as coisas. Construindo o Reino aos bocadinhos, pedra por pedra, esperança sob esperança; na expectativa do Reino Definitivo.
Ainda podemos beber mais do discurso escatológico de Jesus na perícope que estamos a estudar. O último exemplo usado para alertar os discípulos sobre a imprevisibilidade da vinda do Filho do Homem é aquele, tão conhecido, do dono da casa que não sabe a que hora pode ser surpreendido por um ladrão: “Compreendei bem isso: se o dono da casa soubesse a que horas viria o ladrão, certamente vigiaria e não deixaria que a sua casa fosse arrombada” (v. 43). Essa imagem tornou-se clássica entre os pregadores e escritores do cristianismo nascente (cf. 2Ts 5,2; 2Pd 3,10; Ap 3,3; 16,15), como sinônimo de advertência para manter um espírito de vigilância na vida cotidiana, tendo em vista a imprevisibilidade da manifestação do Senhor e a construção contínua do Reino. Infelizmente, essa imagem ajudou a criar um certo medo e angústia entre os primeiros cristãos, levando-os até a distorcerem o sentido da vigilância, que corresponde à corresponsabilidade de tornar, cotidianamente, o mundo melhor. Muitos pregadores, ao longo da história, tem se apropriado desta imagem para provocarem terror nas pessoas. No entanto, o que importa é o convite feito aos discípulos para não desanimarem um único instante, como a exortação do último versículo: “Por isso, ficai preparados! Porque na hora em que menos pensais, o Filho do Homem virá” (v. 44). Essa vinda coincide com a destruição da ordem opressora vigente e o estabelecimento do Reino de Deus, por isso, a vigilância é fundamental, pois esse processo exigirá muito empenho dos cristãos e cristãs. Não se trata de teologia do medo e sim da esperança. O mundo, com todas suas mazelas, é passivo de mudança. Pelo sonho de Deus e pelo Evangelho de seu Filho, Jesus.
Por fim, podemos atualizar este texto do Evangelho de Mateus colocando-nos como espectadores e ouvintes de sua palavras, tais quais seus discípulos e discípulas da primeira hora. O convite feito por Jesus é, portanto, para que vivamos em estado constante de preparação para o encontro do Senhor, uma vez que Ele já veio e precisa apenas ser reconhecido e acolhido. Por isso, é preciso fazer do cotidiano uma constante preparação, ou melhor, preparar-se no cotidiano. Longe de ser uma mensagem de medo, o Evangelho é mensagem de salvação e boa-nova para todos. A “Boa Nova” de hoje é que, sem alarde algum, somos chamados a realizar nossas tarefas cotidianas já na presença dele, tendo em vista que já veio, para que o fazer cotidiano já seja direcionado à chegada do Reino de Deus, com a superação de todas as injustiças e violências que continuam ofuscando a presença do Senhor que já é “Deus conosco”, expressão que orienta toda o Evangelho de Mateus do começo ao fim (cf. Mt 1,23; 18,20; 28,20). Neste sentido, não podemos entender o discurso escatológico de Jesus em Mateus como subterfúgio à imposição do medo, sujeição dos pequeninos, autopromoção dos que se acham os santos, os separados da “ralé pecadora”. O Evangelho não promove a meritocracia. Não se pode pregar que Deus é um ser supremo impiedoso que escolhe os que merecem seu amor. Esse discurso pertence ao judaísmo formativo do tempo em que o Evangelho de Mateus foi escrito e que foi combatido pelo anúncio da Palavra e Ação de Jesus.
Já nos disse o Papa Francisco: o nome de Deus é Misericórdia! Em Jesus, Ele está no meio de nós! E com isso, faz com que cada um e cada uma tenha parte com Ele e nele se faz comunidade de esperança e libertação. A antessala do Reino de Deus!