“Senhor, quem entrará na tua Casa?”: O Filho do Homem, o Juízo Final e a Misericórdia – Comentando Mt 25,31-46

Por Seny Giannini &
Pe. Hermes A. Fernandes

Em artigo anterior[1] falamos sobre a perícope de Mateus 24,37-44. O intento de nossa última publicação era fazer uma introdução à escatologia mateana. Nesta nossa reflexão, gostaríamos de comentar o evangelho de Mt 25,31-46, texto que contém a parábola do juízo final, uma exclusividade do evangelista Mateus. Na verdade, há estudiosos que não classificam esse texto como parábola, mas apenas como uma “cena de julgamento”, um recurso próprio do gênero apocalíptico, ao qual, pertence todo o discurso escatológico do Evangelho de Mateus (Mt 24–25). Vejamos:

‘‘Quando o Filho do Homem vier na sua glória, acompanhado de todos os anjos, então se assentará em seu trono glorioso. Todos os povos da terra serão reunidos diante dele, e ele separará uns dos outros, assim como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. E colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda. Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Venham vocês, que são abençoados por meu Pai. Recebam como herança o Reino que meu Pai lhes preparou desde a criação do mundo. Pois eu estava com fome, e vocês me deram de comer; eu estava com sede, e me deram de beber; eu era estrangeiro, e me receberam em sua casa; eu estava sem roupa, e me vestiram; eu estava doente, e cuidaram de mim; eu estava na prisão, e vocês foram me visitar’. Então os justos lhe perguntarão: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, com sede e te demos de beber? Quando foi que te vimos como estrangeiro e te recebemos em casa, e sem roupa e te vestimos? Quando foi que te vimos doente ou preso, e fomos te visitar?’ Então o Rei lhes responderá: ‘Eu garanto a vocês: todas as vezes que vocês fizeram isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizeram.’

Depois o Rei dirá aos que estiverem à sua esquerda: ‘Afastem-se de mim, malditos. Vão para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos. Porque eu estava com fome, e vocês não me deram de comer; eu estava com sede, e não me deram de beber; eu era estrangeiro, e vocês não me receberam em casa; eu estava sem roupa, e não me vestiram; eu estava doente e na prisão, e vocês não me foram visitar’. Também estes responderão: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome, ou com sede, como estrangeiro, ou sem roupa, doente ou preso, e não te servimos?’ Então o Rei responderá a esses: ‘Eu garanto a vocês: todas as vezes que vocês não fizeram isso a um desses pequeninos, foi a mim que não o fizeram’. Portanto, estes irão para o castigo eterno, enquanto os justos irão para a vida eterna.”
Mt 25,31-46

Nosso texto anterior dedicou-se a Mt 24,37-44, outrossim, desde o Vs 31, do capítulo 24, já se tem um aprofundamento no discurso escatológico mateano, no qual, revendo Ezequiel, usa da alegoria do Filho do Homem como elucidação da aproximação entre as realidades humanas e divinas. O texto que nos debruçamos em estudo hoje (Mt 25,31-46) é a conclusão solene do último dos cinco discursos de Jesus no Evangelho de Mateus, o chamado “discurso escatológico” (Mt 24–25), como disséramos antes. Contém as últimas palavras de Jesus antes do relato da Paixão (Mt 26–27). Esse dado reforça ainda mais a importância do texto, pois é o fechamento de todo o ensinamento de Jesus, exatamente no Evangelho que mais evidenciou a sua atividade de ensinar. E o mais importante e comprometedor é que, na conclusão desse ensinamento, a opção pelos pobres e pequenos ocupa a centralidade. Como temos afirmado em nossas reflexões mateanas, esse discurso foi construído com a finalidade de chamar a atenção da comunidade do evangelista que vivia um momento de crise, com um esmorecimento na vivência da fé e preocupações com o tardar do retorno do Senhor. Com isso, o evangelista incentiva a comunidade a trabalhar os talentos confiados pelo Senhor, fazendo-os frutificar, sem preocupar-se com o tempo. Portanto, a exemplo das parábolas anteriores (parábolas dos dois servos – Mt 24,45-51; parábola das dez virgens – Mt 25,1-12; parábola dos talentos – Mt 25,14-30), também essa tem a finalidade de despertar uma vigilância ativa na comunidade. Importa se comprometer com a vida em Cristo, transformando as realidades que nos cercam. E não ficar estagnados, de braços cruzados, esperando a volta de Jesus para que possamos experimentar a plenitude do Reino. É imperativo que façamos de nossas vidas um prelúdio do Reino de Deus, pleno e definitivo.

