Por Pe. Hermes A. Fernandes
Já se faz corriqueiro o debate em nossas comunidades onde se afirma que este ou aquele grupo está mais próximo da verdadeira vivência da fé Cristã. Assim como nos tempos das Primeiras Comunidades, alguns grupos dentro das Igrejas se definem como aqueles que melhor se colocam a caminho do seguimento de Jesus (cf. 1Cor 3,4). A Igreja, em uma visão mais periférica, poderia se dividir em três grupos específicos: Movimentos, Pastorais e Associações de Fiéis. Meio que contraditoriamente, parte daqueles que se ligam a um destes grupos, se sentem mais próximos do Caminho de Jesus, do que aqueles que se identificaram com outro diverso. Isso é um grande equívoco! Se tomarmos como base a necessidade de uma Igreja Sinodal, e se entendermos que a unidade na diversidade enriquece, somos levados a concluir que um destes grupos sempre será o complemento do outro. Como uma grande orquestra formada por instrumentos diversos (cf. 1Cor 12,27).
Os movimentos e associações de fiéis são grupos da Igreja que desejam seguir a Jesus por uma espiritualidade específica. Há muito de assertivo e legítimo nisso! Quando uma pessoa decide participar da Renovação Carismática Católica, do Movimento dos Folcolares, das Equipes de Nossa Senhora, do Terço dos Homens, de Ordens Terceiras Seculares (carmelitas, franciscanas ou oblatos beneditinos, por exemplo); deve ter como foco o seguimento de Jesus. Trata-se de uma espiritualidade, de um carisma específico. Tais carismas estão para nós como forma ou método. Outrossim, o que está sob perspectiva é o Projeto de Jesus, isto é, o Reino de Deus. Estes grupos são métodos e não o objetivo. Ser da RCC, dos Folcolares etc; não pode abrigar em si a essência do ser cristão. O que nos define como seguidores e seguidoras de Jesus é nosso batismo e a vivência do Evangelho, ou seja: anunciar o Reino de Deus e preconizar sua realidade já aqui em nosso tempo.
Neste sentido, participar de um movimento ou associação de fiéis não resume em si a essência do ser cristão. Não podemos dizer que estamos em plena comunhão com a Igreja de Jesus pelo fato de participar deste ou daquele movimento, vivendo sua espiritualidade, seu carisma. A espiritualidade é como uma fonte acessível, disponível para saciar nossa sede durante o caminhar. Não se pode beber de uma fonte e sentar-se à beira do caminho, estagnado por medo ou comodismo. Os carismas nos apontam qual forma caminhar. A espiritualidade nos sacia a sede durante este caminhar, porém, importa que estejamos a caminho. O foco é o seguimento de Jesus.
Poderíamos nos perguntar: o que de fato é seguir Jesus? Ora, ele mesmo – pela teologia lucana – nos apresentou seu programa messiânico e – neste sentido – nos apontou o caminho para segui-lo na condição de discípulo e discípula. Diz o Evangelho de Lucas:
“O Espírito do Senhor está sobre mim,
porque ele me ungiu para anunciar a Boa Nova aos Pobres.
Enviou-me para anunciar a liberdade aos presos
e a recuperação da vista aos cegos,
para dar liberdade aos oprimidos
e para anunciar o Ano da Graça do Senhor.”
(Lc 4,18-19)
Podemos perceber que a unção de Javé impeliu Jesus à vivência de uma missão. A messianidade de Jesus evocava ações concretas e transformadoras. Ser o Messias esperado, atribuía-lhe responsabilidades junto aos sofredores, ressignificando suas vidas, transformando-as a partir da pedagogia do Reino de Deus que é Justiça, Paz e Alegria. Um projeto de Vida Plena (cf. Jo 10,10).
A partir deste postulado, podemos concluir que nossa condição de discípulos e discípulas de Jesus nos impele a estas mesmas ações concretas e transformadoras. Nosso amado Papa Francisco sempre nos exorta sobre a necessidade da Igreja ser missionária e samaritana. De forma concreta, à luz de nossa realidade brasileira, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil nos aponta seguros caminhos, pelos quais, podemos fazer da Palavra Revelada em Lucas uma realidade carne em nossa própria carne. A Igreja pode viver o programa messiânico de Jesus, sendo continuadora deste mister, quando deseja:
“Evangelizar no Brasil cada vez mais Urbano,
pelo anúncio da Palavra de Deus,
formando discípulos e discípulas de Jesus Cristo,
em Comunidades Eclesiais missionárias,
à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres,
cuidando da Casa Comum
e testemunhando e Reino de Deus, rumo à plenitude.”
(CNBB, Doc. 109)
Portanto, podemos ter este ou aquele grupo, nos quais, vivemos inspirados por espiritualidades e carismas específicos. Todavia, estar nestes grupos não nos define como seguidores e seguidoras de Jesus. É no compromisso com o testemunho do Reino de Deus que somos identificados como discípulos e discípulas de Jesus de Nazaré. Este testemunho se faz concreto quando fazemos opção pelos empobrecidos, promovendo a Justiça e a Paz, enquanto comunidades eclesiais missionárias e samaritanas.
Lembrando o início de nossa reflexão, não se justifica o debate sobre se este ou aquele movimento ou associação de fiéis está mais próximo da verdadeira vivência da fé. Estes grupos são espiritualidades, fontes a saciar a sede durante o Caminho. Importa que assumamos nosso lugar neste caminhar, atuando de forma comprometida nas pastorais de nossas comunidades, com ousadia profética. Prender-se a uma espiritualidade ou carisma, estagnando-se neles, é saciar a sede e sentar-se à beira do caminho. É fazer experiência de Jesus, sem tornar-se – de fato – discípulo ou discípula dele.
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