Por Pe. Hermes A. Fernandes
Certa feita, nosso amado Papa Francisco foi questionado por falar sempre sobre os pobres e pouco sobre a classe média. Na oportunidade, este sábio e bom pastor, nos apresenta uma catequese que nos aproxima do projeto evangélico de ser Igreja não só para os pobres, mas a partir dos pobres. “O Papa fala para todos porque a Igreja é de todos. Todavia, não pode se subtrair da centralidade dos pobres no Evangelho. Isso não é comunismo. É Evangelho puro! Não é o Papa que fala dos pobres (e para os pobres), mas é Jesus que os coloca no centro, neste lugar. É uma questão de fé e não pode ser negociada. Se você não aceita isso (a centralidade do pobre), não é cristão.“
Estamos por iniciar o Ano Litúrgico de 2025. No esquema de três anos (A, B e C), a Liturgia nos proporá como Evangelho temático, o testemunho das Comunidades Lucanas, o Evangelho de Lucas (Ano C). Neste Evangelho, fica-nos clara a centralidade do pobre na Ação Messiânica de Jesus.
Como é de nosso conhecimento, o Evangelho de Lucas é a primeira parte da grande obra lucana. A segunda é o Livro de Atos dos Apóstolos. Situando este Evangelho nos anos 80 e 90 dC, somos levados a concluir que o texto foi elaborado após a destruição de Jerusalém pelo Império Romano, na conhecida guerra acontecida nos anos 70 dC. Tanto os cristãos, como os membros da comunidade judaica, foram obrigados a se refugiar no norte da Galileia, na Síria, na Ásia Menor. Nessas regiões também viviam pessoas de descendência e cultura helênicas. O que nos faz concluir a forte influência helênica no viver e pensar religioso. A obra de Lucas se destina a estes, aos leitores desligados de questões judaicas. Atento à necessidade de que a mensagem evangélica chegasse às diversas culturas, Lucas escreve seu Evangelho de forma inculturada. Evitando semitismos, ou esclarecendo certas referências às particularidades do judaísmo, quando necessário. Com isso, ele direciona a mensagem de Jesus a todos os povos, sem acepção de pessoas. É cuidadoso ao consultar suas fontes e apurar os fatos. Já no início do Evangelho, aponta o método de seu trabalho: por consulta a outras narrativas e círculo de testemunhas oculares (cf. Lc 1,1-4). Lucas deseja anunciar a fé em Jesus, sem deixar de lado a aplicação e o esmero próprios aos historiadores. Entretanto, ao compor as cenas dos acontecimentos narrados, não se prende ao estilo grego, recorrendo à midrash, estilo hebraico de fazer memória dos fatos à luz da experiência e do sentido da fé.
Outra particularidade do Evangelho de Lucas é a conexão com sua segunda obra, os Atos dos Apóstolos. Com esta característica, o Evangelho se mostra como prelúdio de uma grande ordem de acontecimentos. O Evangelho passa a ter uma posição intermediária, conectando a Promessa do Primeiro Testamento, aqui ressaltamos a íntima relação da obra Lucana com a Profecia de Isaías; e a realização desta Promessa na pessoa de Jesus e nas comunidades cristãs após o Pentecostes. A preparação para a Economia da Salvação que se dá pelo Primeiro Testamento é essencial para se compreender a missão de Jesus no Segundo. E, posteriormente, a ação da Igreja. Por isso, a obra de Lucas faz a passagem da Antiga para Nova Aliança de forma pedagógica. Os personagens da infância de Jesus, sobretudo Simeão, personificam a passagem do passado promissor da Aliança e Promessa, para o Tempo que chegou. Posteriormente, não menos importante, é a vivência deste novo Tempo, pelo caminhar da Igreja nascente em Atos dos Apóstolos. Como o Primeiro Testamento profetiza e prefigura Jesus, este – o Messias – forma e prepara a missão dos Apóstolos. Para tanto, forma-os gradualmente ao seu lado, os instrui, os previne sobre dificuldades vindouras na vivência do discipulado, dá-lhes seu Espírito. Por isso, Lucas – ao contar os Atos dos Apóstolos – se compraz em estabelecer paralelos entre Jesus e a Igreja nascente. Traçando, assim, uma teologia pneumatógica, até mesmo trinitária; narrando acerca da ação permanente do Pai e do Filho, por intermédio do Espírito Santo. Assim sendo, o texto lucano marca cirurgicamente a passagem do Antigo ao Novo, da Promessa ao Tempo da Graça. Um processo sem ruptura. Em continuidade. Daí vemos ser assertivo o dizer de alguns biblistas hodiernos, quando afirmam ser mais apropriado dizer Primeiro e Segundo Testamentos, em vez de Antigo e Novo. A história da salvação é uma continuidade.
Outro arquétipo particular da obra lucana é a insistência de que a palavra e ação de Jesus caracteriza o abraço misericordioso de Javé, seu Pai, a quem carinhosamente nos ensina a chamar de Abba, paizinho. Nesta revelação do Deus-Misericórdia, os pobres, sofredores, marginalizados, mulheres, excluídos; tomam lugar central na Palavra e Ação de Jesus. Por exortações e parábolas, Jesus nos impele a viver um caminho de compromisso com os vulneráveis todos, libertando-os de seus sofrimentos, sempre tendo a misericórdia como caminho do viver religioso.
Por ser voltada radicalmente em favor dos pobres, a atividade de Jesus reverte uma série de injustiças históricas. A pobreza e a doença eram vistas como consequências do pecado, marginalizando as vítimas de tais infortúnios. Esta visão errônea do mal que aflige a vida humana é desmitificada por Lucas. A pobreza e a doença não podem ser atribuídas ao pecado. Javé não pode ser visto como mero castigador ou recompensador, imputando aos pobres e doentes a marginalização por seus sofrimentos. A isto chamamos Teologia da Retribuição. Um equívoco que deve ser extirpado de toda chave de leitura bíblica. O Evangelista Lucas parece estar atento a esta dificuldade de compreensão do mal e da ação de Deus. As curas e os exorcismos de Jesus são mais do que manifestações de seu poder. Segundo Lucas, Jesus não é um taumaturgo, um curandeiro. Quando dos exorcismos e das curas, a pessoa que experimenta a ação de Jesus tem sua vida reintegrada à comunidade e ressignificada em seu valor. É um processo de libertação. Desde o Magnificat de Maria, fica-nos clara a transformação da realidade a partir de Jesus. A ação de Javé inverterá a realidade dos empobrecidos “derrubando os poderosos de seus tronos e elevando os humildes; saciando de bens os famintos e despedindo os ricos de mãos vazias” (Lc 1,52-53).
Que possamos, enquanto Igreja de Jesus, ao aprofundar neste novo Ano Litúrgico o Evangelho de Lucas, entender as exortações de nosso amado Papa Francisco. Precisamos ser Igreja Pobre com os Pobres, pois a eles pertence o Reino de Deus.
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