“A ousadia dos Pequenos de confiar em Deus” | Homilia do 32º Domingo do Tempo Comum – Ano B | Por Pe. Paulo Sérgio Silva

[…] ao passo que ela, em sua pobreza, deu tudo o que tinha para viver.”
(Mc. 12,44)

A liturgia da palavra nos convida a fugir da falsa piedade enquanto nos recorda que quando temos a ousadia viver na fé que nos leva a repartir e compartilhar, generosamente e com amor, os bens repartidos tornam-se fonte de vida e de bênção.

Na primeira leitura (1Rs. 17,10-16) vislumbramos o exemplo da viúva pobre de Sarepta que, mesmo mergulhada na pobreza e necessidade, se deixou interpelar por Deus através da súplica profética e repartiu os poucos alimentos que lhe restavam com o profeta Elias. A história dessa mulher pagã agraciada pela generosidade divina, nos revelam que a confiança na providência que leva partilha e a solidariedade não empobrecem, mas frutificam em vida abundante. Esta viúva e seu filho (órfão de pai) manifestam duas lições catequéticas importantes: a viúva e o órfão são exemplos de desfavorecidos que sempre são objeto da predileção do amor de Deus que se esmera em cuidados para com eles; a viúva é uma fenícia, portanto, pagã, com isto é ensinado que a graça de Deus é universal e independe da raça, língua ou crenças religiosas. Ela é oferecida a todos os povos.

A segunda leitura (Hb. 9,24-28) oferece-nos o exemplo de Cristo, o sumo-sacerdote pleno. Tal qual a viúva que oferece no Templo suas duas moedinhas, cumprindo o projeto do Pai, Ele oferece aquilo que tinha de mais precioso: sua vida. Aos olhos dos observadores, as duas moedinhas da viúva pouco ou quase nada acrescentavam a já abundância do tesouro do Templo, no entanto, sua generosidade com tão pouco enquanto já não possuía mais nada, revelou um coração rico e abundante de confiança no Senhor. Do mesmo modo, aos olhos dos fundamentalistas e rigoristas, o sacrifício de Cristo foi apenas uma condenação sem fruto algum. Todavia, uma única gota do seu sangue precioso, uma só vez oferecido, teve a eficácia que milhares de oblações e holocaustos nunca alcançaram. 

No Evangelho de hoje (Mc. 12,38-44) constatamos que uma vez concluída a peregrinação espiritual e física em direção a Jerusalém, Jesus entrou naquela cidade e começou a anunciar o Evangelho como fizera em todas as outras localidades por onde passara. Com a entrada de Jesus na cidade santa, percebemos também que na liturgia já se aproximam os dias de preparação para sua entrada na história e na humanidade por meio da Encarnação. Sim, o Advento já se aproxima no horizonte de nossa estrada. E logo mais novamente um fisicamente diminuto sacrifício será reclinado numa manjedoura em Belém. A mesma ínfima criança que foi olhada com menosprezo pelos grandes de Jerusalém, será um dia novamente reclinada na cruz ante os olhares depreciativos daqueles que não conheceram verdadeiramente a Deus. O mesmo supremo e divino sacrifício, rejeitado pelos homens em época diferentes.

No entanto, se no caminho para lá Ele teve que enfrentar a incompreensão dos próprios discípulos, em Jerusalém, recebe a oposição das lideranças religiosas e políticas que novamente levam a Ele perguntas maliciosas com intuito de o desmoralizar. Na verdade, mas do que todas as outras peregrinações, esta em questão foi permeada por confrontos e controvérsias: Houve a expulsão dos comerciantes do templo (Mc 11,15-19); a maldição da figueira como imagem de Israel (Mc. 11,12-14); a indagação duvidosa sobre a autoridade de Jesus (Mc. 11,27-33) as acusações reprobatórias contidas na parábola dos vinhateiros homicidas (Mc 12,1-12); a cobrança de pagamento do imposto de César (Mc 12,13-17); e a polêmica sobre a ressurreição contra os saduceus (Mc 12,18-27) e a questão do maior mandamento (Mc. 12,28-34).

Jesus e os discípulos aproveitam uma pausa nas polêmicas para contemplar a vida da cidade santa. E nisto utilizam-se dos gestos e atitudes dos transeuntes para aprofundar a necessária catequese sobre os valores do Reino. Através do filtro do coração de Jesus são apresentados dois modelos ou formas de cultuar a Deus e render louvores a sua providência. De um lado da balança estão os escribas, tidos como modelo de fiel judaico, com suas vestes garbosas, ritos solenes, doações e sacrifícios minuciosos, todavia perdidos na teatralidade demagógica dos rituais vazios advindos de corações ressequidos pela autossuficiência e ganância. Do outro lado, uma pobre e anônima viúva, que “esperando contra toda esperança” (Rm. 4,18) permanece com o coração imerso em generosidade, despojando-se de si mesma, e insistindo em confiar em Deus. Aquela mulher, invisível seja para os transeuntes apressados, seja para os soberbos que buscam visibilidade enquanto fingem rezar, foi contemplada por Deus, no céu e na terra, e proclamada como modelo autêntico de fé. Lembremos que no caminho à Jerusalém Jesus convida um homem rico a segui-lo e este como medo de renunciar a todo seu supérfluo, recusa o convite e vai embora, triste (Mc. 10,17-22). E agora dentro da cidade, de modo discreto, uma mulher viúva, pobre e desamparada (imagem de Israel quando foi encontrado por Deus no Egito) oferece a Deus no templo, não um acúmulo frívolo, mas tudo o que possuía para viver.

Ao lado dos fariseus e saduceus, os escribas imperavam como líderes religiosos. Seus grupos rivalizam-se entre si a ponto de não importar a verdade da Escritura, mas sim manter a autoridade de sua categoria. Infelizmente muitas vezes, nós, discípulos atuais, também agimos assim. Cada vez mais, nas redes sociais, esfacelamos e despedaçamos a Igreja como um espólio que deve ser dividido, devorado e tomado como posse entre conservadores e modernos. Isto quando não o fazemos também em âmbito paroquial competindo para saber quem possui a verdadeira espiritualidade ou quem manda mais: carismáticos ou CEBs, catequistas ou liturgos, leigos ou sacerdotes […]. E enquanto fazemos isto, provavelmente a “pobre viúva” está a passar novamente, ante nossos olhos cegos pela soberba, em direção ao sacrário para oferecer, como Jesus Cristo, sua vida a Deus Pai, pela salvação do mundo.

Em tempo de encerramento do Sínodo sobre a Sinodalidade, e de Ano de Oração em preparação para o Ano Santo Jubilar, rezemos para que nossas ações eclesiais, mas do que refletir ou ecoar a vontade de meu grupo eclesial, movimento, pastoral ou associação, seja manifestação desta mesma atitude de humildade, generosidade, total confiança e amor verdadeiro.


Pe. Paulo Sergio Silva
Diocese de Crato


Deixe um comentário

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