Ao nível de introdução, feitas as devidas considerações introdutórias e contextualização, olhemos para o texto, que apresenta, em forma de parábola, uma cena de julgamento final conduzida pelo Filho do Homem, título com o qual Jesus se refere como auto definição. É importante recordar que o tema principal do discurso escatológico é a vigilância, ou seja, a espera atenta pelo desfecho final da história; por isso, o texto inicia com esta expressão: «Quando vier o Filho do Homem em sua glória acompanhado de todos os anjos, então se assentará em seu trono glorioso» (v. 31). O verbo “vir” relaciona essa cena às parábolas anteriores do mesmo discurso, sendo que expressa mais um manifestar-se do que propriamente um retorno. Com isso, o evangelista quer mostrar que o Senhor nunca foi embora, ou seja, nunca se ausentou, mas sempre esteve presente na comunidade. Inclusive, esse é um dos ensinamentos principais da parábola: mostrar que, mesmo depois da ascensão, o Senhor permaneceu na comunidade através dos pobres e pequenos. Um dos desafios da comunidade de Mateus era compreender e aceitar essa realidade, o que explica a ênfase do evangelista com o tema da presença do Senhor, o Deus conosco, Emanuel (Mt 1,23; 18,20; 28,20). Do começo ao fim, o evangelista mostra em sua obra que o Senhor já está na comunidade; agora, ele está falando da manifestação gloriosa. Entretanto, só nos será possível participar dessa manifestação gloriosa do Cristo, se compreendermos sua identificação com os crucificados na história, ou seja, os pobres, marginalizados, espoliados, prostituídos, explorados. Se não reconhecemos Jesus nos muitos crucificados na história, não participaremos da manifestação de sua glória. Não se trata de meritocracia ou recompensa pela caridade prestada aos vulneráveis. Em verdade, trata-se de reconhecer a identidade de Jesus, incrustrada nos sofredores. Os pobres são como que sacramentos da presença de Jesus em nossa história. Ele está neles. Se não o reconhecemos neles, não estamos com Ele.


É pensando em tudo isso que podemos compreender melhor o cenário da parábola do juízo final. Jesus assentado em sua glória, não como juiz que pesa os pecados e as virtudes, mas como quem identifica aqueles e aquelas que, de fato, tiveram parte no projeto do Reino e, consequentemente, assentam-se junto dele no Reino Definitivo. E o que é o Reino?

Vejamos: o assentar-se no trono glorioso recorda a realeza do Filho do Homem. De fato, ele é rei. O que nos surpreende, no entanto, é a maneira como exerce essa realeza, o que vem indicado nos versículos seguintes, que o apresentam como juiz universal e como pastor. Eis a primeira consequência da vinda/manifestação do Filho Homem: «Todos os povos da terra serão reunidos diante dele, e ele separará uns dos outros, assim como o pastor separa as ovelhas dos cabritos» (v. 32). A reunião de todos os povos da terra, mesmo que seja seguida de uma separação, já evoca a realização de uma fraternidade universal. Acabou-se o privilégio de Israel, que agora passa a ser contado como um entre todos os povos da terra. Como os critérios de juízo já não serão mais religiosos, Israel não tem vantagem sobre as demais nações, pois o que conta é o amor ao próximo, traduzido em ações concretas de serviço e solidariedade. A imagem do pastor é extremamente significante. Evoca cuidado, conhecimento do rebanho e intimidade com ele. Significa a dimensão serviçal do poder, incluindo o amor, a compreensão e o cuidado humanizante. É o contrário do poder tirânico, totalitário. A separação das “ovelhas dos cabritos” é uma imagem muito comum no mundo pastoril, sobretudo no antigo Oriente. Nos tempos de frio, todos os dias, ao anoitecer, os pastores faziam esse trabalho: as ovelhas dormiam ao descoberto, pois possuíam a lã como proteção natural, enquanto as cabras e cabritos eram colocadas para dormir em locais cobertos, uma vez que não possuíam um meio natural de proteção. Portanto, quer manifestando sua messianidade, quer sua filiação ao Pai, Jesus se identifica sempre pela dinâmica do amor doado em forma de cuidado, conforme as necessidades de cada um. E não se faz possível identificar-se como discípulo e discípula dele, sem esses mesmos requisitos. Seguir Jesus é cuidar, servir, amar.



