O padre, o mendigo e o católico virtuoso

Por Pe. Hemes Fernandes

Não sei se esta história é verdadeira. Não posso atestar a veracidade dela. Porém, é inegável que tem muito a nos dizer. Entendamos como uma parábola para nossos tempos.

Havia um padre em uma pequena cidade do interior do Mato Grosso do Sul. Mesmo pequena, sofria as mesmas chagas das grandes metrópoles. Próximos à Igreja Matriz, pobrezinhos passavam seus dias à espera da caridade dos abastados. O alimento cotidiano advinha da sensibilidade de muitos personagens, quase anônimos, do movimento diário das cidades. Há quem esteja atento às exortações de Tobit a seu filho: “Nunca afaste de algum pobre o teu olhar” (Tb 4,7). Mendigos e corações caridosos têm uma relação histórica de amor.

Um dia, o referido padre caminhava com seu amigo, ministro extraordinário da comunhão eucarística, rumo à Matriz. Não tardaria a próxima missa. Antes de chegar à Casa de Deus, os dois passaram pela casa dos pobres, das pessoas em situação de rua. As calçadas, praças, viadutos. Logo uma voz quase inaudita se fez ouvir: “padre, uma esmolinha, pelo amor de Deus”. O clérigo interrompe a conversa com o amigo e responde, enquanto revira seus bolsos: “claro, meu filho”. Entrega-lhe dinheiro suficiente para um almoço, ou um bom café da manhã.

Alguns passos à frente, o acompanhante do padre, ministro do altar, diz em reprovação: “padre, com todo respeito, você não deveria ter feito isso. Esses mendigos são bêbados, drogados, preguiçosos. Você só fez piorar a derrota desta pessoa. Contribuiu para esses comportamentos deploráveis”. O padre, paciente como sempre, disse: “pode ser, pode não ser… Como saber?”

Depois de algum silêncio, o padre continuou, justificando seu ato caridoso: “sabe, meu irmão, meu discernimento é muito fraco no que se refere a avaliar pessoas. Eu poderia me recusar a ajudar aquele irmão em sofrimento, pensando que qualquer dinheiro que vá para as mãos dele, tenha como destino a cachaça, as drogas. E que sua situação vulnerável poderia ser mesmo consequência da preguiça. Todavia, aquele irmão poderia realmente estar com fome. Aí, quando me pediu ajuda, lembrei-me de Mt 25,35-45. Eu poderia estar julgando mal e ignorando a mensagem de Jesus”.

E continuando o caminho para a igreja, o padre foi falando da escatologia mateana. Das promessas do Reino dos Céus reservadas àqueles que entendiam a misericórdia e a prática da justiça como antessalas do Reino. O padre sabia o texto quase de memória. Foi citando e explicando Mateus:

Pois eu estava com fome, e vocês me deram de comer; eu estava com sede, e me deram de beber; eu era estrangeiro, e me receberam em sua casa; eu estava sem roupa, e me vestiram; eu estava doente, e cuidaram de mim; eu estava na prisão, e vocês foram me visitar’. Então os justos lhe perguntarão: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, com sede e te demos de beber? Quando foi que te vimos como estrangeiro e te recebemos em casa, e sem roupa e te vestimos? Quando foi que te vimos doente ou preso, e fomos te visitar?’ Então o Rei lhes responderá: ‘Eu garanto a vocês: todas as vezes que vocês fizeram isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizeram.?”
(Mt 25,35-40)

Depois, o padre concluiu: “é isso, meu irmão! Não posso me arrogar o direito de juiz. Avaliando quem é ou não merecedor da misericórdia. Nós precisamos entender que somos investidos de uma missão, segundo o Evangelho. E não é missão de juiz e sim de agentes da misericórdia. Não podemos sair por aí, imbuídos de motivação virtuosa, avaliando quem é ou não merecedor da Graça, do Amor ou do Olhar Misericordioso de Deus. A ordem que recebemos é que, uma vez que confessamos fé em Jesus, sua Palavra e Ação, devemos entender que nossa condição de discípulo de Jesus nos faz responsáveis por todos aqueles que só tem em Deus a esperança. Há quem sempre viva uma religião de virtudes e milagres. Entretanto, nós somos o milagre. Somos nós quem podemos fazer a vontade de Deus possível. E a verdadeira virtude é a justiça e a misericórdia, como ações concretas do amor de Deus em nossas vidas e de nossos irmãos e irmãs. Se eu nego o pão ao pobre, refuto a palavra de Jesus. Sou um cristão de palavras vazias, pois é a ação que testemunha a mensagem evangélica como viva e real. Para ser discípulo de Jesus, preciso entender que os Evangelhos não são só textos deixados a nós e que os lemos há mais de dois mil anos. O Evangelho é um jeito de ser e de viver. Enquanto discípulos e discípulas de Jesus. O Reino de Deus é aqui.”

E o amigo do padre disse, entristecido: “É, padre! Parece que mesmo buscando ser uma pessoa virtuosa e estando na Igreja de forma engajada há mais de vinte anos, não entendi o que é – de fato – ser Igreja. De nada adianta ir ao altar de Deus, se antes, não passei pelo altar dos pobres. São Vicente de Paulo nos deixou um ensinamento e insistimos em ignorar ou relativizar: ‘Os pobres são nossos mestres’!”

E o padre, sorridente e pensativo, afirma: “Mais que isso, meu irmão! Os pobres são a porta do céu!”


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