Algo que também pode aguçar nossos pensamentos no entendimento desta perícope mateana é a universalidade da acolhida. Ao reunir “todos os povos” diante de si, o Filho do Homem irá fazer a separação. O critério da separação é o mais surpreendente: ao invés de considerar distintivos religiosos, como bons e maus, puros e impuros, dignos e indignos, santos e pecadores, ortodoxos e hereges; o critério utilizado pelo juiz universal é o que alguém fez ou deixou de fazer aos “pequeninos” ou “menores” dos irmãos, ou seja, às pessoas marginalizadas. A atenção aos “menores dos irmãos” é o critério de participação na vida definitiva, ou seja, o «reino que o Pai preparou desde a criação do mundo» (v. 34). Em Mateus, a mensagem de Jesus foi condensada nos cinco discursos e é importante perceber o nexo que une esses discursos: o primeiro, o da montanha, foi iniciado com as bem-aventuranças, nas quais Jesus introduzia a sua opção preferencial pelos marginalizados e sofredores (pobres, aflitos, mansos, perseguidos… Mt 5,1-12). Agora, no último discurso, como mostra o texto que estamos a estudar hoje, essa opção é reforçada e confirmada. Podemos dizer que, do começo ao fim, a mensagem de Jesus tem a atenção voltada de maneira especial para os “menores dos irmãos”, ou seja, toda a sua vida foi marcada por uma clara opção por aquelas pessoas desprezadas pela sociedade. Diferente do Judaísmo Formativo, no discipulado de Jesus, o escolhido é aquele que é desprezado. É a opção preferencial pelos vulneráveis, pequeninos, marginalizados; como critério de vivência do seguimento de Jesus.

A perícope de Mt 25,31-46 apresenta uma pragmática da mensagem. Não basta entender, é preciso partir para a ação. O discipulado é sempre dinâmico, nunca estático. Assim, a partir de seis situações (ações) concretas, o evangelho mateano mostra como alguém pode ser herdeiro ou não do Reino de Deus: «dar comida aos famintos, dar água aos sedentos, acolher os estrangeiros, vestir os nus, cuidar dos enfermos e visitar os presos» (vv. 35-40). Chamadas de “obras de misericórdia”, estas ações já eram recomendadas na Bíblia, ao longo do Antigo Testamento, especialmente em textos proféticos (Is 58,7; Ez 18,7.17). Portanto, Jesus não as inventa, mas dá um novo sentido, transformando-as em critérios exclusivos para o acesso definitivo ao Reino de Deus. Enquanto juiz e senhor da história, o Filho do Homem, conduzirá o julgamento com um diálogo bastante franco e sincero, iniciado com um convite: «Vinde benditos de meu Pai!” (v. 34a). Em seguida, são dadas as razões pelas quais são chamados de benditos do Pai: «Pois eu estava com fome e me destes de comer; eu estava com sede e me destes de beber; eu era estrangeiro e me recebestes em casa; eu estava nu e me vestistes; eu estava doente e cuidastes de mim; eu estava na prisão e fostes me visitar» (vv. 35-36). Chama a atenção a surpresa dos que são tratados como benditos (em grego: εὐλογημένοι – euloguêmenoi): eles perguntam quando viram o Senhor naquelas situações e o serviram. Essa surpresa é registrada pelo narrador para reforçar o caráter desinteressado e gratuito do amor transformado em serviço: fazer o bem, sem olhar a quem! Eles praticaram o bem sem esperar recompensa, e é isso o que o Senhor espera de todos. A surpresa aumenta ainda mais quando o Senhor diz: «todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes!» (v. 40). Famintos, sedentos, estrangeiros, nus, doentes e presos sintetizam todas as categorias de marginalizados e são expressões da presença real de Jesus na comunidade cristã. Isso quer dizer que, em qualquer momento da história e em todos os lugares, qualquer pessoa pode ver Jesus e servi-lo. Basta olhar para as pessoas que estão nessas situações e acolhê-las, amá-las, proporcionar-lhes justiça e misericórdia.

Sobre a metodologia da mensagem de Jesus, sua pedagogia e forma de ensinar; vale aqui um comentário exegético. Fazia parte dos métodos rabínicos ensinar a mesma coisa duas vezes: uma em sentido positivo, e outra em sentido negativo, sobretudo quando se tratava de um ensinamento muito importante, mas de difícil aceitação, como Jesus faz nesta parábola. Assim, o diálogo com o segundo grupo se desenvolve a partir da mesma dinâmica, embora com desfecho contrário, a começar pelo convite inicial: «Afastai-vos de mim, malditos» (v. 41). Da mesma forma como fez com aqueles considerados benditos, o rei-juiz dá as razões pelas quais esses últimos são chamados de malditos (em grego: κατηραμένοι – katêramenoi). Ou seja: não ter feito aquilo que fizeram os primeiros (v. 43). Também esses recebem a sentença com surpresa: «Senhor, quando foi que te vimos com fome, ou com sede, como estrangeiro, ou nu, doente ou preso, e não te servimos?» (v. 44). A resposta do rei só faz aumentar a surpresa: «Todas as vezes que não fizestes isso a um desses pequeninos, foi a mim que não o fizestes!» (v. 44). Assim como o terceiro empregado da parábola dos talentos (cf. Mt 25,18), a sentença de condenação não é consequência de maldades cometidas, mas de omissões. O que há de mais sério na vida do ser humano, e que pode levá-lo à privação da vida em plenitude, é a omissão, a indiferença ao sofrimento do próximo. A carência de ações praticadas em favor dos menos favorecidos. Logo, a sentença final (v. 46) não é um castigo divino, mas simplesmente consequência de opções contrárias à essência do Evangelho, o que torna a vida sem sentido. Viver pelo Reino, segundo os valores do Evangelho, nos faz partícipes de sua realidade e, consequentemente, nos proporciona a pertença a ele, enquanto Reino Definitivo.

À guisa de conclusão do discurso escatológico, o texto que estudamos hoje reforça a vigilância e dá um novo sentido a ela: não se deve ficar esperando pelo encontro com o Senhor na consumação dos tempos, em um tempo remoto. É preciso ter capacidade, maturidade e amor para encontrar-se com ele todos os dias, fazendo o bem àqueles nos quais o Senhor está presente, já elencados repetidas vezes aqui (faminto, sedento, estrangeiro, nu, doente e preso). A parábola é um alerta para a comunidade de Mateus, tão ansiosa pelo retorno do Senhor, mas incapaz de ver o Senhor já presente nos mais necessitados. Certamente, esse alerta continua válido também para os cristãos de hoje. O cristão verdadeiro encontra-se com o Senhor todos os dias, não tem medo nem anseia por um encontro final e decisivo, mas sabe que Ele já está aqui conosco. A presença de Jesus, por sinal, é o fio condutor do Evangelho segundo Mateus: do anúncio a José – Emanuel, Deus conosco (Mt 1,23) – ao envio dos discípulos após a ressurreição: «Eis que eu estou convosco todos os dias» (cf. Mt 28,20). Portanto, não há razões para a comunidade se perguntar quando virá o Senhor. O importante é perceber sua presença no cotidiano, nas situações concretas da vida. Mais que esperar a volta de Jesus, importa manter-se unido e unida a Ele, vivo e presente em nosso meio. Jesus foi-nos revelado na história e, conosco, pode transformar a história, hoje e sempre. “Eis que faço novas todas as coisas!” (Ap 21,5).


[1] https://eclesialidade.wordpress.com/2024/10/24/a-vinda-do-filho-do-homem-uma-palavra-amarga-e-doce/


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